The Concert for Bangladesh

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Agosto de 1971. O tempo não parou. O que motivou o ex-beatle George Harrison e Ravi Shankar a reunirem milhares de pessoas em dois dias no Madison Square Garden, em Nova York, continua atual. Pior, continuamos iguais. Se lá no início dos setenta os shows foram organizados para aumentar os esforços internacionais de sensibilização e de alívio aos fundos para os refugiados do Paquistão Oriental (hoje Bangladesh ), na sequência da Guerra da Libertação de Bangladesh, muito relacionado com o genocídio praticado então, os noticiários dos dias de hoje não nos distancia dessas razões. O poço em que a humanidade entrou não tem fim. Suas consequências, alimentadas ano após ano, chega a um momento de esgotamento da capacidade de reconstituição dos valores humanos. Falta de esperança? Desânimo? Não. Apenas a triste e discernida consciência de que caminhamos para o caos dos caos, onde os tecidos da sociedade se desfazem seja por um bombardeio, seja pela intolerância, seja pela corrupção, seja pelo preconceito, seja pela impunidade, seja por um lista infindável de situações que nos aprisionam dentro de nós mesmos. O exemplo de Harrison contou com uma “pequena ajuda dos amigos” Ringo Starr, Eric Clapton, Bog Dylan, Leon Russell, Billy Preston, Badfinger, Jim Keltner, Klaus Voormann e Jesse Ed Davis entre vários outros. Assisto o documentário. Escuto o disco. A parte deste todo que é a humanidade precisa parar, voltar um pouco para dentro e então buscar respostas mais contundentes e sérias para a crise de …falta de humanidade que vivemos. Continuo com a ingenuidade da utopia a guiar meus passos. Acreditar que é possível mais que um objetivo é uma razão para viver. Concertos como o realizado por George Harrison apontam, simbolicamente, este caminho. Em 2015, falta apenas o primeiro passo.

Chants of India: Ravi Shankar & George Harrison

Chants od India

Celebrar a paz ainda parece ser um desejo distante nos dias de hoje, ainda que exatamente por agora o fim de uma era de terror e barbárie esteja sendo reverenciada. Quase duas décadas atrás Ravi Shankar e George Harrison realizaram o que talvez seja o seu último encontro em disco. Chants of India é um álbum composto por orações com música indiana, em um trabalho muito conhecido e familiar de Shankar, trazendo a cada uma das 16 faixas cantos de paz e harmonia entre todos os elementos da natureza e os seres humanos. As gravações aconteceram na Índia e Inglaterra, com a presença de músicos de ambos países. E de várias formas a celebração que este disco contém, contempla a busca interior não apenas dos dois amigos e músicos. Vai além. Transmite em cada uma das composições o espírito tranquilo dos interlúdios e harmonias que se encontram nos instrumentos, nas vozes, e na natureza humana. Há um entrelaçamento de duas culturas distintas entre si, que se unem em nome de algo muito mais superior. Há sim uma celebração entre Ravi Shankar e George Harrison, que além de produzir o trabalho, participou ativamente como músico. (Importante ressaltar que em novembro de 2002
, quando da realização do Concert for George que reuniu vários artistas, a filha de Ravi, Anoushka Shankar conduziu “Sarve Shaam” de Chants e outras com esse sentimento indiano.) Outro fator que aproximou ainda mais a sonoridade indiana do ocidente é que cada uma das peças gravadas são curtas e com arranjos que as tornam coloridas e suaves e interiorizadas sem parecer em nenhum momento enfadonhas a quem não conhece o universo musical da Índia. Há uma atmosfera que se abre continuamente para que a música se desenvolva com naturalidade e seja sobretudo bela. Assim, se mantém íntegra em sua proposta e aproxima as pessoas. As ruas das cidades indianas se encontram com as de Liverpool e Londres e tornam esse caminhar mais belo, suave e possível de se acreditar na paz.

 

Passages: Ravi Shankar & Philip Glass

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Trilhas sonoras, às vezes, são melhores que os próprios filmes, documentários que emolduram. Não sei a razão, afinal é outra linguagem e está junto a outras com a literatura/roteiro e imagem exige sincronização, porém, há os personagens e isso pode mudar tudo. A música não precisa acompanhar o todo do enredo e sim ser parte da identidade do personagem. Faz a diferença. Gosto dessa integração, no entanto. As intervenções musicais criam climas, instigam os pensamentos, o imaginário, aguçam leituras, expressam olhares, invadem sonhos, geram pesadelos. A música é um bálsamo e um terror dependendo das cenas e eis o fascínio de estar se relacionando não apenas com as pessoas e sim com a imagem em movimento. Por óbvio, algumas canções se destacam dentro desse universo fílmico. E têm vida fora das telas, distantes das salas escuras. “Streets of Philadelphia” do Bruce Springsteen é um exemplo. “Woodstock” é quem sabe o documentário por inteiro, “Forrest Gump” é magnífica e poderia ficar listando milhares sem exagero algum. Passages é uma viagem para dentro da alma. O minimalismo de Glass com a montanha sonora indiana de Shankar é daqueles momentos em que o trabalho musical se separa da película e ganha seus caminhos. mergulho profundo e suave, capaz de canalizar essência e batidas do coração. Disco para ser escutado de olhos fechados.