Mário Sève & David Ganc: Pixinguinha & Benedito

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O CD traz a parceria de Benedito Lacerda e Pixinguinha, o dueto instrumental mais importante da música brasileira, com inéditas, novos arranjos, e os instrumentos dos dois: flauta e sax. Alternância nos instrumentos, melodia e contraponto, arte do contraponto brasileiro, que teve seu ápice com Pixinguinha, está presente nas 14 músicas, inspiradas nas gravações da década de 40. Duas delas são inéditas, saídas do baú da família: o baião “Acorda Garota” e o frevo “Agua Morna”. O disco redefine as tradicionais classificações e olhares sobre os gêneros musicais sem preconceitos. O que era choro torna-se choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda. É música viva que flui, é mescla dos tempos ora passado ora presente, e quem sabe, o futuro também. É esse olhar sobre a obra extraordinária de Pixinguinha e Benedito Lacerda que o sax de Mário Sève e a flauta de David Ganc se debruçam. E esmiúçam sem nunca chegar à exaustão. Ao contrário. Os “standards” da dupla atravessam e desafiam o tempo sem nenhum problema. E a leitura que os instrumentistas criam é algo que fascina. É o prende e liberta que somente a música possui. O acompanhamento é de deixar o ouvinte com água na boca. Um regional que inclui Dininho, filho de Dino 7 Cordas (mestre do contraponto no choro, ao lado de Pixinguinha), Jorginho “Época de Ouro” do Pandeiro (elo de ligação com o mestre), Celsinho Silva, Mingo Araujo (percussões), Oscar Bolão (bateria). Da turma do samba: Wanderson Martins, que toca com Martinho; Esguleba (do grupo de Zeca Pagodinho); Claudio Jorge, parceiro de Cartola. O disco caminha muito também pelos caminhos de  João da Bahiana, Clementina de Jesus, ao samba batucada de Ciro Monteiro e a Paulinho da Viola. Tem ainda o piano de Leandro Braga, o quarteto de Guerra Peixe, o acordeon de Toninho Ferragutti e uma orquestra de frevo com os metais de Roberto Marques, Nilton Rodrigues, Carlos Veja. Trabalho de extrema sensibilidade e daqueles que a gente ouve e aperta o repeat sem medo algum. Uma viagem maravilhosa pela sonoridade dos mestres do chorinho e outros gêneros sem cair no modismo dos rótulos.

 
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Sharon Isbin: Journey to the Amazon

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A violonista Sharon Isbin, o sax de Paul Winter e a percussão brasileir de Thiago de Mello realizaram um disco surpreende. Explorar a sonoridade latino-americana já é fato comum, porém, com um viés mais rítmico, mesclando com o jazz e clássico pode parecer também algo já feito à exaustão. No entanto, tal como a literatura onde tudo já foi dito, porém o que faz a diferença é a forma em que é dito mais uma vez, na música os arranjos traduzem esse espírito. O trio consegue extrair, de form provocante e deliciosa, essas diferenças e pontos comuns entre as culturas e as formas de interpretar as canções do repertório. Não há concessões, há criatividade e uma profunda identidade alicerçada pelas nuances tecidas pelos instrumentistas. Os puristas talvez fiquem arrepiados e são capazes de afirmar que não é a verdadeira música original. Está aí a grande diferença: uma leitura livre e soberana do sentimento que a música causa não apenas em quem gosta de ouvir mas sobretudo em quem compõe, arranja, interpreta e tem a sua maneira de sentir. Journey to the Amazon comete a façanha de trabalhar a fusão com tessituras próprias e fazer com que Pixinguinha, presente com “Cochichando”, possa estra à vontade nessa jornada. E outros compositores também. E nós, bom, nós mergulhamos nessas sonoridades sem medo algum. Puro prazer cumprir essa jornada.

Hamilton de Holanda & Stefano Bollani: bandolim e piano virtuoses

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Se os últimos tempos sopram cruéis com as perdas de tantos músicos de talento e genialidade, devemos saudar quando também outros gênios se encontram e geram belíssimos trabalhos. As trajetórias de Stefano Bollani, piano, e Hamilton de Holanda, bandolim, estão presentes como isso mais que possível é uma feliz realidade. Com influências distintas um do outro, porém, com muitos pontos em comum, os instrumentos marcam presença através da inquietude de cada música, que são suas improvisações. O italiano Bollani, aos 40 anos, é um conceituado pianista de jazz. Requisitado por nomes que figuram em qualquer lista dos grades da música, como o trompetista Enrico Rava, ou então Chick Corea, possui vasto currículo e acrescente-se mais um: é apaixonada pela música popular brasileira. Hamilton de Holanda é um jovem carioca, criado em Brasília, é sem dúvida o maior bandolinista brasileiro. Seu bandolim de dez cordas é solicitado e sua verve como instrumentista se revela no número de discos gravados, beirando os 30. Todos com o toque mágico do seu talento, capaz de criar e recriar, reinventar canções com espontânea criatividade. Também está por todos os cantos do mundo, tocando, fazendo duetos, trios, quintetos, acompanhamentos, ou então solo.

Pois, a gravadora ECM lança o cd O que será ao vivo, em apresentação da dupla no festival Middelheim Jazz na Antuérpia, Holanda. As dez faixas voam na audição. É automático repeti-la. E repeti-la. Pura improvisação seja do piano ou do bandolim ou de ambos, composições como “Beatriz” (Edu Lobo/Chico Buarque), “Luiza” (Antonio Carlos Jobim), “Rosa” (Pixinguinha), “Canto de Ossanha” (Baden Powell/Vinicius de Mores), “Apanhei-te cavaquinho” (Ernesto Nazareth) e até mesmo uma surpreende “Oblivion” de Astor Piazzolla, além de composições próprias, mostram como se aproximam temas tão brasileiros do jazz e o jazz de temas tão brasileiros como o chorinho, por exemplo, sem deixar de lado a bossa nova. É um encontro em que as palavras são desnecessárias, rigorosamente desnecessárias.

Ao escutar Bollani/Holanda entende-se a razão de ambos serem músicos, instrumentistas, compositores únicos. Você que leu as linhas acima, não deixe de procurar qualquer disco dos dois ou de um e de outro solo ou com outros acompanhantes. Tê-los em seu player será motivo de alegria e esperança em tempos melhores.

http://www.youtube.com/watch?v=ZmCWt5R0ics

O que será – Stefano Bollani & Hamilton de Holanda – ECM – 10 faixas. 54m3s.

Foto: capturada na internet no site http://www.mimo.art.br/atracao-30-stefano-bollani-hamilton-de-holanda-italia-brasil