Olivia “estrela da vida inteira” Hime: poesias de Manuel Bandeira

Olivia Hime

Alguns discos são como livros. Chegam e se instalam em nossa alma e cabeceira e nos acompanham por onde quer que nossos passos caminham. Estrela da Vida Inteira da Olivia Hime, sobre poemas de Manuel Bandeira é um desses. Assim como o seu Mar de Algodão, quando visita a obra de Dorival Caymmi. Em Estrela… a proposta se alicerça na estreita combinação entre a cantora, a poesia e compositores convidados. Alguns, com participação no disco, que é de 1986 e parece ter sido lançado poucas horas antes. Gilberto Gil, Francis Hime, Tom Jobim, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Moraes Moreira, Ivan Lins, Dorival Caymmi, Toninho Horta, Joyce, Radamés Gnatalli, Dori Caymmi e a própria Olivia fazem com que a poesia de Manuel Bandeira ganhe ainda mais cor e vida. O resultado é algo que passa a fazer parte de nosso interior. Impossível ficar impassível. Há um entrelaçamento sensível entre as combinações, encontros e nuances que somente essas linguagens são capazes de fazer. E fazem. E nós, mais que ouvintes, passamos a ser parte também. Se não somos estrelas, nossa luz ilumina a sensibilidade que nos habita e percorre desde nossa alma até a pele que o sol aquece. Um disco para se guardar para todo o sempre.

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Poesia: Sombra & Música – Pat Metheny, Jeff Beck, Jimmy Page & David Gilmour

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Minha sombra é, antes do silêncio, pausa

Meu silêncio é apenas a dor do raio que atravessa os vitrais

E é na retina do arco que a pausa nunca silencia.

Foto: Chronosfer – Picada Café/RS

Pablo Neruda, simplesmente poesia

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O primeiro olhar é suficiente pra afirmar o quanto a foto acima é comum, sem estética, com equívocos técnicos, vazamento de luz, reflexo acentuado à esquerda de quem olha, uma névoa ao fundo, distorcendo o horizonte. Enfim, uma foto sem nenhum atrativo. No entanto, a foto mostra é a vista que Pablo Neruda vivia todas as manhãs do seu quarto. proibido de fotografá-lo (o quarto), restou a imagem do Pacífico chegando à praia íngreme de Isla Negra, onde descansa o poeta. O dia em sua casa próxima a Valparaíso, no Chile, é um daqueles momentos em que o mundo para de girar e os sentidos se ajustam aos movimentos das águas e das cores. Neruda mais que Nobel de Literatura, foi um homem engajado em favor da humanidade e da justiça. Um homem que fez da poesia seu canto. E também o nosso canto. Confesso que vivi nos momentos em sua casa uma vida inteira. E a poesia cresceu como fruto até amadurecer dentro de mim.

El viento en la isla

El viento es un caballo:
óyelo cómo corre
por el mar, por el cielo.

Quiere llevarme: escucha
cómo recorre el mundo
para llevarme lejos.

Escóndeme en tus brazos
por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe
contra el mar y la tierra
su boca innumerable.

Escucha como el viento
me llama galopando
para llevarme lejos.

Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos
al amor que nos quema,
deja que el viento pase
sin que pueda llevarme.

Deja que el viento corra
coronado de espuma,
que me llame y me busque
galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido
bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola
descansaré, amor mío.

Poema capturado no site: http://www.neruda.uchile.cl
Livro: Los Versos del Capitán, coletânea, 1993
Editora: Seix Barral

Poema Breve e Inacabado II

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entranha-se
apenas entranha-se na vida
com seus traços invisíveis
sem ser reconhecido onde a carne arde

entranha-se
apenas entranha-se na morte
com seus traços visíveis
pele roxa em uma gaveta numerada

não deixou testamento
não deixou memória
o esquecimento é a única lembrança

Foto: Fernando Rozano
Música: Thurston Moore – “Benediction”