Miniconto VII: San Vicente

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Aos setenta anos, San Vicente decide fechar os olhos. Entra na noite sem deixar as marcas dos passos. Está distante dos cheiros e dos pequenos fachos vividos. Havia se acostumado com o escuro. Desfaz a venda, os tons castanhos da íris se tornam estilhaços na memória. A segunda decisão vem com o horizonte: buscar o dentro, mergulhando na vida, para o início até o fim.

A lua recorta o vidro em listras que se alongam pelo piso de madeira. Olha as nuvens. É o começo. No dentro não existe tempo. E as vértebras das formas e das lembranças ganham sentido. O que havia perdido estava na luz das lâminas em cujos espelhos e reflexos se escondem pedaços densos do coração. Sobre o caminho, os trilhos gastos acomodam os velhos sapatos. A gaita de boca repousa no mesmo banco da estação de trem e as ruas continuam com suas luminárias à vela. A chama arde e desaparece ao amanhecer. Neste presente, descobre o futuro: o apagamento do passado. Vê a cerração chegar, cobrindo a terra e o campo. Deita sobre um dos trilhos, a cabeça envolta nos braços. Ali, tudo é urgente. O mundo de dentro se abre. A hora da escolha está próxima. A memória está em todos os lugares e em nenhum lugar. Levanta-se e entra na névoa avermelhada. Aos setenta anos, San Vicente sabe que a palavra é a única saída. Fecha os olhos sem se despedir. Há muito havia perdido o tempo. De dentro e de fora.

Música: Angus & Julia Stone – “Wherever You Are”

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Usain Bolt atravessaria avenida de Porto Alegre?

Por certo, o atleta jamaicano recordista em Berlim dos 100m em 9,58s não teria nenhuma dificuldade para chegar ao outro lado de uma avenida da capital porto-alegrense que tenha sinaleira de 10 segundos. Por outro lado, uma pessoa comum apressaria o passo e talvez conseguisse chegar ileso. Pessoas que necessitam de muletas, por exemplo, jamais cobrirão o espaço no tempo determinado. Ficariam no meio do caminho. O somatório de dificuldades entre pessoas comuns e portadoras de deficiência para atravessar ruas e avenidas devem ser olhadas com cuidado e atenção pelo órgão competente. Partindo de uma premissa simples, no trânsito as responsabilidades são divididas entre pedestres e motoristas, é que há uma emenda ao Novo Estatuto do Pedestre aprovado na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. A proposta é aumentar o tempo de travessia para 30 segundos. Há quem defenda a emenda, há quem entenda o contrário, que a cidade ficaria afetada negativamente em seu trânsito. É a posição do diretor-presidente da EPTC, Vanderlei Cappellari. Ele  argumenta que existe uma indicação da Organização Mundial da Saúde de que a média de velocidade caminhada é 1,2 m/s. Pode ser, mas tal parâmetro certamente é medido em pessoas cuja mobilidade é plena. Os portadores de deficiência não cobrem a mesma velocidade preconizada pela OMS. É o momento em que a sensibilidade no trânsito seja bem-vinda. E deve partir de quem o administra. Não basta multar automóveis em locais proibidos e guinchá-los, os agentes devem estar nos cruzamentos, nas ruas coibindo toda a sorte de infrações de parte a parte. O pedestre é, por natureza, o mais vulnerável. Basta alguns instantes em qualquer sinaleira e será feita a constatação de que o sinal vermelho para os automóveis, e consequente verde para o pedestre, não é respeitado. Se o objetivo é preservar vidas que se encontre um denominador comum na questão do tempo, mas que ao contrário de proporcionar maior velocidade ao trânsito, possibilite maior segurança a todos de maneira uniforme. O automóvel é para servir o homem. O que se vê é o homem servindo o automóvel. Há um projeto em andamento na EPTC de colocar câmeras para captar veículos que ultrapassam o sinal vermelho em alguns cruzamentos de maior movimento. Bendito seja o projeto, ainda que limitado. É um começo para tratar as relações de trânsito mais iguais. Quem sabe chegará o dia em que uma pessoa comum não precisará ser Usain Bolt para atravessar qualquer rua ou avenida da cidade. E que a nova regra se torne realidade.