Fito Paez: No sé si es Baires o Madrid

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Uma confissão: custei bons anos, esses estão acumulados lá atrás no passado, para gostar do Fito Paez. O motivo exato nunca soube tampouco percorri corredores ou subi escadas para saber. Então, um dia a capa de No sé si es Baires o Madrid  me chamou a atenção, as cores, o p&b, o Baires, o Madrid. Uma conjunção visual perfeita e ao mesmo tempo discreta e criativa. Não pensei duas vezes, o cd da compra na loja para o player aconteceu com rapidez. Não me arrependi. É um belo disco. O muro que havia erguido em setenta minutos ruiu.Felizmente. Um repertório com seus clássicos gravados no Palacio de los Congresos em Madrid (2008), convidados da grandeza de Pablo Milanés – “Yo vengo a ofrecer mi corazón” -, Joaquin Sabina – “Contigo” -, Gala Evora – “Un vestido y un amor” – e outras canções como “El amor después del amor”, a encantadora “11y6”, ou a estonteante “Mariposa Tecknicolor” aquecem o coração. Com certeza nos torna mais leves, mais afeitos à vida, a levantar âncora e seguir até o fim do mundo. Em Baires o Madrid o todo se completa e se faz presente. ( e pensar que tudo começou com a capa desse disco…)

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Pablo Milanés e Victor Manuel: en blanco y negro

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Duas histórias, duas trajetórias, várias estradas e caminhos. Um disco e outras tantas histórias e caminhos. Pablo Milanés, cubano, e Victor Manuel, espanhol. Pablo tem em seu sangue os trovadores, a arte popular, os cantos dos povos, que o forjaram como cantor e compositor, ainda que tenha anos de formação acadêmica do Conservatório Musical de Havana. esteve sempre nas ruas, nos bares e nos bairros da cidade a sua música, foi onde encontrou a diversidade e a riqueza sonora do país. Também recebeu influências vindas da música norte-americana, tão comum naqueles anos 50 em Cuba, sem jamais deixar de lado a música tradicional do seu lugar. Até se tornar um dos nomes, com Silvio Rodriguez, da Nueva Trova Cubana. Movimento que sacudiu a música do pequeno país das águas do Caribe. E ganha o mundo, o Brasil e por aí segue seu destino de trovador. De cantor das causas sociais e da vida. Victor Manuel não diferente. O espanhol das Astúrias é um revolucionário da canção. junto com Ana Belém representam a transição musical da Espanha. Começou também cedo, aprendeu harmônica, mas foi em Madrid que estudou e passou a fazer parte do cenário musical como cantor e depois como compositor. Identificado com os movimentos mais à esquerda, é um nome que transforma sua canção em fortes elementos de contestação ao autoritarismo. Vai para o exílio, e se espalha pelo mundo com sua obra. Pablo e Victor têm muito em comum. São conscientes, críticos, sensíveis, acreditam na vida, na transformação pela paz, conquistam plateias. Juntos, são mais que dois. En blanco y negro não é síntese de um e de outro. Não é o resumo de suas artes. É mais que tudo, encontro. Encontro de sensibilidades que andam e atuam no mesmo sentido. Se complementam. São transformadores. O tempo não para e eles mostram que não deve mesmo parar. Eles avançam e nos convidam a avançar. O repertório clássico dos dois apenas carimba a passagem para o avanço da paz, da vida, das transformações. Exagero? Não, nenhum exagero. Apenas uma realidade a ser vivida.

Teresa Parodi y Ana Prada: y que más

Teresa e Ana

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz das margens que o comprimem”. A frase de Bertold Brecht não se aplica a Teresa Parodi e Ana Prada. A primeira, da margem argentina do Prata, a segunda, o lado uruguaio desse mesmo rio. Em comum, além de as margens aproximarem-nas, ambas são nascidas no interior dos seus países – Corrientes e Paysandu, Argentina e Uruguai. Trazem, cada uma, o cheiro e o sabor do folclore, do ainda novo para muitos folclore do interior do interior de suas terras. Uma, mais intérprete, Ana, outra, mais afiada na palavra, nas harmonias, Teresa. Os caminhos, embora ainda uma em seu lado do rio, vão se formando com experiências únicas. Parodi cantou como convidada no quinteto de Astor Piazzolla aos fins dos anos setenta. Musicou poemas, entre eles os de Jorge Luis Borges. Prada, aos poucos foi sendo descoberta como compositora. Antes, acompanhava o primo Daniel Drexler, irmão de Jorge. Formou um cuarteto voca, La Otra. Participou dos concertos de Simply Red e Buena Vista Social Club. Parodi, a convite de Mercedes Sosa, foi com León Gieco, Victor Heredia, Julia Zenkoe e Alejandro Lerner em 2000 a Israel. Fez trabalhos com Pablo Milanés e Antônio Tarragó Ros. Ana, com Rubén Rada.
Um dia, as margens não comprimiam as águas. Encontraram-se. Identificaram-se. Muito em comum entre as raízes do folclore e a música urbana de cada lado. As águas juntaram tudo isso. Integraram seus talentos, suas sensibilidades. Y que más é um disco notável em sua amplitude, seja ela regional ou para muito além não das margens mas das fronteiras, qualquer fronteira. Se misturam com naturalidade, vão compondo, tocando, cantando, escrevendo. E acompanhadas por músicos de tirar o fôlego. Como o disco. Y que más? Escutá-lo sem demora.


Clube da Esquina II: a magia continua

Clube 2

1978. Alguns anos após o primeiro Clube, o segundo chega com mais e novos amigos. O jeito universal de ser é o mesmo. Os amigos, outros: Elis Regina, Chico Buarque, Francis Hime, Grupo Tacuabé, Pablo Milanés, Boca Livre, Joyce, Gonzaguinha. Novas parcerias, novos arranjos. Na verdade, o nada será como antes, na música de Milton, continuou igual. O talento, a sensibilidade, a leitura do momento, a sua compreensão, a integração entre os gêneros, a América Latina mais dentro do Brasil, mais poesia, mais consciência. Menos Lô e Beto, mais diversificação. Mais Milton. Clube da esquina II, uma fotografia de um país transversal em busca da sua identidade. Clube da Esquina II, a síntese de cada um. De todos nós, quem sabe. O que foi feito deverá.

Silvio Rodriguez & Pablo Milanes: música para além da pele

Alguns discos habitam o meu imaginário. Para sempre. Ainda que mais tarde possa tê-los em mãos, continuam criando em mim muitos sentimentos. Silvio Rodriguez & Pablo Milanes En Vivo En Argentina é um deles. Gravado no Estádio de Obras Sanitárias em abril de 1984, três décadas para trás, nunca o encontrei no Brasil. Não sei sequer se foi lançado aqui. Amigos comuns no gosto pela música latino-americana me passaram um “cassete” de um dos discos – é um álbum duplo. E desde então iniciei a “caça” ao En Vivo dos cubanos. Tantas idas a Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Paraguai resultaram em fracasso. É bem verdade que descobri algumas pérolas da linguagem musical da nossa América, mas o disco dos dois dos maiores cantores cubanos nada feito. Confesso que havia desistido e me conformado com o cassete guardado e não transformado em cd pela tecnologia. Até que ano passado estive em Colônia de Sacramento, às margens do Prata, e vendo do outro lado, com certo exagero, Buenos Aires. Em Colônia, entrei em uma livraria em busca do livro Las cartas que no llegaron do Mauricio Rosencof, recomendado em artigo escrito em Zero Hora pela escritora Letícia Wierzchowski em outubro de 2011 e que guardara. Levei comigo uma cópia do texto, e ao entrar em uma livraria da pequena e belíssima cidade uruguaia, que um dia foi nossa, não apenas encontrei o livro como em um canto quase escondido estava o cd duplo dos filhos da ilha caribenha. Fiquei confuso e a alegria do encontro chegou com um silêncio que me fez tremer o corpo todo. Depois da euforia, comprei ambos e guardei na bagagem. Porto Alegre em breve estaria em meu cotidiano outra vez e deixei para ler e escutar em casa. Assim foi. Assim é. Do livro, houve desdobramentos. Letícia fez para a Record uma alentada e sensível tradução. Tenho os dois e em algum momento estarão em Chronosfer. O disco, foi para o Ipod e é companhia obrigatória. Não todos os dias, claro, mas está presente.

Cubanos

A Argentina recém havia saído de um dos seus períodos mais duros, de uma ditadura militar ferrenha, e o show dos cantores possui um grande sentido simbólico à época em que foi realizado e em especial aos momentos atuais, em que a aproximação entre Cuba e Estados Unidos quebram, enfim, o gelo de décadas e abre novas perspectivas em suas relações.
Os representantes da Nueva Trova Cubana, já conhecidos em nossas terras, desfilam um repertório maiúsculo e convidaram músicos argentinos a dividirem o palco. Junto com Eduardo Ramos, Frank Bejerano e Jorge Aragon, Leon Gieco, Piero, Victor Heredia, César Isella, Cuarteto Zupay e Antônio Tarragó Ros abraçaram cada canção com o sentimento de unidade latina. Estão presentes “Todavia Cantamos”, “Unicornio” “Ojala” “Yo pisare las calles nuevamente”, “Años” “Carito” “La vida y la libertad”, “Pobre del cantor” e “Cancion com todos”. Um disco sim para se guardar do lado esquerdo do peito. Um disco amigo. Um disco que lança a semente da esperança e da paz, que tanto necessitamos.

Leon Gieco: verdadeiras canções

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Perdi a conta dos anos que conheço Leon. Talvez o tenha escutado pela primeira vez lá pelos anos oitenta, início acho. Depois, em uma das idas a Bueno Aires estive em seu estúdio, isso em 1994, e lançava o seu Desenchufado. Fui, na verdade, apresentado a sua música pelo cantor e compositor Raul Ellwanger. O disco, do gaúcho, gravado no seu exílio, trazia além do santafesino, Mercedes Sosa e Pablo Milanês. La cuca Del hombre é um belo e emblemático trabalho. Daí, mergulhar em De Ushuaia a La Quiaca, do Leon, foi um passo muito curto. E a cada ida a capital portenha, seus CDs começaram a fazer parte do meu acervo. E a cada um ou em cada um, a descoberta da relevância social do letrista Leon Gieco. Se no início de sua carreira, o olhar encontrava um homem ligado ao campo, hoje, está mais para o urbano. Sem, no entanto, perder sua consistência poética e harmônica. Claro que os tempos passam, as mudanças são necessárias, nem sempre para melhor, posições políticas são assumidas de forma mais objetiva e clara. Ficamos a lo largo da política, embora não há razão alguma para fugir do tema. Gieco é um político. Não o político de gabinete, de mandato parlamentar. É político em suas ações, em suas manifestações, em sua expressão como músico e como homem. Músicas como “Cinco siglos igual” e “La memória”, para citar apenas essas, refletem a sua preocupação com a realidade e não o distancia dela. Ou em versos que podem até passar despercebidos de várias de suas letras fortes. Gosto, em especial, dos versos de “Como um tren” onde diz: “Como um milagro la lluvia me dio el arcoíris y el agua el río/Yo por amor doy la vida porque mi vida por amor amor um día nació”. Nos cds Por partida doble e Por partida triple há explicações sobre as canções, que são essenciais para sua compreensão. São discos belíssimos.

Aqui estamos apenas com o seu trabalho em mãos. Março passado, em Montevidéu, encontrei o seu Verdaderas canciones de amor. Uma coletânea feita pelo próprio artista que revela: “La Idea de hacer este disco surgió hace um par de años. Mientras viajaba por La ruta que va desde Montevideo hacia Punta Ballena em uruguay. Disfrutando  de lãs imágenes y del descanso, de pronto vi um cartel que decía GOCE DEL PAISAJE. Em esse instante pensé que había algunas de mis canciones que podían ser útiles para hacer bajar La velocidad Del auto, conducir relajado, atento, y quizás “gozar Del paisaje”, El que fuera, como decía aquel cartel de La ruta”. Assim nasceu o álbum duplo que traz 34 canções escolhidas por ele.

Ao longo dos anos fiz várias coletâneas pessoais com as minhas preferidas. Hoje, ao confrontar as minhas escolhas com as dele, coincidimos em várias e assumimos “rutas distintas” em várias outras. Pouco ou nada importa. O que importa é que foi construído um interessante painel da obra do cantautor argentino. Podemos descobrir suas preciosidades como “Rio y Mar”, “Del mismo barro”, “Horal”, “Desde tu corazon”, “Em ele país de La libertad”, “Todos los dias um poço”, “Al entardecer” e outras tantas que acredito teria que reproduzir o disco inteiro neste espaço. Convidados mais que especiais e destaco Nito Mestre, simplesmente extraordinário em “Canto Dorado” e em “Em La cintura de los pajaros”. Há espaço para uma canção de Chico Buarque (“Mar y Luna”), Silvio Rodriguez (“Solo ele amor”), a voz de Jairo em “Mi amigo”, sem falar nos quantos e diversificados músicos acompanharam Leon ao longo destes anos todos em suas andanças pelo mundo e gravações. Para quem gosta muito de rock, por exemplo, o baterista Jim Keltner, que gravou com nada mais nada menos que Bob Dylan – esteve no magnífico Concerto para Bangladesh do George Harrison -, Eric Clapton, John Lennon, e uma infinidade de grandes instrumentistas, está presente em alguns dos seus discos.

Um disco que, pelo menos para mim, é de cabeceira, ou melhor, disco de deixar no player com a tecla do repeat pronta sempre.

Quem não conhece Leon Gieco, eis um trabalho que é um verdadeiro cartão de visita.

Leon toca

http://www.youtube.com/watch?v=JITPob1xK_4

http://www.youtube.com/watch?v=gEM3qRpjlc0

http://www.youtube.com/watch?v=HcVDQxIRxmI

Fotos: capa do disco dos arquivos pessoais de Leon Gieco e ao violão, do site http://www.alpasport.com.ar