Whiplash: até onde vão os limites

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Ser contraditório é uma tentação. Às vezes, gosto muito e sou contraditório. Às vezes? Muitas vezes. Agora mesmo, entrega do Oscar no domingo, e não dei audiência à cerimônia. Não posso escrever ou comentar sobre. Assisti a todos os filmes que estavam em alguma disputa. Bom, nem todos, quase todos. E todos têm algo que desperta nossa atenção. Seja pelos atores, seja pelos diretores, seja pelos conteúdos, seja pelas interpretações. Julianne e Reese, magníficas; dos atores nenhum me chamou tanto a atenção embora reconheça a transformação de Bradley Cooper como Sniper; os coadjuvantes são sempre um caso à parte. Não em raras oportunidades eles “roubam” o filme. E mais uma vez isso aconteceu. O ator da vez é J.K. Simmons. Ator de interpretações corretas, lembro dele em Juno, e em alguns papéis em séries como Lei & Ordem: UVC como o dr. Emil Skoda. E também em Mar de Fogo de 2004, Hidalgo no original.
Na pele de Terence Fletcher, professor ou mais que isso na Escola de Música Shaffer, ele mais parece um sargento que esfola até sangrar os soldados rasos recém ingressos no exército. Literalmente. Mas, é a forma como J.K. desenvolve Fletcher que o torna fascinante. A convicção que transmite toda a sua sabedoria e experiência como músico a duelar com o jovem Andrew (Miles Teller), um baterista que ascende posição na banda da escola. E entra-se em um terreno demasiado perigoso.

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Importante a passagem em que conta ao jovem baterista como Charlie Parker se tornou Bird. E as exigências para se tornar um músico a altura das expectativas de Fletcher – ou seria da própria música? – crescem na mesma medida em que Andrew entra em colapso emocional e físico, promovendo uma série de rupturas no campo pessoal. Ao travar intensa luta interna para enfrentar o mestre, o jovem promissor questiona os limites para se atingir a perfeição. “Não há limites”, responde. No entanto, as respostas a essa e outras questões que se intensificam à medida em que a trama avança, podem estar nas próprias canções e seus arranjos. E talvez esteja uma simbologia no filme: o gênero musical é o jazz, onde uma de suas grandes marcas são as improvisações feitas pelos instrumentistas que o tocam. Do aparente nada ou convencional nasce o novo, o revolucionário. O jazz mexeu com Astor Piazzolla, por exemplo, a ponto de introduzi-lo no tango. Miles Davis promoveu profunda ruptura e a partir dele o jazz nunca mais foi o mesmo. Talvez esteja exatamente nesse ponto a resposta exata para a questão dos limites. Na verdade, quem improvisa não tem limites. E a cena final, quando da apresentação de abertura de um festival no Carnegie Hall, representa a ruptura do que seria convencional – seguir o mestre – ou improvisar. É o que Andrew faz. Uma curiosidade: Paul Reiser, o marido de Helen Hunt, em Mad About You é o pai do jovem aspirante a músico. Whiplash é magnífico e profundo. E J.K. Simmons mereceu o Oscar que lhe foi entregue domingo passado.

Fotos capturadas na Internet.

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Oscar, o dia dos melhores do cinema. Melhores?

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Hoje é o dia mais esperado por muitos. Pouco esperado por muito menos, pessoas como eu, por exemplo. Não gosto de premiações para os melhores. Sempre haverá um quê de injustiça, um quê de conveniência, um quê de marketing eu outro quê de esquecimentos. Está certo, também premiações são justas. Muita gente de talento e de trabalhos maiúsculos levam os prêmios de melhores. No entanto, dimensionar trabalhos distintos em situações igualmente distintas é correr riscos. Desnecessários, na maior parte das vezes. Reconheço, entretanto, que Julianne Moore está magnífica na pele da linguista Alice diagnosticada com Alzheimer. Da mesma forma, Reese Witherspoon dá dignidade em sua entrega total em Livre, cujo papel exige da atriz todos os seus recursos para a densidade da personagem e do tema. Qual é a melhor? São temas e trabalhos distintos. É uma escolha de Sofia. Pelo que indicam todos os prognósticos, Julianne levará a estatueta já referendada por várias outras estatuetas como o Globo de Ouro e o Critics´ Choise. Não questiono. Procuro entender. Outro exemplo está entre Benedict Cumberbatch, Eddie Redmayne e Michael Keaton. Cada um com talento suficiente para vencer. Porém, Redmayne é o favorito. Seu desempenho é realmente notável, mas há outro porém: a sutileza com que Cumberbatch interpreta Alan Turing é brilhante. E agora? Bom, as escolhas estão nas mãos dos associados da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. São as regras do jogo. E posso exercer o direito de não concordar ainda que não faça a menor diferença. Para ser honesto, eles nem sabem que existo. Talvez esteja aí a graça de tudo. Os anônimos podem quebrar com as rotinas das premiações fazendo as suas escolhas. Acontece. É justo. Faz também parte do jogo. Escolho não escolher ninguém. Apenas mergulho no que gosto, exerço a minha crítica para eles e excluo o que não gosto. É o meu jogo. E gosto de jogá-lo comigo mesmo. Todavia, hoje é o grande dia para muitos. Respeito. E torço para que a justiça esteja na maioria das premiações entre os que estarão disputando o tão cobiçado troféu. Abaixo, um pouco do que está em jogo mais tarde.