Humanidade: Fronteiras fechadas

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2015. Século XXI. Será? Boate Kiss, Santa Maria. Mariana, Minas Gerais. Paris, França. Líbano. Síria. Imigrantes náufragos. E a lista não para de crescer. 2015. Século XXI. Será? Dia após dia, a humanidade fecha suas portas. E nós perdemos a chave para abri-la. Ontem, Mariana, o desastre, dezenas de vidas perdidas e desaparecidas. O Rio Doce assassinado. Milhares sem água, sem alimentos, sem vida. Ninguém preso. Hoje, o terror em Paris. Mais de centena de vidas sem vida. Em nome de quê? E amanhã? Será que amanheceremos?

Gotan Project: um outro tango é possível

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O purista arrepia só de ouvir falar que se faz tango eletrônico. O mais tradicional tangueiro apenas sorri e afirma convicto que o tango tal como foi concebido é imbatível. E entre um e outro, o tempo vai correndo às pressas, abrindo mais espaços e criando novas possibilidades. Nem um nem outro deixaram de passar por momentos em que foram “modernizados”. Cada um em seu tempo, claro. Meu pai, admirador confesso de Gardel, apenas ouvia o que de novo em tango eu levava para ele por respeito. Às vezes, ele me vinha com um “E isso é tango?” ao escutar o Diego Cigala ou o Andés Calamaro, e olha que o Tinta Roja do Calamaro é um disco primoroso. Em uma dessas idas a Buenos Aires trouxe um cd do Gotan Project. Tango eletrônico. O pior: queria dar para o pai porque a capa de Lunático tem um cavalo de corrida e remete de alguma maneira para essa estreita relação turfe/tango. Não passei para ele, fiquei com medo do “E isso é tango?”. Algum tempo depois, em uma conversa com um bom tinto à mesa, criei coragem e coloquei no player e ele gostou. Gotan Project. Lunático. O tango eletrônico com muita criatividade e clima de noite adentro.

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O curioso é que o Gotan foi formado em Paris. Por um músico francês, Philippe Cohen Solal, um argentino, Eduardo Makaroff, e um suíço, Christoph Müller. Paris tem tudo a ver com a noite, com épocas dos cabarés, da boemia, dos intelectuais, dos amantes, da vida. Paris pode sim respirar tango. E por lá, veio o La Revancha del Tango para mexer com as estruturas do início do século XXI dos tradicionalistas, que já sentiam a pele enrugada pelas mesclas com o rock, o folclore e o erudito. Todas muito bem-vindas, a propósito, embora nem todas com qualidade. Mas é esse sentimento universal que as letras muitas vezes sofridas, dramáticas e a dança sensual que se projeta entre o palco quase escuro, acinzentado pela fumaça dos cigarros que comove e arrebata as pessoas e as unem como se fossem uma só. O Gotan Project alicerça seu tango com elementos eletrônicos sem se descuidar dos instrumentos convencionais como o bandoneón, dos vocais cuidadosos, dos arranjos suaves, e sim, dramáticos também. Pode-se escutá-los, sem comparações, com o tinto passando entre os amigos, a carne assada e as histórias sendo contadas. Talvez não haja tanta angústia e sofrimento nelas, talvez a corrida não seja ganha por una cabeza, talvez a dança não seja sensual, porém, com certeza, em volta da mesa a música e os versos estarão se juntando a todos em um só compasso. E o tango, sendo o que sempre foi e será: tango.

Hemingway, sempre

As ilhas

O imortal autor de O velho e o mar – Pullitzer em 1953 – e Adeus às armas foi um incansável escritor. Não por acaso Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Sua estética é paradigma. Forma contundente de expressar através de frases curtas e objetivas, Ernest Hemingway viveu uma vida em toda a sua plenitude. E, também, todos os seus riscos. Pertenceu a um grupo de exilados ou chamados de “geração perdida” que, por vontade própria, viveu na intensa Paris dos anos 1920. Primeiro, como jornalista e, depois, como motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial. Era o início de sua carreira literária fulminante. Em direção ao sucesso. Não satisfeito, mergulhou profundamente na Guerra Civil Espanhola narrada em Por quem os sinos dobram. Foi o suficiente para ele? Não. Acompanhou de perto, como correspondente, a Segunda Guerra Mundial. Não bastasse, viveu em Cuba, havendo inclusive algumas matérias afirmando que teria sido espião norte-americano na ilha caribenha. De vida afetiva atribulada – foram quatro casamentos – conviveu com os então principiantes Ezra Pound e Scott Fitzgerald, por exemplo. Sua criatividade e talento estão presentes em pelo menos dez romances, 11 livros de contos e pequenas histórias e seis publicações não ficcionais. As ilhas da corrente é uma edição póstuma. Publicada em 1970, Hemingway acabaria com sua vida em 61, é um romance que narra as aventuras e tragédias da vida do pintor Thomas Hudson. A obra é dividida em três partes, que pode ser lida como pequenas novelas, que se entrelaçam, ou se fragmentam entre si, embora revelam toda a sua maturidade na escrita. “Bimini”, a primeira parte, se passa em ilha paradisíaca do Caribe; em “Cuba”, segundo momento, Hudson é um homem atormentado que perde o filho e reencontra a primeira esposa. O desfecho recebeu como nome de batismo “No mar” e tem elementos de guerra muito definidos na ação do personagem, verdadeiro caçador de submarinos nazistas durante o conflito dos anos 40. Considerado por muitos da crítica literária como a sua melhor obra pós-1961, As ilhas da corrente mantém a elegância de seu estilo capaz de prender até o menos interessado leitor. Um livro extraordinário e imperdível. A tradução de Milton Persson é precisa e um dos pontos de atração da leitura.

As ilhas da corrente

Ernest Hemingway

Editora Bertrand Brasil

558 páginas

Preço sugerido: R$ 59,00