Um conto perdido, uma foto nada a ver com o texto

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Dentro desse fogo, alma e terra cedem suas alma e terras. No branco dos olhos, as manchas do dia desaparecem. Áspera é à noite. À espreita. Atraída pelos relâmpagos, cresce entre as luzes e o medo. Dentro e fora, há muito as mãos perderam a firmeza, revelando carne e veias transparentes. O limo nasce aos poucos entre as pedras e as raízes. O sol ilumina os trilhos, que se perdem para o fundo da terra. Estranhavas aqueles veios, aquelas vertentes secas, o vôo cego das aves e as casas abandonadas. Estranhavas os nervos à pele, as listras da tarde e seus rascunhos sobre as janelas. O pêndulo cansado não marca mais o tempo. As cruzes, sopradas pelo vento, envelheceram, acinzentaram os signos e as sombras ardem dentro da alma desse fogo. Estranhavas o fosco da lâmina a um palmo dos pulsos, os sentidos e o silêncio dos vidros recortados pelas frestas daquelas janelas sem cor. Dentro desse fogo, os feixes abrem−se protegidos pelos tecidos mais finos do frio. Aquele vazio desfeito te paralisava. Estranhavas a ausência da tripulação e quando vias a água engolindo a âncora, depositavas a certeza da partida no vulto daquele homem esticando a rede. Então, apagavas a vela e caminhavas até ele. As nuvens avolumavam−se acima dos teus ombros, tinhas pressa. As chaves na gaveta ficariam para sempre imóveis e retorcidas pelo calor do fogo. Teu corpo úmido também cedeu. Estavas no fogo. Estranhavas o foco luminoso dentro da tua alma e depois aquele escuro sobrepondo−se ao fundo do fundo da terra. Esquecestes de se despedir da vida. O porto era apenas o começo do fim. Irreconciliável com teus sonhos, a memória do teu olhar reteve por pouco tempo a luz do dia e o dourado dos plátanos. Longe, muito longe, a ilha que um dia habitastes hoje forma irreconhecível desenho e formas. A ilha que foi tua vida. (será a ilha uma janela?)

Foto: Chronosfer

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