Glen Hansard: Didn´t he ramble

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Glen Hansard desde os tempos do The Frames faz um trabalho consistente, ora folk ora mais rock ou ainda com todas as nuances dos compositores irlandeses. Não por acaso vez por outra surge alguma voz afirmando certa semelhança com o bardo Van Morrison. Diferenças à parte, foi com a parceria inspirada e sensível com a pianista e compositora tcheca Markéta Irglová que alçou seu voo mais alto. Em Once,  filme que protagonizaram, oscarizaram a canção tema “Falling Slowly” e formaram o The Swell Song, com bons trabalhos. Havia entre os dois uma química que funcionava muito bem, tanto que um e outro participavam de seus trabalhos solos. Ela gravou Anar e Muna, ele chegou com Rhythm and Repose. E cada um seguiu seu caminho. Hansard chega ao mercado com Didn´t he ramble, onde mais uma vez o folk e o indie rock se insinuam pelos seus labirintos musicais. Um disco que possui, sobretudo, uma unidade harmônica, temas em que a vida real se confronta com seus lados otimistas, apaixonados e, às vezes, nem tanto um ou outro. São dez canções maduras e encontram Glen mais cristalino e mais envolvido emocionalmente com cada composição. Os arranjos são primorosos e o destaque fica por conta das cordas com Rob Mouse e Thomas Bartlett, que o conectam ao mistério entre melodias e letras e faz do irlandês um intérprete poderoso. Um belo disco, embora confesse preferir o anterior, mais folk, mais calmo. Todavia, um disco que vale cada faixa e nos transporta às nuvens e começa pela belíssima capa.

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Song One or Once?

Song

A pergunta pode parecer despropositada. Não é. Pode até ser. Afinal, são filmes com conteúdos diferentes um do outro que, no entanto, se encontram em algumas de suas personagens. Em Once os protagonistas são na vida real músicos. Em Song One o sul-africano Johnny Flynn é quem assume o duplo papel seja na vida real seja na ficção. Anne Hathaway ainda que havia feito musical (foi Fantine em Os Miseráveis de 2012) está muito distante de Markéta Irglová, a tcheca que ilumina Apenas uma vez com sua doce personagem e que em vida cotidiana é compositora, cantora e pianista. É por aí que as semelhanças cessam. E a história assume outros rumos e segues bifurcações que o separam completamente da produção irlandesa.
A direção de Kate Baker-Froyland é sensível, conduz os atores com sensibilidade e faz com que cada um se revele ao extremo em suas interpretações. E isso vale para a veterana e sempre magnífica Mary Steenburgen, mãe do irmãos Franny (Anne) e Henry (Ben Rosenfield). Ela, uma arqueóloga em expedição no Marrocos, poucos antes havia discutido com o irmão e desde então o silêncio comprometia sua relação com ele, que deixara a Universidade para ser músico. Com seu violão, toca nas ruas, metrôs, e o folk vai incendiando sua vida até o dia em que sofre acidente e entra em coma. (Eis a semelhança com Once: músicos de rua, que acreditam no seu trabalho e sonham com o sucesso, o acidente não entra em nenhum momento no filme estrelado por Glen Hansard). Franny vai percorrendo os caminhos do irmão, frequentando os seus locais preferidos, assistindo aos shows que fazem a cabeça de Henry, e conhece o seu músico favorito James Forester, um cantor e compositor índie/folk. Por óbvio, a atração é comum aos dois, mas o que realmente é mais aprofundado no filme é a intensa procura interior de Franny por Henry. Talvez seja uma procura por sua própria identidade, talvez seja uma procura em reconhecer o irmão para além daquilo que imaginara dele e que foi desviado ao decidir ser músico. O acidente, o estado inconsciente é uma simbologia para a personagem de Hathaway, que no fundo foi a vítima do atropelamento, é ela que estava inconsciente até a revelação de henry através de suas canções, de seu diário, de seus lugares preferidos. Ao fazer e refazer tais caminhos e conhecer e se relacionar com Forester, e travar alguns duelos verbais com a mãe, que sua personagem ganha densidade e a atriz responde por inteiro as exigências do papel. Claro, Henry desperta, a vida continua e o final completamente aberto responde (ou não) o que o público deseja na relação entre o ídolo folk e a irmã arqueóloga. Um final que instiga a imaginação. Quanta a pergunta do título, bom, os dois, cada um com suas características próprias, claro.

Glen Hansard: sombrio e criativo

GH

O filme Once, Apenas uma vez, impulsionou a carreira de Glen Hansard. Não que fosse desconhecido, anônimo ou algo parecido. Não, pelo contrário. O trabalho com o The Frames sempre foi consistente e capaz de pôr seu nome à frente. A película, no entanto, teve o poder de incensar sua atuação e a de Marketá Irglová, pianista tcheca. A química entre ambos funcionou não apenas nas interpretações de seus personagens se não que também como instrumentistas e compositores. “Failling Slowly” venceu o Oscar de melhor canção de 2008, comprovando o acerto da dupla. Daí para o The Swell Season foi um passo natural e a dinâmica de ambos permaneceu intacta. Em 2012 o irlandês de Dublin, lançou seu primeiro álbum solo: Rhythm and Repose . Trabalho árduo de ser feito, embora revele todo o seu talento seja como músico, seja como cantor/compositor. Vindo de série de rupturas, as canções vão mostrando-o solitário, triste, quase sem esperança em meio a tantas tempestades. Embora possa aqui e ali encontrar passagens mais otimistas, o disco é sombrio, cinzento, e as onze faixas, quase todas acústicas, se mostram tal como o seu rosto na capa do disco. É um trabalho, entretanto, lúcido e criativo, ainda que carregue todas as pesadas nuvens da vida naquele seu momento. Todas as músicas são destaque. Todas possuem as digitais de Glen Hansard e seu DNA está à disposição de quem quiser ouvi-lo. Como curiosidade, Marketá faz backing vocal. Trabalho lapidado com sensibilidade.

Glen Hansard . Rhythm and Repose (2012) – YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=WPS1zdjHwpE

Foto: capturada na Internet.

Markéta Irglová & Leonard Cohen

8-17_MarketaIrglova_web                                  Leonard_Cohen_2187  Tenho escutado Markéta e Leonard. Ela, com o seu Muna. Ele, com o belo Live in Dublin. A Irlanda entra em meus pensamentos. Once com o Glen Hansard acontece em Dublin. A trilha, também bela, continua encantadora. Folk suave e também visceral. Então, em pensamento de admirador confesso de Cohen e agora tendo Markéta como um presente vivo, no meu longo caminhar das manhãs já quentes do verão recém nascido nesta parte meridional do Brasil, uni os dois em um disco. Como seria o piano/violão de Markéta com a voz rouca, como se estivesse recitando poemas, de Leonard. Nesta viagem, ambos revelam-se em todos os sentidos e a música penetra pele adentro até atingir a alma. Que dupla fariam!

Ponto de chegada à vista. Respiro fundo, alongo os músculos, desligo o Ipod. A tarde será mais quente ainda. E a certeza de que os meus sonhos não envelhecerão animam a minha vontade. Um dia, quem sabe!

www.youtube.com/watch?v=YrLk4vdY28Q

www.youtube.com/watch?v=-Ar9syGQYYQ

No Youtube, pela ordem, Leonard e Markéta.

Fotos: Markéta: http://www.yogongyisham.com e Leonard, capturada na Internet.

Markéta Irglová, muito além de Once

Mark e Muna

“Por outro lado, Markéta lançou em 2011 o cd Anar e neste ano de 2014 chega às lojas com Muna. Em ambos, a instrumentista e compositora se destaca mais como compositora e instrumentista. Sua voz, delicada, não se completa com as composições e fica faltando algo. Assim como a dupla australiana, Angus & Julia Stone, se completam, a sensação que fica é que Irglová não funciona bem sem a presença de Glen. Todavia, são trabalhos que merecem audição cuidadosa, pelo sensível tratamento dado a cada canção e, sobretudo, por mostrar o que sente.”

Bom, por este parágrafo em post mais lá atrás, recebi alguns e-mails, digamos, descontentes comigo pelo que escrevi sobre Markéta. Não havia, ainda escutado, na integra, Muna e a sensação que Anar passara foi exatamente o que postei. Eis o meu equívoco. Talvez, e devo reconhecer isso, porque gosto muito de Angus & Julia Stone, e da dupla Glen Hansard & Markéta Irglová ou The Swell Season, fiquei preso a um gostar que deveria ter sido relativizado com o irlandês e a tcheca. Senti mesmo que havia um certo descompasso no trabalho da pianista em seu disco solo, e identifiquei como sendo a ausência de Glen. Escutei outras vezes o delicado disco e continuei pensando o mesmo. Até que Muna chega bem devagar em meu ipod e em algumas caminhadas vou sentindo a pulsação de Irglová.

É um disco mais maduro. Mais folk, mais de raízes, acentuações pop, orquestrações perfeitas, e momentos jazzísticos além de vocais deslumbrantes. A vida de Markéta passou por transformações, vida nova, a maternidade, viver em Nova York e na Islândia, as influências, enfim, um somatórios de situações que foram muito bem absorvidas e transformadas em canções admiráveis e profundas. Disco ainda jovem, lançado em setembro passado, terá vida longa pela qualidade e por se alinhar como muito mais adiante da fascinante dupla que fez com Hansard. Se Once irá habitar o nosso imaginário pela beleza de filme que é, por certo, Markéta será lembrada pela extraordinária compositora e instrumentista que é. Como curiosidade, o seu marido Sturla Mio Thorisson é o produtor e sua irmã Zuzi está nos vocais e há também a presença de músicos novos e experientes como o guitarrista Rob Bochnick e a voz de Ainda Shaghasemi.

Peço atenção a este belo e insinuante e talentoso disco de Markéta Inglová.

Muna

Abaixo, o disco na integra, e abaixo, uma faixa do primeiro da compositora tcheca.

http://www.tramp.com.br/cultura/marketa-irglova-libera-o-disco-muna-para-audicao-gratuita/

http://musicapave.com/videoclipes/marketa-irglova-go-back/

Fotos: capturadas na Internet.

Once II (Mais uma vez)

Glen Markéta

Não, não é continuação. Não é franquia. Nada disso. Apenas um título sem nenhuma criatividade. De minha parte, claro. A verdade é que Glen Hansard e Markéta Irglová viveram na vida real o sonho não concretizado na tela. Romance que durou de 2006 até 2009 e dele nasceram belos discos. Em abril daquele ano, lançaram The Swell Season. A maioria das composições foram assinadas com Markéta e como instrumentistas participaram a finlandesa Maria Tuhkanen no violino e viola e o francês Bertrand Galen no violoncelo. Ano este em que filmaram Once. È um disco tranqüilo, sereno, belo. E teve sequência em 2009, mais uma vez com ambos, e como faixas bônus gravações ao vivo, inclusive a clássica “Failling Slowly”, vivendo um clima de cumplicidade com o público. Desfeito o “casamento”, Hansard lança em 2012 Rhythm and Repose, onde a compositora tcheca participa apenas dos backing vocals. É um trabalho de muita qualidade, de grande impacto emocional. De alguma forma ou de todas as formas, mantém a sua linha de compor e interpretar e isso sem dúvida o colocam em uma relação com que o escuta muita entrelaçada e sensível. O músico do The Flames irlandês dá um passo imenso. Grava o EP Drive all night (2013), e no Youtube pode-se ver suas apresentações com Bruce Springsteen e Bono Vox.

Por outro lado, Markéta lançou em 2011 o cd Anar e neste ano de 2014 chega às lojas com Muna. Em ambos, a instrumentista e compositora se destaca mais como compositora e instrumentista. Sua voz, delicada, não se completa com as composições e fica faltando algo. Assim como a dupla australiana, Angus & Julia Stone, se completam, a sensação que fica é que Irglová não funciona bem sem a presença de Glen. Todavia, são trabalhos que merecem audição cuidadosa, pelo sensível tratamento dado a cada canção e, sobretudo, por mostrar o que sente.

Abaixo os sites do The Swell Season, do Glen e da Markéta para serem visitados e lá estão vídeos e gravações muito interessantes sobre os seus trabalhos. E Once continua em nosso imaginário e na realidade.

http://www.glenhansardmusic.com

http://marketairglovamusic.com

http://www.theswellseason.com

Mar

Fotos: reproduções dos sites mencionados acima.

Once (Apenas uma vez): belo e dilacerante

Once

A primeira vez que ouvi falar do filme Once, no Brasil Apenas uma vez, a referência estava em sua trilha sonora. Escutei com todo cuidado “Failling Slowly” e descobri porque não por acaso foi Oscar de melhor canção de 2008. Ponto altíssimo todas as canções, em sua maioria composta pelos atores principais Glen Hansard e Markéta Irglová, também músicos na vida real. A história, segundo as pistas que fui seguindo através das críticas seja via imprensa seja pelas redes sociais, é singela e comovente. Afinal, uma imigrante tcheca, casada, procurando se adaptar a uma Dublin bela e gélida, e um jovem compositor e músico de rua em troca de algumas moedas, ao se encontrarem passam a ter outros tipos de encontro: a afinidade pela música e a quase desesperada necessidade de autoafirmação diante do cotidiano. Passam a ser ver todos os dias, ela se interessa pelas composições dele, e a trama está feita. O processo de criação e gravação, com também um grupo de rua, em estúdio da canção que permeia o filme todo se desenvolve em paralelo as tramas do interior das personagens. Cada um com seus dramas, medos e sonhos. A cena dos dois em uma loja de instrumentos musicais tocando e cantando “Failling Slowly” é comovente e sensível. É a síntese de cada um. É a essência de ambos. A trama se entrelaçando. Há espaço suficiente para criar no espectador a esperança de que um se apaixone pelo outro. Nas cenas em que Glen está compondo a música, outras tantas imagens de ambos embalam tal sentimento. Os dias passam, entram em estúdio, gravam e tudo segue a sua rotina. Ela, com a família, marido, filha, trabalho. Ele, violão ao ombro, caminha pelos corredores do aeroporto. Ela, ganha um piano, toca-o, lança o olhar pelo vidro da janela, encontrando as ruas quase desertas do subúrbio de Dublin. Ele, sorridente, caminha quem sabe ainda na direção dos seus sonhos. Por isso dilacerante, oferece o sonho e dá como retorno a realidade. Dirigido com maestria por John Carney, tem nos atores principais a razão de o filme colher tanta simpatia e sucesso. E, claro, uma extraordinária trilha sonora.

Once 2

www.youtube.com/watch?v=YXMiZwxwD4k

Reproduções capturadas na Internet.