Vitor Ramil: Foi no mês que vem

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Vitor Ramil é um compositor exigente. É um compositor que não esgota nenhuma possibilidade. Ousa. Não tem medo. Realiza. E isso desde o seu primeiro disco, o que traz a bela e definitiva “Estrela, Estrela”. Desde então, cada disco, uma obra. Obra trabalhada à exaustão. Trabalho de ourives. E é nessa exaustão que marca encontro com a ousadia. Com o novo. No clássico Ramilonga suas milongas além do violão eram acompanhadas por cítara. Quem mais poderia fazer isso? Ou gravar Satolep Sambatown com o percussionista Marcos Suzano. Vitor é essa síntese recheada de conteúdo e marcas profundas.

Sabemos do seu rigor e o bom gosto estético. Esta reunião de antigas novidades onde está bem definida suas sensibilidade, delicadeza, seu humor sutil, ou quem sabe os seus olhares biográficos,  e comentários históricos e literários, reflexões filosóficas, pensares incomuns sobre o amor. Nada é excluído em sua criação. Um quê de melancolia, talvez essa coisa que acompanha os que vivem ao sul, a introspecção, o frio, o inverno, a lareira, a pampa imaginária. Foi no mês que vem é um apanhado sólido de sua carreira. Um concerto onde os convidados se revezam e se entrelaçam em suas harmonias também de forma harmoniosa e desfilam seus nomes: Jorge Drexler, Marcos Suzano, Carlos Moscardini, André Gomes, Carlos Badia, Fito Paez, Wagner Cunha, Pedro Aznar, Franco Luciani, Ian Ramil, Bella Stone, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Santiago Vazquez, Kàtia B, Kleiton & Kledir e outros mais. Um disco magnífico, belíssimo e sobretudo inspirador do criador da Estética do Frio. Vitor em toda a sua plenitude. Dessas obras que a gente ouve sem jamais esgotar a vontade de ouvir de novo.

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A dos voces de Mario Benedetti e Daniel Viglietti

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Atravessar as longas avenidas de Montevidéu é caminhar sob o fio da história. O olhar se perde em suas construções antigas e respiram um quê de moderno. Nada se exclui na capital uruguaia. De dentro de suas fronteiras, a cultura transpira por todos os lados. Não se encolhe ao se encontrar com o Rio da Prata. Ou se aventurar pelos campos imaginários do pampa, dos verdes e dos gauchos platinos se entrelaçando com as terras do Rio Grande. Não há distância que nos separe. Mas, para cá das águas platenses, a cultura ganha o mundo. E também sofreu com o rigor do autoritarismo comum durante décadas nos países da América Latina. No pequeno Uruguai nasceu um dos maiores nomes da literatura: Mario Benedetti. Maio de 2009 se tornou triste e silenciou as Américas. Sua morte, aos 88 anos, deixou uma lacuna que jamais será preenchida. Todos os grandes jornais escreveram o que tinham que escrever e prestaram homenagens sensíveis ao grande e sensível homem. Chronosfer mostra aos seus leitores um trabalho extraordinário feito com um dos mestres da música do vizinho oriental. Com Daniel Viglietti, produziu um livro e cd extraordinários. A dos vocês é a marca da liberdade, da rebeldia, da esperança, do futuro. A dos vocês é muito mais que um livro e um cd. É um universo infindável de possibilidades. Às vezes, Daniel canta primeiro, Mario recita depois. Outras vezes, Bendedetti recita e Viglietti canta. O repertório desliza por toda a nossa alma, acelera o coração, sensibiliza os ouvidos mais áridos. Impossível ficar impassível diante de A dos vocês. Viglietti é daqueles homens que resistiram, como Alfredo Zitarrosa, e o pessoal de Tacuarembó – de grande presença na cultura e na política uruguaias – a qualquer forma de opressão. É dele o clássico “A desalambrar”, tema eterno sobre a questão da terra, tema comum aos países latino-americanos. Canção que passou no início dos anos 70 quase incólume pelos censores brasileiros nos inesquecíveis discos América do Sol, produzido por Abílio Manoel.

Daniel esteve em Porto Alegre na Usina do Gasômetro em 01 de maio de 2003 em memorável apresentação e show de consciência humana.

Encontrei A dos vocês em um quiosque de Buenos Aires. Livro e uma fita cassete pendurados e a preço mais que popular. Anos mais tarde, em Montevidéu, o cd compensou em parte as longas caminhadas que fiz em busca da possibilidade de encontrar Mario Benedetti. Não consegui. Estava na Espanha e doente, me disseram. Conversei longamente com Washington Benavides, escritor, ex-parceiro de Zitarrosa, com Eduardo Darnauchans, com Ruben Rada, ouvi Laura Canoura, murgas, candombes e não encontrei Mario Benedetti. Agora, repassando, descubro uma apresentação de Mario a um disco em homenagem ao espanhol Joan Manuel Serrat.

Mario partiu, as Américas estão silenciosas, mas sua obra grita ao mundo o grito da liberdade, da solidariedade, do humanismo.

Daniel estará mais uma vez em Porto Alegre, amanhã, às 21h, no Theatro São Pedro dentro do Festival El Mapa de Todos. O evento integra artistas latinos e brasileiros durante cinco dias de shows, debates e encontros. Ponto para a integração latino-americana.

www.youtube.com/watch?v=gCHCbtPDbno

www.youtube.com/watch?v=EX0PfMlTTMw

Reproduções capturadas na Internet.