Glen Hansard: Didn´t he ramble

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Glen Hansard desde os tempos do The Frames faz um trabalho consistente, ora folk ora mais rock ou ainda com todas as nuances dos compositores irlandeses. Não por acaso vez por outra surge alguma voz afirmando certa semelhança com o bardo Van Morrison. Diferenças à parte, foi com a parceria inspirada e sensível com a pianista e compositora tcheca Markéta Irglová que alçou seu voo mais alto. Em Once,  filme que protagonizaram, oscarizaram a canção tema “Falling Slowly” e formaram o The Swell Song, com bons trabalhos. Havia entre os dois uma química que funcionava muito bem, tanto que um e outro participavam de seus trabalhos solos. Ela gravou Anar e Muna, ele chegou com Rhythm and Repose. E cada um seguiu seu caminho. Hansard chega ao mercado com Didn´t he ramble, onde mais uma vez o folk e o indie rock se insinuam pelos seus labirintos musicais. Um disco que possui, sobretudo, uma unidade harmônica, temas em que a vida real se confronta com seus lados otimistas, apaixonados e, às vezes, nem tanto um ou outro. São dez canções maduras e encontram Glen mais cristalino e mais envolvido emocionalmente com cada composição. Os arranjos são primorosos e o destaque fica por conta das cordas com Rob Mouse e Thomas Bartlett, que o conectam ao mistério entre melodias e letras e faz do irlandês um intérprete poderoso. Um belo disco, embora confesse preferir o anterior, mais folk, mais calmo. Todavia, um disco que vale cada faixa e nos transporta às nuvens e começa pela belíssima capa.

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David Doruzka: Silenty Dawning

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Viajar é sempre um alento para acolher o novo. Mais que descobrir, encontrar o nosso interior se faz intenso e renovador. Para além das águas do Atlântico, a cultura, as gentes e a história marcaram esses encontros e o que era apenas peso de viagem se transformou em bagagem de vida e conhecimento. Avancei, naturalmente, mais na música. Porém, sempre tem que aparecer um porém mas esse por minha absoluta culpa, procurei os artistas latino-americanos que por mais incrível que pareça é muito complicado de ter em alguma loja na Argentina, Uruguai ou Chile quanto mais no Brasil. E outros que gosto e nunca pude ter em mãos. Enfim, uma colheita reduzida que ao fim de sua estação me deixou feliz. E consegui uma coletânea do Inti Illimani, mesclando o antigo com o novo, uma caixa com quatro álbuns do compositor espanhol Enrique Granados com obras completas para piano com Marylène Dosse, um Crosby, Stills & Nash dos melhores, tangos de Piazzolla, sendo um caderno com concerto para bandoneón, francês, com Pablo Mainetti e Josep Pons, e mais Piazzolla, Raulito Barboza, que já postei aqui, dois encartes de jazz editados pelo Le Monde – 40 encartes lançados – um do Chet Baker, outro do John Coltrane, e Bob Dylan, The Who (Tommy), Leonard Cohen, sempre indispensável, e outros que nem lembro mais. E então me dei conta pelas tantas, durante a viagem, que não estava procurando nada dos locais por onde passávamos.  No último dia em  Praga, na República Tcheca, entramos em uma loja de discos e comprei um cd do David Doruzka. Jazz, nada de folclore, ou algo mais próximo. No retorno a Porto Alegre, confesso, não foi dos primeiros que escutei. Fui direto aos latinos e o mergulho revitalizou minhas veias. Até o dia em que David foi para o player. O guitarrista, acompanhado pela voz da sueca Josefine Lindstrand, pelo baixo polonês de Michal Baranski e pela bateria/percussão Lukasz Zyta passeia suavemente por doze belas canções em inglês e tcheco. Poemas de Emily Dickinson musicados, músicas autorais, e outros compositores locais completam o repertório em que as influências recebidas quando estudou nos Estados Unidos se faz presente. Há um quê de Telonius Monk, John Coltrane, Sonny Rollins, que apenas forjam para melhor o seu jeito de interpretar o jazz. Trabalho minucioso, elabora com requinte e talento, David faz o seu caminho sem quebrar dogmas do gênero, contudo apresenta no estilo e na estética o seu jeito de “ler” o jazz, trazendo junto também as experiências dos companheiros de gravação. O resultado final é belo e tranquilo. Silently Dawning é um disco maduro e sensível. Lamento apenas ter demorado a escutá-lo.