Trio Madeira Brasil: música instrumental brasileira

Trio Madeira Brasil

Na carteira de identidade, o Trio Madeira Brasil tem como registro de nascimento a cidade do Rio de Janeiro e como seus criadores Ronaldo do Bandolim, Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas) e José Paulo Becker (violão). Música instrumental, gênero Choro. Essa é a sua gênese. Sua base. Sua terra fértil. E ao longo do tempo, das estações, das semeaduras, as sementes foram alimentadas também por Yamandu Costa, Jacob do Bandolim, Chico Buarque, Egberto Gismonti, o saudoso Paulo Moura, acolheram o universo d tango/jazz/erudito de Astor Piazzolla, tornaram suas terra mais universais. Mais ricas. densas, profundas. Criaram novas tramas musicais. E o seu plantio tem sido pleno e cada vez mais se entranha nas harmonias que tecem com seus instrumentos. Melhor que escrever, é ouvi-los. Bom para fechar os olhos e viajar em sua sonoridade arrebatadora.

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Tabaré Leyton: La Factoría del Tango

tabare leyton

O tango está em constante movimento. Renova-se. Arrepia os mais puristas. É um universo catalizador e  por ele todas as vertentes da música passam. Inevitável. As fusões acontecem. Algumas, criativas. Outras, passam a lo largo. Todavia, o tango depois de Piazzolla nunca mais foi o mesmo de Gardel, sem com isso deixar Gardel para trás. Ambos convivem muito bem, obrigado. Há gêneros para todos os gostos e não por acaso o erudito se aproximou mais do tango, depois o folclore, o rock, a música popular. Por uma razão simples: o tango é a essência do popular. Sua raiz.  A fala de muitos. Os sentimentos de tantos. As frustrações de amores perdidos de outros tantos. A sensualidade. A carne latejando. A tristeza do bandoneón. O universo do tango permite incursões verdadeiras ao seu interior e desvenda sua alma. Tabaré Leyton, jovem uruguaio, não deixa nenhuma dúvida ao lançar seu primeiro disco em 2010. La Factoría del Tango faz desse universo sua casa. Uma casa moderna. Olhares modernos. O novo respira. Traz para dentro o eletrotango, o candombe, a milonga, o tango canção. Celebra a mescla. O tango clássico com ritmos tão próprios do Uruguai e da Argentina e da canção contemporânea. E atravessa o Prata com tamanha naturalidade que também foi para além do Atlântico. Um primeiro disco que cativa. O tango continua mais vivo que nunca. Felizmente. Tabaré Leyton é um sopro que alenta quem gosta de tango.

Turfe: O amor pelos cavalos de corrida

Rio Volga 1

Hoje, um ano e três meses de ausência. A saudade é o sentimento que jamais abandona. E é ela que mantém a memória acesa para o que os olhos descansam. Há muito, ainda, dentro de mim. Ao rever seu depoimento feito anos antes, quando dos seus 80 anos – partiu com 82 – está a passagem que fez com que ele amasse os cavalos. E deles e com eles construiu a sua vida, a sua família. Abaixo, uma pequena parte do que disse com o brilho aguado do amor que alicerçou tudo o que viveu.

Rossano e cavalos

“Meu pai tinha cavalos de carroças e gostava de cancha reta. Nascido no Uruguai e de lá veio com uma tropa de cavalos para vender ao Exército. Veio, casou e ficou. No verão, a família ia para o Cassino pois na época era muito difícil conseguir emprego, então comprou um pedaço de terra e começou a vender leite e carne aos veranistas. Nasci no Cassino por isso, a família trabalhando e em dezembro, verão nasci. Em 41 minha mãe faleceu, e meu pai foi trabalhar no Swift, e eu e meus irmãos fomos para o colégio dos padres salesianos. O destino é caprichoso, eu já era apaixonado por cavalos. Meu pai teve um acidente, ficou muito tempo no hospital. E nós internos no colégio. Em um domingo que reservo ao destino, os padres nos levaram a passear, naqueles antigos bondes abertos, nos levaram ao prado da Vila São Miguel. Eu fiquei transtornado, não sei a expressão que digo. Desde sete, oito anos montava os cavalos lá nas retas do Cassino, olhei os cavalos, os jóqueis fardados e era assim, o número um era blusa branca, o dois vermelha, o três azul, o quatro amarela….fiquei ainda mais apaixonado. No dia seguinte, no momento da missa disse ao meu irmão mais velho, Antônio, que iria fugir. A porta abriu e saí. Fui em direção ao prado pela estrada do Coester, que existe até hoje, levei o dia inteiro caminhando para chegar. Vi uma casarão, na Vila Matadouro, que era uma cocheira, estava um rapaz trabalhando e entrei e pedi para trabalhar. Pelo meu tamanho não fui aceito, mas chegou um castelhano, que era treinador, Darci Casser, e disse que pela casa e comida poderia ficar. Fiquei. Limpava as cocheiras, esse tipo de trabalho. Em 42, minha irmã, coisa do destino mesmo, casou com um ex-jóquei e então treinador, Dirceu Antunes, que me empurrou ainda mais para o prado. Meu pai estava saindo do hospital e quando soube que havia fugido me levou de volta ao Cassino e retornei ao colégio. No verão daquele ano, um senhor chamado Luis Pelhos, representante da Vinícola Garibaldi, de Pelotas, e era amigo do meu pai me levou para lá – Pelotas – para sair do prado e estudar. Mas, antes de ir, eu andava nas cocheiras do Dirceu e um dia montei uma égua chamada Madresilva e fui até onde eram realizados os treinos e meu cunhado não gostou do treinamento dela e mandou a égua de volta para a cocheira. Esse o detalhe é extraordinário, mandou de volta a égua e ela voltou, eu gritando e quando chegamos o portão estava fechado e ela parou e eu cai. Ela abriu e entrou. No dia seguinte eu já estava levando os cavalos para caminhar na água, pois em Rio Grande é muito comum fazer isso para curar os boletos, os joelhos.

Em Pelotas, ia estudar não lembro se no Gonzaga ou Pelotense. Era época da guerra, e atiravam muitas pedras nas casas dos alemães, a gurizada fazia isso e eu entrava junto. Certo domingo, o senhor Luís nos levou a passear e vai justamente à Tablada. Estava me seguindo o prado. Na segunda pela manhã a esposa desse senhor me pediu para levar a correspondência para ele no escritório e no meio do caminho voltei. Era fevereiro ou março, ainda não havia começado as aulas e o que fiz: como tinha algum dinheiro no bolso, peguei o saco de roupas, hoje é a mochila, e fui para ferroviária. Não tinha trem, mas passaria um carro-motor vindo de Bagé às oito da noite. Fiquei o dia inteiro esperando. Quando cheguei, minha irmã quase enlouqueceu. Três ou quatro dias depois, meu pai foi visitar o neto recém-nascido e me levou de volta ao Cassino. E me disse que se eu quisesse ficar com os cavalos que fosse para o Chuí, onde havia uma fazenda de uns amigos dele. Pensei em fugir de novo, mas não foi possível, não lembro bem, mas a minha irmã chorou e acabei ficando nas cocheiras do senhor Miguel Pereira na Vila São Miguel. Já tinha treze anos quando o Dirceu, conhecido como Morcilhão, levou cavalos para correr em Pelotas. Fiquei em Rio Grande, até que um dia chega um senhor e me leva para correr cancha-reta, tiro livre, lá no Senandes. E ganhei. Foi a primeira corrida e a primeira vitória, mas não vale, era apenas cancha-reta. Um jóquei, Ademar Cunha, o Chilinga, resolveu inscrever uma égua que trabalhava todos os dias, Alfaciana, o peso era 44 kg e não tinha jóquei com menos peso e a minha irmã disse “bota o Maruca”, como me chamavam, e tirei a matrícula de aprendiz de terceira. Foi a primeira vez que montei. Isso foi em 44, ainda com doze anos, não tinha bota e pedi ao Dinarte, colega de trabalho, também aprendiz que me emprestou depois. Tem uma fotografia dessa primeira vez que montei e eu estava sem as botas. Minha primeira corrida oficial como jóquei em Rio Grande. Tudo era muito difícil, longe.”

amor pelos cavalos 2 (fotografia)

Todos os dias 26 de cada mês, a coluna “Das cocheiras do Stud Mario Rossano” estará presente com uma passagem da vida de Mário Rossano, cuja presença e exemplo permanecem intactos.

Mirta Alvarez: Guitarra

mirta alvarez

Mais que quantidade, a qualidade dos guitarristas platinos, e aqui estou mais para os lados da Argentina sem deixar escapar o Uruguay, também rico em instrumentistas, impressiona. Na mesma medida em que mesmo possuindo formação clássica, com o erudito presente, é na música popular ou no folclore que, em meu juízo demasiado pessoal, são desenvoltos e criativos e oferecem novas possibilidades de audição. Essas leituras da música são caminhos para o conhecimento, para conhecer as diversas faces que os temas oferecem, sem que fronteira alguma de gênero ou estilo possa confiná-las em si mesmas. Mirta Alvarez se inscreve nesse clube. Faz parte de uma geração que passou pelos bancos acadêmicos porém não deixou de olhar e sentir o coração do seu país. Da gente dos pueblos mais simples e dos compositores que modificaram a paisagem musical não apenas do Prata, mas de quem quer que os escute. Não por acaso ao estudar em conservatórios e escolas de música, Mirta se especializou em guitarra tango. Não por acaso muito dos seus mestres ou diretores são nomes enraizados na vida platina: Abel Fleury, Rodolfo Mederos, Kelo Palacios, para citar apenas três deles. Guitarra é um belo e sereno passeio pelas cordas do tango, da música popular, por Piazzolla, por Fleury, por Horácio Salgán, por Cobián/Cadícamo, por Atahualpa Yupanqui. Não falta absolutamente nada para seus acordes vibrem com intensidade e possamos ingressar juntos nesse universo rico e denso de um povo igualmente rico e denso.

Teresa Parodi y Ana Prada: y que más

Teresa e Ana

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz das margens que o comprimem”. A frase de Bertold Brecht não se aplica a Teresa Parodi e Ana Prada. A primeira, da margem argentina do Prata, a segunda, o lado uruguaio desse mesmo rio. Em comum, além de as margens aproximarem-nas, ambas são nascidas no interior dos seus países – Corrientes e Paysandu, Argentina e Uruguai. Trazem, cada uma, o cheiro e o sabor do folclore, do ainda novo para muitos folclore do interior do interior de suas terras. Uma, mais intérprete, Ana, outra, mais afiada na palavra, nas harmonias, Teresa. Os caminhos, embora ainda uma em seu lado do rio, vão se formando com experiências únicas. Parodi cantou como convidada no quinteto de Astor Piazzolla aos fins dos anos setenta. Musicou poemas, entre eles os de Jorge Luis Borges. Prada, aos poucos foi sendo descoberta como compositora. Antes, acompanhava o primo Daniel Drexler, irmão de Jorge. Formou um cuarteto voca, La Otra. Participou dos concertos de Simply Red e Buena Vista Social Club. Parodi, a convite de Mercedes Sosa, foi com León Gieco, Victor Heredia, Julia Zenkoe e Alejandro Lerner em 2000 a Israel. Fez trabalhos com Pablo Milanés e Antônio Tarragó Ros. Ana, com Rubén Rada.
Um dia, as margens não comprimiam as águas. Encontraram-se. Identificaram-se. Muito em comum entre as raízes do folclore e a música urbana de cada lado. As águas juntaram tudo isso. Integraram seus talentos, suas sensibilidades. Y que más é um disco notável em sua amplitude, seja ela regional ou para muito além não das margens mas das fronteiras, qualquer fronteira. Se misturam com naturalidade, vão compondo, tocando, cantando, escrevendo. E acompanhadas por músicos de tirar o fôlego. Como o disco. Y que más? Escutá-lo sem demora.


Al Di Meola Plays Piazzolla

meola pia

Astor Piazzolla é um gênio. Nunca pode ser tratado como passado. É sempre presente e futuro. Influência permanente. Eterna. Nada é por acaso. E artistas de todos os gêneros o encontram. Gravam suas músicas. Cada um com sua identidade. cada um com sua proposta. Al Di Meola, guitarrista norte-americano nascido em Jersey City, não quebrou a regra. Apenas gravou um Di Meola plays Piazzolla a seu jeito Di Meola de ser. E está nesse jeito de ser uma diferença e tanto. Não, absolutamente não, que os outro projetos que gravaram o mestre que revolucionou o tango tenham sido decepcionantes. Longe disso. Meola é um instrumentista único, singular, capaz de tocar com naturalidade com Paco de Lucia e John MacLaughlin em projetos extraordinários como Friday Night in San San Francisco e The Guitar Trio. Discos envolventes. Quebram qualquer mesmice e rotinas musicais. Estão à serviço da criatividade, do improviso, do talento. Isso é Al Di Meola Plays Piazzolla. É o instrumentista e criador tecendo suas teias harmônicas com as obras do argentino com essa capacidade de criar com ousadia e ao mesmo tempo manter intacto o romantismo de uma época. O músico naturalmente tem um quê de latinidade em sua carreira e já vasta discografia. magnífica, diga-se. Por isso, o projeto com Piazzolla se tornou emblemático. É um disco que transita no ambiente do tango, do jazz, da improvisação, do gosto de tinto seco, de dança e de letras dramáticas. Embora, todos os tangos sejam instrumentais. Esse sopro que vem de Al Di Meola transforma-se em temporal de acordes soberbos e ao natural estamos dentro de cada movimento feito por ele. Para se ter esse disco por perto sempre.



Whiplash: até onde vão os limites

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Ser contraditório é uma tentação. Às vezes, gosto muito e sou contraditório. Às vezes? Muitas vezes. Agora mesmo, entrega do Oscar no domingo, e não dei audiência à cerimônia. Não posso escrever ou comentar sobre. Assisti a todos os filmes que estavam em alguma disputa. Bom, nem todos, quase todos. E todos têm algo que desperta nossa atenção. Seja pelos atores, seja pelos diretores, seja pelos conteúdos, seja pelas interpretações. Julianne e Reese, magníficas; dos atores nenhum me chamou tanto a atenção embora reconheça a transformação de Bradley Cooper como Sniper; os coadjuvantes são sempre um caso à parte. Não em raras oportunidades eles “roubam” o filme. E mais uma vez isso aconteceu. O ator da vez é J.K. Simmons. Ator de interpretações corretas, lembro dele em Juno, e em alguns papéis em séries como Lei & Ordem: UVC como o dr. Emil Skoda. E também em Mar de Fogo de 2004, Hidalgo no original.
Na pele de Terence Fletcher, professor ou mais que isso na Escola de Música Shaffer, ele mais parece um sargento que esfola até sangrar os soldados rasos recém ingressos no exército. Literalmente. Mas, é a forma como J.K. desenvolve Fletcher que o torna fascinante. A convicção que transmite toda a sua sabedoria e experiência como músico a duelar com o jovem Andrew (Miles Teller), um baterista que ascende posição na banda da escola. E entra-se em um terreno demasiado perigoso.

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Importante a passagem em que conta ao jovem baterista como Charlie Parker se tornou Bird. E as exigências para se tornar um músico a altura das expectativas de Fletcher – ou seria da própria música? – crescem na mesma medida em que Andrew entra em colapso emocional e físico, promovendo uma série de rupturas no campo pessoal. Ao travar intensa luta interna para enfrentar o mestre, o jovem promissor questiona os limites para se atingir a perfeição. “Não há limites”, responde. No entanto, as respostas a essa e outras questões que se intensificam à medida em que a trama avança, podem estar nas próprias canções e seus arranjos. E talvez esteja uma simbologia no filme: o gênero musical é o jazz, onde uma de suas grandes marcas são as improvisações feitas pelos instrumentistas que o tocam. Do aparente nada ou convencional nasce o novo, o revolucionário. O jazz mexeu com Astor Piazzolla, por exemplo, a ponto de introduzi-lo no tango. Miles Davis promoveu profunda ruptura e a partir dele o jazz nunca mais foi o mesmo. Talvez esteja exatamente nesse ponto a resposta exata para a questão dos limites. Na verdade, quem improvisa não tem limites. E a cena final, quando da apresentação de abertura de um festival no Carnegie Hall, representa a ruptura do que seria convencional – seguir o mestre – ou improvisar. É o que Andrew faz. Uma curiosidade: Paul Reiser, o marido de Helen Hunt, em Mad About You é o pai do jovem aspirante a músico. Whiplash é magnífico e profundo. E J.K. Simmons mereceu o Oscar que lhe foi entregue domingo passado.

Fotos capturadas na Internet.