Gravenhurst: The ghost in daylight

Gravenhurst

Gravenhurst era Nick Talbot. O inglês foi de tudo um pouco, um pouco de tudo: jornalista, multi-instrumentista, cantor, compositor. E com seus trabalhos solos foi criando uma teia maior de canções mais alternativas de rock, deixando o convencional para trás. E foi juntando outros músicos. E outras vozes. As composições, mais para o sombrio, para o folk possuem intrincadas soluções harmônicas, variando de um solo de guitarra mais alto a um simples dedilhar de cordas. The ghost in daylight é um disco atmosférico, sem cair no ranço midiático. Ao contrário, há muito de canções do folclore, do popular, acústicas e vocais tecidos com cuidado para cada acorde. Aqui e ali você vai encontrando influências marcantes na criação de Talbot.  E elas apenas fortalecem o Gravenhurst. Outros trabalhos do grupo (1999-2014) sempre tiveram o selo de Nick até a sua partida. Música que envolve, faz a respiração cadenciar o ritmo, atenua o caminhar áspero dos dias de hoje, e ao ingressarmos em sua essência sonora, a esperança renasce com densidade.

Dylan LeBlanc: Paupers Fields

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O folk é um campo em que o semeador jamais o esgota. Sempre há um novo plantar e uma nova safra para a colheita. Dylan LeBlanc é um desses que faz do folk sua lida. Sem medos e com a suavidade da espera para colher. Paupers Fields é um trabalho assim. Feito com o talento de quem conhece a terra e nela sabe como a vida germina. Seu primeiro disco é o reflexo disso. E também da terra e seus cansaços, suas melancolias, seus fracassos, seus amores, a vida enfim se confessando pelos instrumentos e voz. As canções percorrem as sementes férteis de Nick Drake, Neil Young, Townes Van Zandt e Fleet Foxes. Ainda que a névoa da tristeza por vezes descanse entre as canções, há em LeBlanc uma promessa de dias e noites encantadas. Suas composições são o abraço e o silêncio que de repente se tornam uma constelação de harmonias luminosas. Vocais com Emmylou Harris envolvem. Sua acoustic guitar é a palavra que falta nesse campo que floresce aos nossos olhos e se instala em nossas almas para ficar.

Nick Drake: quatro décadas de ausência

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A cena folk é de uma riqueza única. Ainda que muitos dos seus nomes passem despercebidos, os talentos se multiplicam, e alimentam a música. Para além de Bob Dylan, Cat Stevens, Neil Young, James Taylor entre tantos, desperta a atenção Nick Drake. Em 25 de novembro próximo passado foram completadas quatro décadas de sua morte. Aos 26 anos. Isso faz lembrar as perdas também prematuras de ícones como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Brian Jones. Todos antes de entrarem na casa dos trinta.

Nicholas Rodney Drake foi um obsessivo instrumentista e compositor. Capaz de inventar afinações para cada canção composta e escrever letras alicerçadas em sua experiência de vida, criou o jeito Nick Drake de ser. Sua presença no cenário musical coincide, como sempre, com um período de profundas transformações que estão fincadas nos anos sessenta e se estendem até um pouco mais dos anos setenta. Autor de apenas três discos, todos afundados na escala de vendas, somente muito tempo depois o reconhecimento chegou. Antes, o jeito único, inquieto de Drake em nada colaborava em sua relação com o público e apenas alguns amigos o acompanhavam. Entre eles, os músicos do Fairport Convention. De quem abriu shows, inclusive. Os sucessivos fracassos, fizeram com que o seu segundo álbum fosse mais pop, mais comercial. Brayter Layter seguiu o mesmo caminho de Five Leaves Left: pouco reconhecimento. Em 74 entrega vinte e oito minutos de música dispostas em onze canções. Pink Moon teve participação de John Cale do Velvet Underground e a base musical estava concentrada em cordas, bateria e sax. Claro, e o violão extraordinário de Nick.

Levou muitos anos até que Norah Jones, Elton John, Brad Mehldau gravassem canções de sua autoria. No Brasil, Renato Russo o descobriu. E outras bandas com REM e The Cure apresentam referências notáveis do estilo único de Drake.

Agora, quando quatro décadas nos separam de sua partida, a sua obra é reverenciada e o seu trabalho é sem dúvida um trabalho de riqueza interminável, testemunho de tanta vida e inquietações que um jovem possa ter vivido naqueles fantásticos anos. Abaixo, dois dos seus trabalhos melancólicos e sensíveis.

www.youtube.com/watch?v=llNpigCSAZE

www.youtube.com/watch?v=3sQv04CFSdE

Foto capturada na Internet.