The Who: Live at Leeds

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A eletricidade do The Who sempre foi única. Pete Townshend, Roger Daltrey, John Entwistle e Keith Moon formaram um quarteto para muito além daqueles anos sessenta. Suas apresentações ao vivo eram verdadeiras celebrações e é inesquecível sua participação no documentário sobre Woodstock, com Daltrey simplesmente extraordinário no vocal e toda uma rítmica comandada pelo baixo de John, com a força de Moon e a inquietude de uma guitarra exuberante de Pete. O Who foi uma banda ao vivo, seus álbuns de estúdio ficaram passos atrás, não que fossem fracos ou ruins, não, absolutamente não, apenas não reproduziam suas performances que se tornaram lendárias. Live at Leeds tem peças diversas, a começar por Tommy, e outras passagens de sua carreira e seus clássicos. Puro rock´n´roll. Nele, pérolas como “Young Man´s Blues”, e a poderosa e eterna “My generation”.  Se pararmos um pouco e Leeds chegar com toda a sua força vamos concluir que o heavy no rock passa pelo The Who. Ou começa com ele. Um disco indispensável, vibrante e marca definitivamente uma época para quem a viveu e para quem não conhece a oportunidade de vive-la em pouca mais de duas alucinantes horas. Vale cada segundo.

Foto: capturada no http://www.nomundogrove.com.br

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Crosby, Stills & Nash: Demos

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Gravações que estão ou estavam à beira do tempo, quase no esquecimento dos próprios artistas, renascem para todas as partes: músicos, gravadoras e público. Claro que por trás de muitos desses lançamentos há sem dúvida alguma a questão comercial, no entanto, também não há como dizer rejeitar escutar trabalhos ainda crus de Crosby, Stills & Nash antes de eles serem um grupo. Vale para outros artistas, por suposto. Em Demos a conjunção começa com versões solo ou em dupla, eventualmente com a presença de Neil Young, quase todo acústico e cada um revelando suas origens. Se Graham Nash vinha dos Hollies, David Crosby dos Byrds, Stephen Stills do Buffalo Springfield, cada um foi demonstrando suas influências dessas bandas e cada qual com o seu jeito de compor, tocar e cantar. O grande mérito do disco é esse. E para além, mostrar o quanto juntos são harmônicos e brilhantes. Young esteve também no Buffalo. E em algum momento a corrente elétrica ou seria acústica? os uniu. No lendário Woodstock, confessam nervosismo e que estavam em suas primeiras apresentações ao vivo. O conjunto de músicas – doze –  apresentado em Demos remete ao período de 1968 a 1971 e que após, ao entrarem em estúdio, receberam o tratamento que os tornou um trio ou quarteto ou dupla excepcionais – ao longo dos anos foram variando as formações entre eles. O álbum vale por tudo o que representa, desde as possíveis, digamos, fragilidades quando a sós, e a fortaleza que se tornam quando juntos. Sobretudo, um disco doce e muito bonito, bom de se escutar e melhor ainda por sabermos que são músicos que independente do talento trabalharam muito para se tornarem Crosby, Stills & Nash, às vezes com Young.

Joe Cocker: *1944 +2014

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Joe Cocker morreu. Li assim a notícia. Crua, chamada de matéria, uma frase sem ponto. Ontem, aqui mesmo, celebrava Madeleine Peyroux. Hoje, olho a foto acima do mítico Woodstock e aperta o coração. As perdas de 2014 a cada dia aumentam. Crescem de forma assustadora. E cada uma delas é uma tragédia. Pessoal e coletiva. A civilização parece estar se esfarelando diante dos nossos olhos e o que antes afirmávamos “os sonhos não envelhecem”, do Márcio Borges, está perdendo para a dura realidade do cotidiano. E não me refiro as perdas no universo cultural. São todas as perdas. Sem exceção. Será assim até o fim dos dias.

Joe Cocker vem lá dos anos sessenta, dos quais já me confessei refém. Sua voz rasgando o blues ou transformando em blues um rock certeiro como foi o sublime “With a little help from my friends” na voz quase desaparecida de Ringo Starr no emblemático Sgt. Pepper´s Lonely Club Band (1967), deixando o beatle na saudade, é algo inesquecível. Jamais será repetido, creio que nem ele mesmo conseguiu. Assim como Richie Havens gravou um disco brilhante somente com canções dos Beatles e Bob Dylan, Cocker mesclava os compositores em seu repertório. O cantor inglês de Sheffield no mesmo festival de Woodstock, nos discos lançados não faz tanto tempo das apresentações solo, está lá uma deslumbrante “Just like a woman”. Ele foi (e continuará sendo) dilacerante em suas canções. Até as baladas como “You are so beautiful” ganham uma dramaticidade ímpar. Soube como ninguém acelerar os corações, estremecer as almas, vibrar os corpos, energizar a vida, fazer da música sua corrente sanguínea.

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Já próximo do seu fim, ainda magnetizava. mesmo com a voz repousando tantas vezes seja pelo cansaço seja pelo excesso do que viveu com intensidade, Joe, nascido John Robert Cocker, sabia como ninguém eletrificar a plateia. Quase confessional, eu escuto o disco ao vivo 1990 e permito que a suave saudade se instale não para amenizar a dor mas para também celebrar Joe Cocker. Valeu, Joe! Por tudo, pelos sonhos realizados, pela realidade também sonhada.

www.youtube.com/watch?v=POaaw_x7gvQ

www.youtube.com/watch?v=Tpz1Rsiw0AU

www.youtube.com/watch?v=wlDmslyGmGI

Fotos: http://www.inthestudio.net

O tempo não para…ainda Woodstock

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Cazuza tem razão: o tempo não para. Não parou passadas décadas do maior festival de música já realizado em todos os tempos. Woodstock parece 1968: não acaba nunca. Sempre há o que ler. Sempre há o que ouvir. A despedida dos anos sessenta foram em agosto de 69. Três dias. Apenas, três foram o suficiente para a história marcar a ferro quente em suas páginas os dias vividos em Bethel, Estado de Nova York. Os Estados Unidos ferviam. O Vietnã abria cada vez mais suas feridas. Dividia o país. Repugnava os mais conscientes. Era o auge da contracultura. Da era de Aquarius, dos hippies. A ideologia da paz, nunca alcançada. Naquelas 65 horas de vida, o festival celebrou um novo mundo. 500 mil pessoas testemunharam e protagonizaram o que estudos antropológicos e sociológicos ainda não esclareceram. Talvez nunca o façam. Quem lá não esteve jamais esquecerá ou entenderá. Mesmo os que estiveram 45 anos depois não souberam e não conseguiram dizer o que realmente aconteceu. Impossível. Basta assistir o documentário assinado por Michel Wadleigh. E o que parecia ser apenas a reunião de grandes nomes da música da época, se transformou em um marco inesquecível. Quem ainda não assistiu Woodstock, em especial os mais jovens, não espere mais tempo. Vá a alguma locadora urgente. Pegue e assista. Uma, duas, três vezes. Não importam quantas, mas veja. Sinta Richie Havens e o seu magnífico “Freedom”, logo na abertura. Deixe-se levar pelos hinos à paz na voz Joaz Baez, John Sebastian ou Country Joe McDonald, a performance mágica de Joe Cocker em “With a little help from my fiends” da lavra Lennon&McCartney, a hipnótica pela guitarra de Jimi Hendrix, o arrebatamento do desconhecido Carlos Santana, a doçura harmônica de Crosby, Stills, Nash &Young. Mais de 20 artistas passaram pelo palco, enfrentaram o clima, encantaram a multidão pacífica, acreditavam em um novo estilo de vida. O tempo não parou. Os anos que vieram trouxeram Afeganistão, Iraque, o Estado Islâmico, corrupção sistêmica. Mais violência, mais formas de violências, mais doenças, mais intransigências. Hoje, quem sabe novos ventos soprem de novo. Uma nova geração que olhe o mundo com outros olhos. Não apenas os olhos de Woodstock, mas olhos que querem mais que sonhar, olhos que querem realizar a paz. O tempo não para, mas Woodstock está integralmente atual.

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www.youtube.com/watch?v=Wyx053CNMag

www.youtube.com/watch?v=HKdsRWhyH30

www.youtube.com/watch?v=DJNSUSrs-0g

www.youtube.com/watch?v=494_95Wo3OY

www.youtube.com/watch?v=XnsB4Ck__OE

Fotos capturadas na Internet.

Bee Gees em Woodstock

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Não, não se assustem. Os Bee Gees não estiveram em Woodstock. Pelo menos, não consta o nome na lista oficial. E nem nas curiosidades sobre o festival. Porém, assim como Joe Cocker incensou as mais de 500 mil pessoas com “With a little help from my friends” cuja assinatura é de Lennon&McCartney, os irmãos Gibb – Barry, Robin e Maurice – também tiveram o seu momento. Janis Joplin interpretou “To love somebody” com sua voz envolta de blues e soul. Porém, assim como os Beatles são lembrados pela deslumbrante performance no documentário, Joplin não está presente com nenhuma canção. Somente a partir da comemoração dos 40 anos do maior festival de todos os tempos é que muitas novidades chegaram. Uma delas é o lançamento de alguns cds solo de quem participou do encontro: Janis Joplin, Johnny Winter acompanhado de Edgar Winter e Jefferson Airplane, entre outros sob o selo Sony BMG e Legacy Recordings. (A Universal fez o mesmo com Jimi Hendrix em 1999)

Janis havia lançado, à época, um disco chamado I got dem ol´Kosmic Blues again Mama! Oito canções viscerais, bem ao seu estilo. Alma pura. Na quinta faixa do então vinil, uma surpresa: “To love somebody”. Autores: Barry e Robin Gibb. Assim como na lista de canções que interpretou em Woodstock ela está presente também aparece em meio a tantos blues e soul.

Agora, passado tanto tempo, ao assistir um dvd do grupo inglês, que se tornou conhecido como australiano, Barry conta que haviam composto a canção para Otis Redding gravar. Antes, porém, o cantor foi vítima de acidente aéreo. Gravaram e foi sucesso imediato. Esteve em trilha sonora do filme Melody, dirigido por Waris Hussein, onde também figura em uma das faixas “Teach your children” com Crosby, Stills, Nash & Young. Esses sim, lá estiveram.

Na verdade, segundo o mais velho dos irmãos Gibb, a música é puro soul e R&B. Entrou no repertório como uma luva para uma cantora como Janis. Woodstock foi um momento mágico. Em todos os sentidos. Outras gravações tornaram a composição ainda mais popular: Nina Simone, Michael Bolton, The Animals, Roberta Flack, Eagle Eye Cherry e Rod Stewart figuram na longa lista de intérpretes.

Interessante ouvir as canções dos Bee Gees para além do pop romântico dos anos sessenta ou a dancing music dos setenta. Muito do talento e harmonia ficaram escondidas por esses rótulos. Confira as interpretações de Janis Joplin e dos Bee Gees para “To love somebody” no You Tube.

Reproduções capturadas na internet. 1 – Bee Gees em sua formação original dos anos 60 2 – Capa do disco de Janis Joplin em Woodstock.