Mawaca: a sonoridade do mundo

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Tem algum bom tempo que o Mawaca faz parte da minha vida. Veio junto com a chamada world music e na bagagem também outros grupos como o Terra Sonora, por exemplo. Não houve nenhum estranhamento. Se na década de sessenta as pedras começaram a rolar com o rock e o blues por que não brasileiros não poderiam hospedar em sua música universal a universalidade étnica? Assim, em encontros que aconteciam por aqui – Porto Alegre – havia sempre banca de venda de discos que passavam e ainda passam ao largo dos meios mais comerciais. Violeiros, grupos étnicos, folk brasileiro, nordestinos, paraibanos, o Armorial, Quinteto da Paraíba, iniciantes, uma gama quase infinita de nomes de conteúdo imenso e criativo. O Mawaca estava entre eles. Hoje, entre os meus preferidos, não descansa na cedeteca. É para estar no player quando a manhã começa a ganhar cor e descobrimento. Os vocais harmonizados com instrumentos acústicos como o acordeom, o violoncelo, a flauta, o sax e mais as tablas indianas, beri,bau, instrumentos árabes, africanos e de outras regiões do Brasil compõem um quadro sonoro vital de entrelaçamento entre culturas seja ela japonesa ou irlandesa, seja ela da Finlândia ou da Indonésia. Há sempre um ponto comum e uma fronteira desfeita. Uma terra de todos em cada acorde e em cada vocal. Música sim do mundo. E nossa.

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David Gray, Beth Orton, The Verve, Fleet Foxes & XTC

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Sexta-feira, começo do fim de semana, o inverno dando suas últimas escapadas pela manhã azulada de hoje, o sol chegando devagar, as ruas e seus movimentos, as pessoas e seus caminhares e a música como companheira das horas que ora correm ora descansam.

Fotografia: Chronosfer

Baka Beyond:` Journey Between`

Baka

A união ou reunião de músicos do Senegal, Ghana, França e Reino Unido, e também ao longo dos anos outros países como Camarões, onde tudo começou. criou Journey Between. O nascimento, em 1992, veio com o rótulo de world music. Para variar. O Baka Beyond é muito mais que um rótulo. É música sim do mundo, mas música com consequência e discernimento. No álbum, Kate Hardy, Su Hart, Alassane N´Gom, Martin Cradick, Paddy le Mercier, Marcus Pinto, Nii Tettey Tetteh, Addoteh Richter, Annor Asanioah e Petit Robert Diatta transformam suas culturas em um trabalho em o sentido do nome Baka seja verdadeiro: Que todos sejam ouvidos. E o resultado é um disco magnífico, com as misturas de ritmos, folclore, percussões, cantos, danças e harmonias que vão se transformando em uma textura extraordinária e envolvente. Importante, a preservação na execução das canções dos instrumentos originais de cada país, o que dá uma dinâmica própria, de identidade única e ao mesmo tempo múltipla pois cada um contribui com sua bagagem cultural. É impossível ficar impassível ao escutar o Baka. E é muito complicado destacar essa ou aquela música. Todas são frutos maduros. Todas estão prontas para serem colhidas e vividas. Todas são a expressão de povos que se entrelaçam sem pensar em diferenças. É um projeto vital. E merece ser espalhado pelo mundo adentro. Procure outros discos do Baka Beyond. É celebração, é vida. Abaixo canções do disco Spirit of the forest.



Mayra Andrade: Lovely Difficult

Mayra

Encontrei pela primeira vez Mayra Andrade na Livraria Saraiva, setor de discos. Perdida em meio a tantos cds misturados estava o Lovely Difficult com uma pequena tarja indicando que a cantora dos disco é do cabo Verde, terra de Cesária Évora. Logo minha atenção ficou nele, e comprei o cd. Não o escutei nos primeiros dias em sua nova morada, já em harmonia com outros ou da Cesária, de alguns que já passaram por aqui. Isso foi no ano passado, ano pesado e triste para mim. Talvez por isso, fui deixando o tempo passar, escorrer entre os calendários de casa e um dia qualquer acho que de outubro ou pouco antes, quem sabe setembro, o player acolheu Mayra. A jovem cubana cuja história de vida vai ganhando experiência e bagagem ao viver em lugares como o Senegal, Angola, Alemanha, França, onde mora (Paris), e, claro, Cabo Verde. Uma gama imensa de vida e culturas se mesclando, formando uma identidade nova e ao mesmo tempo tão raiz tamanha a profundidade do seu canto. O início nos bares que recebem cantores de world music na eterna noite parisiense, o Satellite Café, impulsionou uma carreira que foi abraçando prêmios desde cedo. E com canções brasileiras, embora a medalha de ouro conquistada no Canadá nos jogos de Francofonia tenha sido típica cabo-verdiana. E começa a brilhar nos palcos. Os discos foram chegando ao natural: Navega (2006), Stória, Stória (2007) e Studio 105 (2010) solidificam seu jeito Mayra de cantar. Um quê na raiz, outros quês no moderno. Dessa fusão, a aproximação com brasileiros como Chico Buarque, Lenine, Hamilton de Holanda, Dominguinhos, Yamandu Costa (o segundo youtube lá embaixo), a própria Cesária, Mariza e João Pedro Ruela. esteve com o guitarrista cabo-verdiano, grande nome da música das ilhas, Hernani Almeida em shows em 2006. Lovely é a maturidade. É o passo à frente. É uma presença definitiva que a música pode ser renovada e preservar a identidade. Que a sensibilidade ainda comanda os acordes e as harmonias e a voz outro instrumento sacro nessas tessituras. Mayra Andrade. Para ficar sempre presente.



Foto capturada no site http://www.kalamu.com

From Senegal to Setesdal by Kirsten Braten Berg

Noruega

O encontro de músicos de um continente com outros de outros continentes não é mais algo tão raro e não soa mais estranho. A chamada “world music” tem seus méritos. Esse é um deles. E a magia da fusão entre os vários ritmos, sem quebrar a identidade de cada um, se realiza sem os apelos do comercialismo ou da visão mera e simples do vender discos. Alguns desses trabalhos são emblemas do novo. por vezes, assustam. Pela qualidade. Pela forma natural que cada um se coloca diante do outro. From Senegal to Setesdal da norueguesa Kirsten Braten Berg com Solo Cissokho, Kouame Sereba e Bjogulv Straume a mágica é insinuante. É fogo que arde. Não se apaga. Kirsten é uma cantora folk. Já diz tudo. Enraizada na tradição, não se preocupa em descobrir outras raízes. A África é mais que raiz. É tudo. O encontro com os senegaleses é espontâneo. Visceral. União perfeita, feita de nuances e beleza musical e espírito abertos. Além de mesclar a tradição com o moderno, é uma profunda pesquisadora da música da sua Noruega. Os instrumentos e vozes dialogam. A todo instante, não há espaço para os silêncios, daqueles silêncios que não dizem nada mesmo. Ao contrário, está à frente. Kirsten possui também uma discografia alentada, vários prêmios, e reconhecimento pelo talento e sensibilidade. Abaixo alguns dos seus momentos, que também são nossos momentos. Inesquecíveis.




Quintal do Semba, Angola extraordinária

Gravação surpreendente, quase despercebida da grande mídia, Quintal do Semba é muito mais que um documento. É História. É a presença angola revitalizada e mostrando ao mundo sua excelência musical. Nos estúdios da Rádio Nacional de Angola se reuniram os principais nomes da música daquele país e desfilaram verdadeiras peças preciosas do que mais tradicional em ritmo na África. Ao mesclarem o novo com o mais antigo, traduzem a força de um continente. Semba ou massemba ou ainda umbigada em quimbundo, língua angolana, tem muito do que conhecemos no Brasil: batuque, dança de roda, lundu, chula, maxixe e até Partido Alto. Também significa dança do interior caracterizada por movimentos que implicam o encontro dos corpos masculino e feminino, quando então o homem segura a mulher pela cintura e puxa-a ao seu encontro, provocando o choque. Como gênero musical, é um complexo processo de fusão e transposição da guitarra com vários elementos de percussão, que é a base da cultura africana. Catalogado em vários sites de venda com “world music” o cd e o dvd são magníficos testemunhos. Estão os mais representativos e genuínos músicos de hoje como Carlitos Vieira Dias, Paulo Flores, Moreira Filho e Ângela Mingas. Não deixam, também, de celebrar os mestres do passado como Liceu Vieira Dias, Fontinhas, Belita Palma, Elias Dia Kimezo e Artur Nunes entre outros. Ao lançar um olhar mais apurado pelo encarte – belíssimo – você ire encontrar Caetano Veloso, Nei Lopes, Wilson Moreira e Djavan na bela “Rapsódia Brasileira Maria das Mercedes”. Nada é por acaso no disco. Os instrumentos e as vozes estão em perfeita comunhão e o sabor do que mais tradicional e belo do continente africano, com muitas falas em português misturadas com sua língua, e se unem ao moderno também em harmonia e espiritualidade. Um belo disco.

 

Quintal do Semba

Ao vivo na Rádio Nacional de Angola

Diversos

Maianga Discos

 Imagem

Foto: Capturada na Internet.