Mercedes Sosa, León Gieco, Eugénia Melo e Castro, Dulce Pontes, Joan Baez, Tom Jobim….

Hoje, apenas música. A que nos envolve. A que nos revela. A que nos transforma. A que nos lança através dos tempos. A que nos faz parar. A que nos faz pensar e discernir. A que nos comove. São tantas. Escolho as que nos aproximam latino-americanos e portugueses, como um caminho sem volta de integração e alma. Identidades que se reconhecem e andam pelas mãos da arte. Margens que se encontram.

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Teresa Salgueiro, Você e Eu

Teresa

Alguns amigos que não comentam no Chronosfer, mas me enviam e-mails pessoais cobram uma pauta mais, vamos dizer, atual, com lançamentos, entrevistas e por aí seguir. As entrevistas estão em minha pauta, e confesso que estive perto de realizar com alguns dos cantores e cantoras que passaram por Porto Alegre nos últimos meses. Porém, escolhi esperar mais um pouco. dar uma nova dinâmica à esta página é um objetivo a ser atingido, espero que em breve. Quanto aos discos e livros, bom, sigo um caminho que, acredito, poucos fazem: buscar o que há de melhor, pelo menos para mim, na música, na literatura. Então, escrever sobre Dulce Pontes e o seu maravilhoso O primeiro canto é algo que me deixa feliz. Da mesma forma poder mostrar às pessoas que aqui chegam e que por acaso não conhecem alguns trabalhos como o solo de Ian Anderson, ou do Agricantus, para ficar nos dois últimos posts, também me deixa feliz. Acredito neste compromisso em que um mundo atravessado por um mercado que privilegia muito mais o aspecto vender que a qualidade, aqui fazer o processo inverso. Mostrar o que há de melhor, repito: para mim, é um compromisso do qual não abro mão. Feita a longa abertura, entro em um email bem mais específico. Perguntaram-me: “E a Teresa Salgueiro?”. Então, está aqui hoje. Há muito tenho muito presente o Madredeus, tenho todos os seus discos, e lamento até os dias de hoje não ter conseguido os ingresso para assisti-los quando estiveram em Porto Alegre. Um dia qualquer de 2006 ou 2007, datas são complicadas comigo, não nos acertamos nunca, encontrei o Você e Eu. Direto para casa e para o player. Teresa percorreu um território dentro da música brasileira bem delimitado entre o samba, a bossa nova, o chorinho, o samba-canção não importando, percebe-se, os ritmos e as épocas. E as assinaturas das composições das composições não deixam a menor dúvida quanto a escolha do repertório: Pixinguinha, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Carlinhos Lyra, Chico Buarque, Vinícius de Moraes. Com o mestre João Cristal e o seu septeto o cenário estava completo. O entrelaçamento da língua portuguesa original e das canções brasileiras resultaram em um mar de melodias, palavras e encantamentos únicos. Essa liberdade poética e harmônica traz a criatividade emergir com tanta densidade que o disco para flutuar nas águas sensíveis da música universal. Tamanha riqueza faz com que as 22 músicas ganhem uma dimensão que fica muito complicado apontar qual a melhor delas. Todas são extraordinárias na voz e no sentimento de Teresa e nos acompanhamentos de João Cristal. Um disco maravilhoso. Depois, outro trabalho seguindo a linha da universalidade, La serena chega com canções em várias línguas e acompanhada pelo Lusitânia Ensemble. Vieram outros e fica o destaque para O Mistério, que será pauta mais adiante. Como ficar impassível ao escutar Dulce, Teresa, Madredeus e outros mais que o fantástico Portugal nos oferece? Impossível.




A música em Fernando Pessoa ou Fernando Pessoa na música

Pessoa

Fernando Pessoa é poeta único. Está certo, existem tantos poetas que também podem ser adjetivados como únicos. É verdade. Mas, quando conheci Pessoa na minha adolescência, não houve e tenho a convicção de que não haverá substituto. É único. Direto. Objetivo, subjetivo. Seus livros me acompanham desde então e por acordo tácito sempre em minha pasta, em meu estúdio, em meu local de trabalho há Fernando Pessoa. Em 1985, quando cinquentenário de sua morte, a produtora Elisa Byington mesclou a poesia em nossa música popular. Maria Bethânia sempre tem Fernando Pessoa em seus espetáculos. Sempre. Então, palavras de Elisa no encarte do disco que nasceu: “Depois de um caminho mais literário, a ideia do disco fixou-se mesmo na música popular. Era preciso trazer sua fala bem perto. Por que não fazê-lo parceiro desta nossa expressão cultural mais rica?”. A música em Pessoa chegou assim. E com a palavra também veio Tom Jobim, Sueli Costa, nana Caymmi, Francis Hime, Olívia Hime, Ritchie, Milton Nascimento, Eugénia Melo e Castro, Marco Nanini, Edu Lôbo, Olívia Byington, Eduardo Duvivier, Arrigo Barnabé, Toninho Horta, Dori Caymmi, Marília Pêra, Vania Bastos, Nando carneiro e Jô Soares. Um time perfeito para uma obra extraordinária. O vinil de 85 se foi como água para o mar. As margens enfim se encontraram. Sete depois, em 2002, a Biscoito Fino, com o Olívia Hime à bordo, trouxe de volta o que já era ausência mais que sentida. E mais, um bônus com Tom Jobim em “Autopsicografia”. As poesias escolhidas, ou parte delas como “Passagem das horas”, “O rio da minha aldeia”, “Segue o teu destino”, “Meantime”, “Na beira deste rio”, “Livro do Desassossêgo”, e outras contemplam a escolha dos músicos, o que mais “toca” em cada um (sim, tempo presente) e em cada intérprete. Um disco daqueles que a gente tem que ter no player, no Ipod, no MP3, no pen, onde for possível ter, tem que ter. Fernando Pessoa. Não é necessário dizer ou escrever mais nada.


Eugénia Melo e Castro: Portugal bem brasileiro

eugenia

É possível que Eugénia Melo e Castro tenha mais do Brasil que a grande maioria dos artistas portugueses. A afirmativa é arriscada e talvez equivocada, mas há em Eugénia uma espécie de brasilidade latente e real. Nascida no interior de Portugal, em Covilhã, e filha de escritores, teve na arte a razão do seu caminhar desde sempre. Os estudos, os primeiros trabalhos, sempre a ligação com a arte, com a imagem, com a música, com os movimentos de linguagem e expressão. E a partir do seu envolvimento com a vida artística que seu encontro com Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Simone e Milton Nascimento que esse Brasil nasce dentro do seu espírito artístico, em especial o de cantora. Gravou um disco com canções de Chico Buarque, Desconstrução, com personalidade e autoral. Disco emblemático. E não deixou para trás uma das suas expressões mais encantadoras: a poesia. A união da poesia de Vinícius de Moraes com a voz encantadora de Eugénia rendeu o belíssimo e sensível Eugénia Melo e Castro Canta Vinícius de Moraes. Uma integração perfeita entre as linguagens, os músicos envolvidos e um repertório clássico com canções ainda que conhecidas em demasia, ganham força com o talento e a sensibilidade de Eugénia e de todos que participaram do álbum. Há um destaque todo especial: a participação de Tom Jobim. Está presente em “Canta, canta mais”, Egberto Gismonti em “Modinha” e “Canção do amor demais” e ainda para dar um sabor bem brasileiro instrumentistas como Wagner Tiso, Paulo Moura, Zeca Assumpção, Marco Pereira e Paulo Jobim entre tantos outros. Seu timbre envolve da canção com a suavidade que cada uma possui também envolta pela bela poesia de Vinícius.



Tom Jobim: vinte anos depois….

15/12/1992.TOM JOBIM.  FOTO: CLOVIS FERREIRA/AE PASTA :8772

Hoje, na contagem do tempo, vinte anos se completam da partida de Tom Jobim.  Como todas as perdas, irreparável. Sem ele, as águas de dezembro esfriaram no lado de cá do hemisfério sul. Jobim foi brasileiro até no nome: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim na certidão de nascimento. Falar exatamente o quê de um compositor que sempre esteve (e está) presente em todos os momentos de nossa vida. Quem não se envolveu com “Garota de Ipanema”? ou “Chega de saudade”? Quem sabe a eternizada “Águas de março”, em gravação antológica com Elis Regina? As parcerias com Chico Buarque, Toquinho, Vinícius de Moraes, Edu Lobo atualíssimas. As canções que compõem o disco com Frank Sinatra, de 1967, ou então a presença do violão e voz de João Gilberto a encantar ainda mais suas composições. Poderia ficar aqui enumerando, contando, descrevendo tudo que seja possível sobre o carioca do mundo.  Se não fosse suficiente cada uma de suas músicas, a aproximação definitiva do popular e o erudito e o erudito com o popular já o colocaria em todos os halls existentes da fama e da sensibilidade. Mais que compor o considerado marco zero da bossa nova, Jobim foi (e é) a essência da brasilidade universal.

Vinte anos sem Tom. O brasil fica assim, com letras minúsculas. Dentro de nós, é maiúsculo. Abaixo alguns de seus trabalhos na íntegra.

www.youtube.com/watch?v=vjDNsqWkIcY

www.youtube.com/watch?v=F016NbHwszE

www.youtube.com/watch?v=VdwHtAXSyXA

www.youtube.com/watch?v=pQdUhTp_MT8

Foto: http://www.jornalggn.com.br/blog/laura-macedo