Roger McGuinn & Gene Clark além dos The Byrds

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Em qualquer lista que se faça dos maiores do mundo em todos os tempos o nome dos Byrds está presente. Com justiça. Roger Guinn, Gene Clark, David Crosby e Chris Hilman possuíam uma alquimia única e transformadora inclusive dando às canções de Bob Dylan novas nuances. Inovadores, quando cada um ao seguir o seu caminho não conseguiram repetir o mesmo encantamento quando juntos. Se Crosby foi para o antológico Crosby, Stills, Nash & Young, McGuinn tocou com outros tantos e fez trabalhos solos apenas razoáveis, Hilman vez por outra aparecia com os outros dois como trio ou dupla com Roger, e Clark fez alguns discos geniais. Entre eles, No Other de 1974, cuja criatividade estava na pele do músico. Assim como White Light, este de pouco antes, 1971. Clark possuía um magnetismo próprio dos solitários e passava isso em suas performances. Já havia mencionado isso aqui em posts mais lá atrás, e em sua genialidade conseguiu criar um estilo e uma estética onde o acústico foi o caminho natural. Algumas canções com Roger e com os Byrds ou solo sempre são bem-vindas. Aproveitem sua sensibilidade.

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David Crosby: If I Could Only Remember My Name

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Você pode escolher uma das tantas faces de David Crosby: The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Crosby, Stills, Nash & Young,  Crosby & Nash ou apenas David Crosby. Há em todos eles altos e baixos. Ao gravar If I Could Only Remember My Name a vida de Crosby estava aos pedaços devido a morte de sua namorada. Mal conseguira terminar Déja Vu como CSN&Y e ao entrar no estúdio os redemoinhos do sofrimento entraram junto. Sua estreia ainda que dolorosa foi um passo gigantesco. E o resultado, magnífico. Juntou ao seu redor músicos como Jerry Garcia, Joni Mitchell, Grace Slick, Paul Kantner, Graham Nash, Neil Young, para ficar apenas com esses nomes – a lista é imensa e rica – e produziu um disco inesquecível. Entre falhas vocais e outros extraordinários, o líder leva adiante as canções como estivesse seguindo o arco-íris. Encontra o pote de ouro. Ao alternar passagens melancólicas, que refletem seu espírito, com outras mais despreocupadas, a ênfase ao acústico e a pedal steel faz a diferença. Ao não esconder toda a escuridão que o habitava, David ousa em participações á capela, silêncios, harmonias doces e tristes, alterna passagens de forma criativa e sensitiva. Trabalho perturbador que revela a alma de Crosby, e que revela uma série de canções únicas, o que torna o álbum igualmente único. E emocionante.

Roger McGuinn, o mago dos Byrds

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Roger MCGuinn, nascido James, depois Jim e finalmente Roger, sempre esteve à frente do seu tempo. O filho de Chicago trouxe à música a eletrificação, por exemplo, das canções acústicas de Bob Dylan e Pete Seeger. Com o The Byrds mexeu com estruturas que permaneciam latentes e avançou tanto nos vocais quanto nos arranjos ousados. Um grupo formado por Roger, Gene Clark, David Crosby, Chris Hillman e Michael Clarke jamais passaria em branco em um cenário onde já despontavam Beatles, Rolling Stones, Kinks, Yardbirds e já apareciam logo após Bee Gees, Cream, Pink Floyd e a lista aumentava a cada mês naqueles tempos. Isso é 1965, cinquenta anos atrás.  Arrisco a afirmar que os Byrds foram o embrião melhor acabado do que seria os acústicos Crosby, Stills, Nash & Young. Acompanhem as linhas de ambos, as harmonias, os vocais. Há um universo de semelhanças que a magia de McGuinn, que não participou do CSN&Y, parece estar presente e teve em Crosby o seu representante, ainda que David sempre teve personalidade própria. Como poucos souberam lidar com os gêneros: folk, country e o rock. Como poucos abriram espaços generosos para os que vinham e também para os que já estavam.  Roger McGuinn foi (é) um mago. Da sua guitarra e vocais a doçura de tempos ásperos. De tempos de transformações que receberam das texturas dos Byrds um sentido novo e de esperança. A lamentar que não foram adiante. Se dispersaram, seguiram outros caminhos, alguns partiram, e a vida seguiu. Outro dia assisti a um filme chamado The song onde Alan Powell é um compositor e cantor folk/country que a tantas do enredo canta Turn! Turn! Turn!, canção preferida da sua esposa. Nos créditos finais, ao fundo a mesma música é interpretada por Roger McGuinn e Emmylou Harris. A magia dos Byrds e de Roger. Hoje, passadas cinco décadas, não olho pelo espelho para ver o que está lá atrás, mas não posso negar que aqueles anos são a essência de um tempo que ainda tem que ser melhor compreendido ou talvez ainda deva ser vivido sem ser passado.

The Byrds e a máquina do tempo

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Ontem, a noite se apresentava à madrugada quando assisti a um episódio da série The Wonder Years, no Brasil Anos Incríveis. Era a segunda temporada, segundo episódio, e o tema central era a morte de Martin Luther King e a questão dos direitos civis nos Estados Unidos, as questões da liberdade, a racial. Não lembro em qual episódio havia escutado lá ao fundo de alguma cena “Turn Turn Turn” com os Byrds. E também, a inesquecível abertura, com a definitiva “With a little help from my friends” com o Joe Cocker, e a passagem de tantas bandas da época como Herman Hermits, The Association, Joan Baez, Richie Havens, Beatles e tantos outros que agora escapam.
Confesso que uma fusão de sentimentos e lembranças chegaram juntas. 1968, ano em tudo estava ali acontecendo. O personagem, Kevin Arnold, com doze anos conhecendo a realidade quase que a conta-gotas em um país que além da crise vivia a Guerra do Vietnã. E então, me senti transportado por uma máquina do tempo e voltei a 1968, porém, aqui no Brasil. Voltei a hoje distante adolescência. Voltei aos tempos em que não podia me manifestar, escrever, dizer o que pensava, não podia ler ou escutar o que desejava e um infinidade de outros atos que vieram chegando com o AI5, a censura mais feroz, as prisões, os desaparecimentos. E perdi, então, a conta dos pontos de interrogação que fazia.
Foi em 1964 que nasceram os The Byrds com Jim Mc Guinn (depois passou a ser Roger McGuinn), Gene Clark e David Crosby. Com uma proposta totalmente folk, estavam muito próximos de Bob Dylan e do pop – se é que podemos rotular – dos Beatles. Mais adiante entram Chris Hillman e Michael Clarke e gravam Mr. tambourine man, álbum com composições de Dylan e deles, com uma característica que talvez seja um marco no folk: a guitarra elétrica. Depois veio Turn Turn Turn, que também aparece em uma cena de Forrest Gump, e os Byrds já haviam partido para o psicodélico, para o experimentalismo. Não por acaso toda a inquietude da banda, que vai modificando também seus integrantes, grava no emblema do ano de 68 o disco The Notorius Byrd Brothers com folk, rock, rock psicodélico, jazz e country. Gravam um disco extraordinário com canções de Bob Dylan (se puderem, escutem, escutem, escutem!), e vão se desfazendo aos poucos. Crosby foi para uma das maiores formações da música: Crosby, Stills & Nash.

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Alguns dos seus integrantes, ao longo das várias formações que teve, perderam a vida e os Byrds perderam sua força e densidade musical. Muitos deles, em suas outras formações ou solos, cantavam seus sucessos. Gene Clark fez um disco maravilhoso e triste Old Vienna Kaffeehaus, Westboro 1988 em transparecia solidão e saudade.
Qual então a razão de a máquina do tempo aparecer no texto e no título? Não quero voltar a 1968 outra vez. Não ter que me curvar ao autoritarismo de quem escolhe o que tenho que escutar, ler, olhar e ver. Quero continuar escrevendo sem ter que passar por censura prévia, quero continuar saindo e me encontrando com os amigos sem ter que ouvir o “circulando” de algum policial desconfiado de conspiração. Quero viver meu último período de vida podendo fazer duras e ácidas críticas ao que não concordo em nível de política, ao nível de administração do país, do estado e do município sem correr o risco de ser preso por pensar diferente. Quero continuar em busca da liberdade como uma utopia sem medo algum. E, sobretudo, quero continuar com minha liberdade de expressão intacta. Não quero voltar a 1964, 0 início das sombras em meu país. Não quero mais viver esse tempo de novo. Quero, como todos os brasileiros sérios, um Brasil livre dos desmandos e da corrupção. Para isso, não podemos voltar atrás. Entrar nessa máquina do tempo é entrar nas incertezas que a escuridão traz junto. Transformar é assumir riscos e não retroceder. Mudar o que for necessário já, com consequência e discernimento.




Foto: http://www.rateyourmusic.com

McGuinn, Clark & Hillman: trio depois dos Byrds

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Os fundadores dos Byrds se reuniram em 1979. Nasceu o trio McGuinn, Clark & Hillman. Com uma pré-determinação: não repetir os The Byrds. A questão estava em suas formações musicais, um quê de pop-rock e folk ainda visíveis em suas composições, inclusive no disco há uma ou canção que segue esse caminho com “Release me girl”. O que, enfim, se tornou um diferencial foi o vocal a três. A mistura das vozes escapou da armadilha byrd de ser, e cada um já tinha suas partes vocais assumidas no disco. Porém, na forma, na estética e mesmo nos vocais se aproximaram em demasia dos Eagles. E isso passou a ser uma espécie de preenchimento de vácuo pois os Eagles não gravavam a algum tempo e o trio vinha pronto para se encaixar. E realmente, o single lançado foi direto às paradas da época, puxado do Roger McGuinn. Os críticos, com uma certa maldade, atribuíram o sucesso a ausência dos Eagles. Injustiça, por certo, já que os três em nenhum momento se tornaram ou foram imitadores dos “grupo original”. Tinham composições de muita beleza, baladas perfeitas ainda que os mesmos críticos afirmavam que City não possuía conteúdo e muito menos se aproximava dos extraordinários Crosby, Stills & Nash. Aliás, David Crosby foi um byrd, e se estivesse no grupo seria a reedição dos Byrds? Talvez sim, talvez não. A verdade é que o disco é muito bom, se ouve com alegria e prazer e em meio a um período de muitas transformações sonoras, Roger McGuinn, Gene Clark & Chris Hillman foram autênticos. É um registro valioso, raro e que será sempre uma referência.

Trio

www.youtube.com/watch?v=PEbz62IE9dg

www.youtube.com/watch?v=Md3YHOCRku0

www.youtube.com/watch?v=rC45NEQutiE

Fotos: Acima, crédito na própria foto, do site http://www.features.com, e capa do disco capturada na Internet.

Gene Clark, um Byrd solitário

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É possível até hoje ouvir que os Byrds eram Roger McGuinn e David Crosby, mais o baixo de Chris Hillman. Engana-se quem pensa assim. O grande mentor do grupo foi Gene Clark. Nascido Harold Eugene Clark em 1944, aos vinte anos encontrou o então James ou Jim McGuinn (e depois Roger, em definitivo) para formar o The Byrds, que, sem dúvida, revolucionou a folk music dando a ela psicodelismo e eletricidade. Para Hillman, Clark era a alma e a síntese da banda. Ele e suas composições foram guias em uma década inesquecível em todos os níveis da arte, em especial a música. E é exatamente no período de 1964/66 que os Byrds experimentam sua melhor fase. Com Gene Clark. Desentendimentos o afastam, e começa a peregrinar aqui e ali, formando duplas, retomando os Byrds, outros grupos, trio (McGuinn, Clark & Hillmann – 79), discos solos. Em geral, pouco sucesso, muito fracasso. Sua guitarra ritmo, que ao tempo dos Byrds passara a Crosby em troca do pandeiro e harmônica, compôs belas canções country-folk- rock distantes da repercussão comercial desejada, embora o reconhecimento da crítica. E então a história se torna recorrente: álcool e drogas entram em sua vida. Passa por períodos melhores, outros piores, se aproxima do guitarrista Jesse Ed Davis, realizam trabalhos juntos, e depois cada um segue seu caminho. Interessante que Davis é encontrado nos créditos de vários e extraordinários músicos como George Harrison, John Lennon, Eric Clapton entre tantos. Até que aos 46 anos, em 1991, a morte o encontra. Deixou um legado fantástico, vários trabalhos significativos e sobretudo por ser (a obra é perene, fala-se no presente) um compositor instigante e coerente com sua trajetória e jeito de ser.

Um depoimento bem pessoal: tenho um cd surpreendente chamado Live at The Old Vienna Kaffehaus de 1988. Ali, está um músico atormentado, solitário, um violão riscando a tristeza em repertório em que há muito de Bob Dylan e Byrds, mas há a alma de Gene Clark sendo aberta. Um disco por tudo, maravilhoso e a sonoridade acústica fascina e a voz é doce e envolvente.

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www.youtube.com/watch?v=x901yPr6pP8

www.youtube.com/watch?v=HSIYFqeEacQ

www.youtube.com/watch?v=j5ruo6h6AGk

Fotos: http://fanart.tv e http://www.furious.com, pela ordem.