Dúo Fébula Y Aravenis : as guitarras do Prata

Dúo FébulaYAravenis

A proximidade entre os rios Guaíba, do lado de cá, e do Prata, do lado de lá, nunca foi distância para mim. Sempre olho a Argentina e o Uruguai com a densidade de afeto que merecem. A história da minha vida tem toda essa gana que os platinos possuem, e minhas origens também têm suas vidas enraizadas por lá antes de se estabelecerem aqui. E tenho muitos amigos nesses lados todos. O Marcelo chegou pelo irmão, ambos “periodistas” de turfe, o roteiro dos grandes prêmios pela América adentro. E eu, apesar de pai jóquei e treinador, nunca fui um turfista no sentido vivo da palavra, embora sinta um amor infinito pelos cavalos. E o pampa me desafia, o imaginário incendeia e tudo o mais. Se não entrei nas pistas de corridas, caminho pela música, pela literatura, gostos dos cafés e do movimento dos porteños e orientais, gosto das livrarias que desvendam os mistérios da noite com suas portas abertas, assim como gosto do nosso mar, da nossa arquitetura, na nossa harmonia musical tão diversificada em cada região, dos nossos criadores das palavras. E ainda posso pôr nesse gostar, o Chile, cuja história me sensibiliza, cujo povo me habita. o Peru, com seus mistérios e fascínios pelo desconhecido alimentado pelos incas, quéchuas, aymaras. A Bolívia e toda a essência de uma América que se constrói por seu povo que mesmo sofrido tece suas cores de forç e determinação. Sou um latino-americano nascido no estado mais ao sul do país, e que procura cada vez mais o sul deste sul que me envolve. Assim, é a música que me aproxima de tantos movimentos nessa direção. Agora, por esses primeiros dias de inverno, o Marcelo está em Porto Alegre. Na bagagem, histórias e histórias. E muita música. Trouxe, via e-mail, o Dúo que faz com Walter Daniel Aravenis. E podemos entrar em um universo de cordas que vibram tangos, milongas, canções. Amigos e com pelo menos dez anos juntos um acompanhando o outro, vão criando a seu modo um repertório acústico com a beleza espontânea da vida. É para todos os que aqui chegam que ofereço os sensíveis violões de Marcelo e Aravenis em um espaço chamado Guitarra a La Carta, local onde se vende violões. Uma viagem pelo Prata.

https://www.youtube.com/watch?v=qBequz7GFsQ – aqui um apresentação em uma emissora de rádio. Para quem deseja conhecê-los um pouco mais.

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Lilián Saba, o piano do Rio da Prata

lilián saba - malambo libre

Foi o meu querido amigo Guillo Espel que um dia, em Buenos Aires, me indicou o cd da capa aí de cima. Confesso que não conhecia, pelo menos assim à queima roupa Lilián Saba. Havia a assinatura da indicação e para mim já de acordo e ao voltar para casa o disco me acompanhava. E depois, para tirar do player somente com as outras novidades que vieram junto. Inclusive um outro trabalho de Lilián com a também pianista Nora Sarmoria chamado Sonideras. Ela é uma instrumentista e compositora do que muitas vezes por aqui chamados de primeiro time. (Não há jeito de encontrar o disco aqui em casa agora!) Sua trajetória é de muito estudo, primeiro com Benito Juarez, depois o Conservatório Nacional de Musica Carlos López Buchardo e a Escuela Nacional de Danzas e mais estudos de harmonias e composição com o extraordinário maestro Manolo Juárez. Mais tarde, caminho natural, se tornou solista e arranjadora, convidada por diversos artistas para seus trabalhos,  o exercício da docência na área do folclore argentino (Escuela de Musica Popular, em Avellaneda) e com o convite de Juan Falú ingressa no Conservatorio Municipal Manuel de Falla, Buenos Aires, para o exercício do magistério para o tango e folclore. Em paralelo, uma carreira que vai sendo preenchida com diversos prêmios. Lilián ainda que com toda a formação acadêmica e mais as incursões pelo folclore não poderia deixar passar as influências desses lados da cultura platina. Distante dos rótulos, criou trabalhos e caminhos sólidos e bem estruturados em qualquer gênero. Malambo Libre, o disco que veio comigo, possui essas variações e mais um pouco. Incursões pelo folclore andino também recebem um sensível visita daquelas que ficam marcadas para sempre. Toda a naturalidade de Saba no teclado flui através de um estilo denso e vigoroso e ao mesmo tempo suave e tranquilo. Nada parece ser demasiado ou de menos. os instrumento que a acompanham se encaixam, as notas se entrelaçam, os acordes duelam amigáveis, as harmonias se cruzam e de repente estamos envolvidos por uma pianista superior. Para muito além da linha do horizonte.

Teresa Parodi y Ana Prada: y que más

Teresa e Ana

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz das margens que o comprimem”. A frase de Bertold Brecht não se aplica a Teresa Parodi e Ana Prada. A primeira, da margem argentina do Prata, a segunda, o lado uruguaio desse mesmo rio. Em comum, além de as margens aproximarem-nas, ambas são nascidas no interior dos seus países – Corrientes e Paysandu, Argentina e Uruguai. Trazem, cada uma, o cheiro e o sabor do folclore, do ainda novo para muitos folclore do interior do interior de suas terras. Uma, mais intérprete, Ana, outra, mais afiada na palavra, nas harmonias, Teresa. Os caminhos, embora ainda uma em seu lado do rio, vão se formando com experiências únicas. Parodi cantou como convidada no quinteto de Astor Piazzolla aos fins dos anos setenta. Musicou poemas, entre eles os de Jorge Luis Borges. Prada, aos poucos foi sendo descoberta como compositora. Antes, acompanhava o primo Daniel Drexler, irmão de Jorge. Formou um cuarteto voca, La Otra. Participou dos concertos de Simply Red e Buena Vista Social Club. Parodi, a convite de Mercedes Sosa, foi com León Gieco, Victor Heredia, Julia Zenkoe e Alejandro Lerner em 2000 a Israel. Fez trabalhos com Pablo Milanés e Antônio Tarragó Ros. Ana, com Rubén Rada.
Um dia, as margens não comprimiam as águas. Encontraram-se. Identificaram-se. Muito em comum entre as raízes do folclore e a música urbana de cada lado. As águas juntaram tudo isso. Integraram seus talentos, suas sensibilidades. Y que más é um disco notável em sua amplitude, seja ela regional ou para muito além não das margens mas das fronteiras, qualquer fronteira. Se misturam com naturalidade, vão compondo, tocando, cantando, escrevendo. E acompanhadas por músicos de tirar o fôlego. Como o disco. Y que más? Escutá-lo sem demora.


Buenos Aires, cidade do meu imaginário

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E hoje, da minha realidade. Nasci do lado de cá do Prata. À beira de um rio/lago ou lago/rio, não sei ao certo. Para mim, rio. O Guaíba. mas, foi sempre o Prata que alimentou meus sonhos, que atiçou o meu imaginário. Rio. Sempre os rios em minha vida. Os rios da Geografia em época de colégio. Os rios que ao longo da vida fui cruzando. Os rios que me tornam peixe desde sempre. Um dia, atravessei esse rio. Buenos Aires. Cidade que me acolheu. Cidade que se fez (e se faz) minha. DSC01764

Cidade que sei que vivi em algum lugar do tempo passado. Conheço cada palmo de suas ruas, de suas casas, de seus cafés, sua música, o tango, a milonga, do seu rio. Cidade dos meus amigos. Cidade onde não nasci por força do destino, apenas. Buenos Aires, mais que cidade do meu imaginário, cidade da minha realidade.

(Dedico este post aos meus amigos da alma Marcelo Fébula e Gustavo “Lopecito” López, que são Buenos Aires em mim.)

www.youtube.com/watch?v=YpbUHZcfnW8

www.youtube.com/watch?v=B05LyDjnWTo

www.youtube.com/watch?v=cWvHuZXgcYI

(As músicas de Guillo Espel, músico de extraordinário talento, com quem desde 1994 fiz amizade quando ainda (ele) era integrante do grupo La Posta.)

Fotos: Chronosfer

A dos voces de Mario Benedetti e Daniel Viglietti

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Atravessar as longas avenidas de Montevidéu é caminhar sob o fio da história. O olhar se perde em suas construções antigas e respiram um quê de moderno. Nada se exclui na capital uruguaia. De dentro de suas fronteiras, a cultura transpira por todos os lados. Não se encolhe ao se encontrar com o Rio da Prata. Ou se aventurar pelos campos imaginários do pampa, dos verdes e dos gauchos platinos se entrelaçando com as terras do Rio Grande. Não há distância que nos separe. Mas, para cá das águas platenses, a cultura ganha o mundo. E também sofreu com o rigor do autoritarismo comum durante décadas nos países da América Latina. No pequeno Uruguai nasceu um dos maiores nomes da literatura: Mario Benedetti. Maio de 2009 se tornou triste e silenciou as Américas. Sua morte, aos 88 anos, deixou uma lacuna que jamais será preenchida. Todos os grandes jornais escreveram o que tinham que escrever e prestaram homenagens sensíveis ao grande e sensível homem. Chronosfer mostra aos seus leitores um trabalho extraordinário feito com um dos mestres da música do vizinho oriental. Com Daniel Viglietti, produziu um livro e cd extraordinários. A dos vocês é a marca da liberdade, da rebeldia, da esperança, do futuro. A dos vocês é muito mais que um livro e um cd. É um universo infindável de possibilidades. Às vezes, Daniel canta primeiro, Mario recita depois. Outras vezes, Bendedetti recita e Viglietti canta. O repertório desliza por toda a nossa alma, acelera o coração, sensibiliza os ouvidos mais áridos. Impossível ficar impassível diante de A dos vocês. Viglietti é daqueles homens que resistiram, como Alfredo Zitarrosa, e o pessoal de Tacuarembó – de grande presença na cultura e na política uruguaias – a qualquer forma de opressão. É dele o clássico “A desalambrar”, tema eterno sobre a questão da terra, tema comum aos países latino-americanos. Canção que passou no início dos anos 70 quase incólume pelos censores brasileiros nos inesquecíveis discos América do Sol, produzido por Abílio Manoel.

Daniel esteve em Porto Alegre na Usina do Gasômetro em 01 de maio de 2003 em memorável apresentação e show de consciência humana.

Encontrei A dos vocês em um quiosque de Buenos Aires. Livro e uma fita cassete pendurados e a preço mais que popular. Anos mais tarde, em Montevidéu, o cd compensou em parte as longas caminhadas que fiz em busca da possibilidade de encontrar Mario Benedetti. Não consegui. Estava na Espanha e doente, me disseram. Conversei longamente com Washington Benavides, escritor, ex-parceiro de Zitarrosa, com Eduardo Darnauchans, com Ruben Rada, ouvi Laura Canoura, murgas, candombes e não encontrei Mario Benedetti. Agora, repassando, descubro uma apresentação de Mario a um disco em homenagem ao espanhol Joan Manuel Serrat.

Mario partiu, as Américas estão silenciosas, mas sua obra grita ao mundo o grito da liberdade, da solidariedade, do humanismo.

Daniel estará mais uma vez em Porto Alegre, amanhã, às 21h, no Theatro São Pedro dentro do Festival El Mapa de Todos. O evento integra artistas latinos e brasileiros durante cinco dias de shows, debates e encontros. Ponto para a integração latino-americana.

www.youtube.com/watch?v=gCHCbtPDbno

www.youtube.com/watch?v=EX0PfMlTTMw

Reproduções capturadas na Internet.

 

La Mufa: tango à frente sem concessões

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Sem dúvida, o tango é um gênero universal. Mais, habita o imaginário não apenas do Rio da Prata, mas invade outros tantos universos seja de que lado for do planeta. Por vezes, e por muito tempo foi assim, discriminado por ser cantado em locais nada sacros, principalmente em suas origens lá de trás em fins do século 19, até ser quebrado o estigma por Carlos Gardel. No seu nascedouro, os prostíbulos, quebram-se a imagem de que o tango era triste, melancólico embora repleto de paixão. Ao contrário, por essa época a chegada de imigrantes de toda a Europa para ocupar postos de trabalho na Argentina, e sua frequência dos trabalhadores solitários em busca de prazer nas casas de prostituição mudou os costumes de então. Enquanto esperavam vez, os espaços eram ocupados por encenações musicais e danças sensuais. Dessas experiências musicais, ritmos como a polca europeia, a havanera cubana, o candombe uruguaio, a milonga espanhola, se mesclaram para nascer o tango. Primeiro como trio musical, instrumental apenas, mais tarde com letras igualmente sensuais, pouco a pouco a resistência a ele foi sendo atingido até que penetrou de vez os salões de festa, Gardel estourou no mundo inteiro a partir da chegada do ritmo à Europa.

Na segunda metade do século 20, Astor Piazzolla revoluciona de forma definitiva o tango. Como na juventude havia estudado nos Estados Unidos, ele, ao retornar ao Prata, trouxe na bagagem influências do jazz. E começa uma nova história.

Várias formações nascem, várias influências passam a exercer papel preponderante na execução do tango seja como ritmo seja como gênero.

Assim, do lado desse emblemático rio, o La Mufa é um diferencial estético e criativo no que ouso chamar de novo tango. Passando ao largo do tradicional, porém sem perder de vista o que foi construído pro Piazzolla e Aníbal Troilo, por exemplo, viaja para as décadas passadas com uma formação harmônica alicerçadas em uma sonoridade própria, mais seca, áspera talvez e com um equilíbrio extraordinário entre os instrumentos. Não por acaso, a formação é composta pelo clássico bandoneón, piano, violoncelo, contrabaixo e violino. Possuem um refinamento que não é preciosismo se não que refinamento musical essencial à composição. E também possuem outra característica única: o universo roqueiro está muito presente em suas interpretações. Esses pontos convergem não como modelo ou forma, mas como uma expressão natural de seus integrantes. Inova como o tango sempre inovou, sem perder a identidade. Donos de um repertório base em seus mestres e composições próprias, se revelam (re)criadores incansáveis. Há uma participação magnífica e muito especial em ” Soy muchacho de la guardia ” dos Los Cigarros. La Mufa é mais que um alento, mais que uma promessa. É uma doce realidade que transcende a qualquer possibilidade de rotulá-los assim são ou assim não são. La Mufa faz tango com gana, com um quê de erudito, de jazz, de rock, de tudo um pouco e sobretudo, de La Mufa.

http://www.youtube.com/watch?v=urN-y5XNnJw

La Mufa Tango – Perro Andaluz Ediciones – 13 Faixas – 46min33s

Foto capturada na internet no site: http://www.lamufa.com‎