Good Bye, Hasta Siempre, Até Sempre, Buena Vista Social Club

Buena Vista

Ry Cooder começou. E o que era um grupo de antigos músicos, cantores e cantoras de Cuba do passado se tornou um clube dos tempos atuais.  O “son” cubano para além da ilha. Lá no início, 96/97 estavam Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Orlando Cachaito López, Alberto Valdés, Eliades Ochoa, Manuel Licea, Rubén Gozález, Omara Portuondo, claro, Ry Cooder, Joachim Cooder e outros mais que foram seguindo a rota traçada pelo guitarrista norte-americano. Ao longo desses anos, alguns partiram, se despediram dos palcos e da vida, e Buena Vista continuou. Gerou outros “clubs”, o Café de los Maestros, do Gustavo Santaolalla, talvez seja a melhor síntese da ideia magnífica. A memória viva do tempo. O reconhecimento nunca tardio e sempre bem-vindo para quem fez/faz da música a vida e vida para tantos. Os integrantes a medida que o tempo foi ganhando espaço no calendário, foi mudando, as trocas inevitáveis aconteceram, e aos poucos foi chegando o momento do até sempre. O adeus que ninguém gosta de ouvir ou saber. Os lendários embaixadores da música cubana alcançaram seu objetivo: a música cubana é encantadora e maravilhosa. Há um quê de imortalidade nesses sons extraídos de rumbas, boleros, chá-chá-chá e outros mais que evoluíram com o passar dos anos. É quem sabe por existirem que vieram cantores e compositores como Pablo Milanés e Silvio Rodriguez, que a Nueva Trova Cubana também, dentro da sua proposta, ganhou espaço no mundo. O vigor  desses antigos instrumentistas é algo inesquecível. O até sempre é apenas físico, os registros estão bem vivos, nossa memória bem acesa. E seus ritmos e cantos são também nossa respiração. Vida longa dentro de todos nós, Buena Vista Social Club.

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Ry Cooder & Manuel Galbán: Mambo Sinuendo

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Ry Cooder sempre sinalizou um caminho transverso, um pouco mais além do convencional. Já havia realizado Crossroads nas fontes puras do blues. Uma trilha, certamente. Buena Vista Social Clube uma viagem através do tempo, um volta ao passado para que ele não se tornasse apenas uma passagem do tempo e ficasse recolhido ao esquecimento que o passado às vezes impõe. Ao trazer à luz solar antigos músicos, cantores, cantoras, compositores de uma Cuba antiga, trouxe junto história e muitas histórias. Uma passagem generosa pelo tempo, um passado muito presente. Um olhar sem medo para frente. Nessa leva de estar entre os instrumentistas e compositores cubanos, Cooder se encontrou com Manuel Galbán. Um velho e consagrado estilo criado por Galbán na ilha caribenha que permanecia desconhecida até mesmo por lá foi retomada pela dupla. Trabalho feito à base de guitarras, com quês de jazz e mesmo do pop, já que as influências de Henry Mancini e Nelson Riddle eram naturais no pequeno país nos anos 50 e 60, foi capaz de criar uma sonoridade diferente, com nuances havaianos, e toda uma técnica a serviço de ambos, fruto da qualidade musical dos dois. É um disco essencialmente instrumental embora haja algumas faixas com coros, muita percussão, e um linha de unidade perfeita o que traduz com exatidão o virtuosismo dos guitarristas. Não são guitarras ferozes, estilo heavy, são tranquilas e em seu tempo catalizadoras do estilo cubano de tempos passados que soam atuais. Integram o projeto de Ry Cooder o inesgotável baterista Jim Keltner, esse está merecendo um post especial, também nas batidas da percussão Joaquim Cooder, e um bando de talentosos e carismáticos músicos, em especial percussionistas, de Cuba. Um álbum que, muito mais que reverenciar Galbán, tem a felicidade de apresentar toda uma história musical que parecia confinada em algum tempo perdido do passado. É presente. Nos dois sentidos.

Ali Farka Toure, bluesman da África

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A morte de Ali Farka Toure em março de 2006 deixou um vácuo na vida e na cultura de Mali. O continente africano sofreu o golpe. E nós acompanhamos sua dor. Farka construiu sua história com virtuosismo. O mesmo com que tocava as cordas da guitarra ou do violão ao expressar sua alma em acordes e harmonias que se confundiam com o seus país, o seu continente e os que ia conhecendo e vivendo. A música tradicional malinesa e o blues. Fusão que Farka Toure incorporou e transformou. Os ritmos, a percussão, as tradições, as histórias, as influências mouras, o blues de John Lee Hooker, Lightnin´ Hopkins, o pacifismo, toda a sua personalidade transformadora em uma sonoridade repleta de identidade africana. A amizade e os trabalhos com Ry Cooder (Talking Timbuktu e In the heart of the moon) são emblemáticos. São mais portas abertas. Agora, em meu player The source vai ganhando cada centímetro do estúdio onde escrevo. Cada canção um sentido, um significado, uma razão para existir. O tempo é refém do seu toque. Universal, o malinês habita cada canto do nosso pequeno mundo e o transforma em um mundo melhor e mais sensível. Ali Farka Toure o compositor e cantor social, o pacifista, do amor, do trabalho. Incansável, mostrou ao Ocidente que ele poderia ser fiel às suas origens. Foi. Seu trabalho é singular, embora o pluralismo dos seus sonhos.