Hamilton de Holanda & André Mehmari: gismontipascoal – a música de egberto e hermeto

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Escrever sobre Hamilton de Holanda e André Mehmari é cair em demasiados clichês e redundâncias. O bandolinista e o pianista são dos maiores instrumentistas do Brasil e ponto. Mais não é necessário. Então, ao apresentar este fantástico gismontipascoal onde os dois ingressam no universo musical de Egberto e Hermeto, fico com o que os homenageados escreveram no encarte do disco. Hermeto: “Quem toca um instrumento não pode ser instrumento do instrumento nunca.” , e Egberto: “A retribuição que desejo é dificílima pra alguns, evidentemente, não para vocês; desejo que vocês continuem pra sempre guardiões da música brasileira, lembrando, sempre, que ELA é muito maior que todos nós.”  Agora, ouvi-los e deixar que esse encantamento seja permanente.

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Gisbranco: Flor de Abril

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Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco. Bianca é filha de Egberto Gismonti e isso por si só deveria ser uma apresentação. Para ela não é. mesmo com todo o amor e influência paterna ela juntou-se a Claudia e seguiu caminho. Dois pianos. Muitas ideias. Música. O Duo assume sem medo um repertório infinito: Heitor Villa-Lobos, Baden Powell/Vinícius de Moraes, Edu Lobo/Capinam, Hermeto Pascoal e Chico César. Flor de Abril não se resume a leitura especial desses compositores, possui obras próprias, e personalidade mais que própria. Talvez muito mais conhecidas no exterior que no Brasil, Bianca e Claudia têm muitos amigos que participam de suas obras: Carlos Malta, Robertinho Silva, Chico César, já tocaram com Ná Ozzetti, Marcos Suzano e músicos cubanos. Os teclados da dupla são incansáveis na busca – e no encontro – de texturas originais que marcam cada nota. As vocais que acompanham cada faixa do disco segue o mesmo caminho. A linguagem e estética ficam sempre em primeiro plano e classificar qual o gênero é algo indefinido para quem apenas coloca a criatividade à frente de qualquer rótulo (jazz à brasileira?). Ambas fazem música do mundo, e a sua música. O grande valor do trabalho é esse: identidade e autenticidade.

Hoje, 24 de junho está fechando 80 anos da passagem de Carlos Gardel entre nós. Desaparecido em acidente aéreo na cidade de Medellín, na Colômbia, Gardel permanece mais intenso e mais vivo com sua arte e seu jeito único de cantar tango. Neste espaço, sempre há Gardel. E sempre haverá tango. É e-terno.

Elton John/Leon Russell: The Union

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Em algum momento – quem sabe em todos os momentos – músicos, compositores, intérpretes, instrumentistas, músicos de estúdio se encontram. Podem possuir cada um trajetórias diferentes, gêneros distintos entre si, mas lá adiante ou mesmo lá atrás estarão ou estiveram juntos. Quem gosta de pesquisar a fundo os encartes dos discos irá descobrir maravilhas e poderá contar a história da música através dos encartes. Exageros à parte, é mais ou menos isso que acontece. E essas uniões por fim dão um caráter extraordinário à evolução de cada artista. A união entre Elton John e Leon Russell é um desses momentos em que se celebra o virtuosismo. A essência do melhor que cada um pode oferecer com seus instrumentos e criatividade. Ambos mais que consagrados, embora transitando pelos quase mesmos espaços, tiveram trajetórias distantes entre eles. Leon se envolveu com Delaney & Bonnie – Clapton andava junto -, com Joe Cocker  e os Mad dogs, esteve no emblemático Concert for Bangladesh com George Harrison. E por aí seguiu, mais sou, mais rock, mais blues. Elton trilhou o caminho do pop. Com brilho, diga-se. Sem demérito algum, ao contrário, criou um estilo próprio de ser e tocar. E produziu trabalhos magníficos. A união de ambos veio por outro músico fora do comum: Elvis Costello. E com um produtor do calibre de T-Bone Burnett algo mexeu com ambos. Uma trilha foi seguida e os pianos trocaram notas precisas e reviveram seus anos marcantes. Russell com aquele gosto dos anos 60/70, quando logo após esse período exilou-se em pequenos clubes da vida e John com seu pop enraizado até a medula soando em harmonia com o parceiro somente poderia render um disco e tanto. The Union é um festival de canções inéditas, com sessões de sopros magníficas, participações de Neil Young, do Beach Boy Brian Wilson e do eterno baterista Jim Keltner. A integração  entre eles foi tamanha que não houve nada que colocasse Leon de volta ao seu período dos anos sessenta/setenta e teve o mérito de revitalizar Elton em sua dimensão como músico talentoso. Um disco que deu a ambos uma nossa história. Ganhamos nós, que ficamos escutando cada faixa com dedicação e reverência.

Hamilton de Holanda & Stefano Bollani: bandolim e piano virtuoses

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Se os últimos tempos sopram cruéis com as perdas de tantos músicos de talento e genialidade, devemos saudar quando também outros gênios se encontram e geram belíssimos trabalhos. As trajetórias de Stefano Bollani, piano, e Hamilton de Holanda, bandolim, estão presentes como isso mais que possível é uma feliz realidade. Com influências distintas um do outro, porém, com muitos pontos em comum, os instrumentos marcam presença através da inquietude de cada música, que são suas improvisações. O italiano Bollani, aos 40 anos, é um conceituado pianista de jazz. Requisitado por nomes que figuram em qualquer lista dos grades da música, como o trompetista Enrico Rava, ou então Chick Corea, possui vasto currículo e acrescente-se mais um: é apaixonada pela música popular brasileira. Hamilton de Holanda é um jovem carioca, criado em Brasília, é sem dúvida o maior bandolinista brasileiro. Seu bandolim de dez cordas é solicitado e sua verve como instrumentista se revela no número de discos gravados, beirando os 30. Todos com o toque mágico do seu talento, capaz de criar e recriar, reinventar canções com espontânea criatividade. Também está por todos os cantos do mundo, tocando, fazendo duetos, trios, quintetos, acompanhamentos, ou então solo.

Pois, a gravadora ECM lança o cd O que será ao vivo, em apresentação da dupla no festival Middelheim Jazz na Antuérpia, Holanda. As dez faixas voam na audição. É automático repeti-la. E repeti-la. Pura improvisação seja do piano ou do bandolim ou de ambos, composições como “Beatriz” (Edu Lobo/Chico Buarque), “Luiza” (Antonio Carlos Jobim), “Rosa” (Pixinguinha), “Canto de Ossanha” (Baden Powell/Vinicius de Mores), “Apanhei-te cavaquinho” (Ernesto Nazareth) e até mesmo uma surpreende “Oblivion” de Astor Piazzolla, além de composições próprias, mostram como se aproximam temas tão brasileiros do jazz e o jazz de temas tão brasileiros como o chorinho, por exemplo, sem deixar de lado a bossa nova. É um encontro em que as palavras são desnecessárias, rigorosamente desnecessárias.

Ao escutar Bollani/Holanda entende-se a razão de ambos serem músicos, instrumentistas, compositores únicos. Você que leu as linhas acima, não deixe de procurar qualquer disco dos dois ou de um e de outro solo ou com outros acompanhantes. Tê-los em seu player será motivo de alegria e esperança em tempos melhores.

http://www.youtube.com/watch?v=ZmCWt5R0ics

O que será – Stefano Bollani & Hamilton de Holanda – ECM – 10 faixas. 54m3s.

Foto: capturada na internet no site http://www.mimo.art.br/atracao-30-stefano-bollani-hamilton-de-holanda-italia-brasil