Vitor Ramil: Foi no mês que vem

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Vitor Ramil é um compositor exigente. É um compositor que não esgota nenhuma possibilidade. Ousa. Não tem medo. Realiza. E isso desde o seu primeiro disco, o que traz a bela e definitiva “Estrela, Estrela”. Desde então, cada disco, uma obra. Obra trabalhada à exaustão. Trabalho de ourives. E é nessa exaustão que marca encontro com a ousadia. Com o novo. No clássico Ramilonga suas milongas além do violão eram acompanhadas por cítara. Quem mais poderia fazer isso? Ou gravar Satolep Sambatown com o percussionista Marcos Suzano. Vitor é essa síntese recheada de conteúdo e marcas profundas.

Sabemos do seu rigor e o bom gosto estético. Esta reunião de antigas novidades onde está bem definida suas sensibilidade, delicadeza, seu humor sutil, ou quem sabe os seus olhares biográficos,  e comentários históricos e literários, reflexões filosóficas, pensares incomuns sobre o amor. Nada é excluído em sua criação. Um quê de melancolia, talvez essa coisa que acompanha os que vivem ao sul, a introspecção, o frio, o inverno, a lareira, a pampa imaginária. Foi no mês que vem é um apanhado sólido de sua carreira. Um concerto onde os convidados se revezam e se entrelaçam em suas harmonias também de forma harmoniosa e desfilam seus nomes: Jorge Drexler, Marcos Suzano, Carlos Moscardini, André Gomes, Carlos Badia, Fito Paez, Wagner Cunha, Pedro Aznar, Franco Luciani, Ian Ramil, Bella Stone, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Santiago Vazquez, Kàtia B, Kleiton & Kledir e outros mais. Um disco magnífico, belíssimo e sobretudo inspirador do criador da Estética do Frio. Vitor em toda a sua plenitude. Dessas obras que a gente ouve sem jamais esgotar a vontade de ouvir de novo.

Olivia “estrela da vida inteira” Hime: poesias de Manuel Bandeira

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Alguns discos são como livros. Chegam e se instalam em nossa alma e cabeceira e nos acompanham por onde quer que nossos passos caminham. Estrela da Vida Inteira da Olivia Hime, sobre poemas de Manuel Bandeira é um desses. Assim como o seu Mar de Algodão, quando visita a obra de Dorival Caymmi. Em Estrela… a proposta se alicerça na estreita combinação entre a cantora, a poesia e compositores convidados. Alguns, com participação no disco, que é de 1986 e parece ter sido lançado poucas horas antes. Gilberto Gil, Francis Hime, Tom Jobim, Milton Nascimento, Wagner Tiso, Moraes Moreira, Ivan Lins, Dorival Caymmi, Toninho Horta, Joyce, Radamés Gnatalli, Dori Caymmi e a própria Olivia fazem com que a poesia de Manuel Bandeira ganhe ainda mais cor e vida. O resultado é algo que passa a fazer parte de nosso interior. Impossível ficar impassível. Há um entrelaçamento sensível entre as combinações, encontros e nuances que somente essas linguagens são capazes de fazer. E fazem. E nós, mais que ouvintes, passamos a ser parte também. Se não somos estrelas, nossa luz ilumina a sensibilidade que nos habita e percorre desde nossa alma até a pele que o sol aquece. Um disco para se guardar para todo o sempre.

Alice Caymmi: Rainha dos Raios

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“Alice é a primeira do reino Caymmi. E quando ela canta, todos nós, povo e também aristocracia, identificamos sua autenticidade. Para Platão, o termo aristocracia se fundia na virtude e na sabedoria. Para Dorival Caymmi, o termo aristocracia se fundia na mais perfeita convergência genética que sua música poderia fazer: uma revolução chamada Alice Caymmi. Seu talento se mantém internacional e suas ideias sempre a levam para voos mais altos a cada registro e a cada vontade que ela tem de ser Alice Caymmi.”

Texto de Michael Sullivan, no encarte do disco Rainha dos Raios.

Hamilton de Holanda & André Mehmari: gismontipascoal – a música de egberto e hermeto

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Escrever sobre Hamilton de Holanda e André Mehmari é cair em demasiados clichês e redundâncias. O bandolinista e o pianista são dos maiores instrumentistas do Brasil e ponto. Mais não é necessário. Então, ao apresentar este fantástico gismontipascoal onde os dois ingressam no universo musical de Egberto e Hermeto, fico com o que os homenageados escreveram no encarte do disco. Hermeto: “Quem toca um instrumento não pode ser instrumento do instrumento nunca.” , e Egberto: “A retribuição que desejo é dificílima pra alguns, evidentemente, não para vocês; desejo que vocês continuem pra sempre guardiões da música brasileira, lembrando, sempre, que ELA é muito maior que todos nós.”  Agora, ouvi-los e deixar que esse encantamento seja permanente.

Mário Sève & David Ganc: Pixinguinha & Benedito

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O CD traz a parceria de Benedito Lacerda e Pixinguinha, o dueto instrumental mais importante da música brasileira, com inéditas, novos arranjos, e os instrumentos dos dois: flauta e sax. Alternância nos instrumentos, melodia e contraponto, arte do contraponto brasileiro, que teve seu ápice com Pixinguinha, está presente nas 14 músicas, inspiradas nas gravações da década de 40. Duas delas são inéditas, saídas do baú da família: o baião “Acorda Garota” e o frevo “Agua Morna”. O disco redefine as tradicionais classificações e olhares sobre os gêneros musicais sem preconceitos. O que era choro torna-se choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda. É música viva que flui, é mescla dos tempos ora passado ora presente, e quem sabe, o futuro também. É esse olhar sobre a obra extraordinária de Pixinguinha e Benedito Lacerda que o sax de Mário Sève e a flauta de David Ganc se debruçam. E esmiúçam sem nunca chegar à exaustão. Ao contrário. Os “standards” da dupla atravessam e desafiam o tempo sem nenhum problema. E a leitura que os instrumentistas criam é algo que fascina. É o prende e liberta que somente a música possui. O acompanhamento é de deixar o ouvinte com água na boca. Um regional que inclui Dininho, filho de Dino 7 Cordas (mestre do contraponto no choro, ao lado de Pixinguinha), Jorginho “Época de Ouro” do Pandeiro (elo de ligação com o mestre), Celsinho Silva, Mingo Araujo (percussões), Oscar Bolão (bateria). Da turma do samba: Wanderson Martins, que toca com Martinho; Esguleba (do grupo de Zeca Pagodinho); Claudio Jorge, parceiro de Cartola. O disco caminha muito também pelos caminhos de  João da Bahiana, Clementina de Jesus, ao samba batucada de Ciro Monteiro e a Paulinho da Viola. Tem ainda o piano de Leandro Braga, o quarteto de Guerra Peixe, o acordeon de Toninho Ferragutti e uma orquestra de frevo com os metais de Roberto Marques, Nilton Rodrigues, Carlos Veja. Trabalho de extrema sensibilidade e daqueles que a gente ouve e aperta o repeat sem medo algum. Uma viagem maravilhosa pela sonoridade dos mestres do chorinho e outros gêneros sem cair no modismo dos rótulos.

 

Estrella Morente: Amar en Paz

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Uma proposta muito simples: repertório de músicas brasileiras na voz de Estrella Morente e com o violão de Niño Josele tecendo as teias harmônicas. Uma reunião de flamenco com música popular brasileira não soa tão original tampouco tão frágil como possa parecer a alguns críticos. O sonho de Fernando Trueba, o idealizador e tudo o mais da obra, se uniu a outros já realizados por ele, tanto com Estrella quanto com Josele na homenagem a Bill Evans. Foi quando a cantora gravou Francis Hime e enfim pisou o chão do Brasil. A Espanha tem muito a ver com nossas terras. Sua influência em nossa cultura é definitiva, e ao longo dos anos tem-se mostrado fértil. E não apenas por aqui, se não em toda América. É comum encontrar Diego El Cigala, por exemplo, na Argentina, gravando tangos. E o flamenco é um gênero que envolve quem com ele se relaciona. É impossível ficar em silêncio absoluto. Amar em Paz não é, no entanto, um disco de flamenco. É música brasileira vertida para o espanhol sob o comando do talento de Estrella. Um apanhado musical que vai cortando os anos e trajetórias, começando por Antônio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes, Radamés Gnattali, Pixinguinha/João de Barro, Francis Hime/Chico Buarque, Milton Nascimento/Fernando Brant, Dolores Duran, Paulinho da Viola, Álvaro Nunes/Otavio de Sousa. Um leque de décadas e gêneros que os acordes do violão de Niño suaviza. Culturas e leituras que se encontram. Sem medo de se assumirem. Quem sabe mais desses encontros que um lê o outro através das águas dos oceanos não possa trazer como o título do álbum – Amar em Paz – justamente a paz que tanto desejamos entre todas as gentes do mundo. Seja esse disco neste post uma declaração de tolerância, de compreensão, de humanismo, de paz diante dos acontecimentos de ontem.

Orquestra Popular de Câmara: MPB mescla gêneros e influências

OPC

O dia de hoje tinha dono: Ornette Coleman. Deixo para amanhã. Merece uma segunda-feira nobre. Fica o domingo com a Orquestra Popular de Câmara. Trabalho vigoroso e repleto de talentos e sensibilidades. Um andar pelos tecidos musicais do Brasil e de seus acolhimentos de todos as partes que aqui chegam ou que de lá são trazidas. O contemporâneo e o tradicional juntos. Ainda que não seja novidade, a presença de outra mescla, a de instrumentos, marca o andamento das canções. Assim, convivem em harmonia e criando harmonias o violoncelo, o piano, a zabumba, o acordeom, o bandolim, as flautas indígenas e os saxofones. Um encontro sem fronteiras, um encontro que rompeu com as mais insistentes fronteiras. O virtuosismo de Benjamim Taubkin, Teco Cardoso, Caíto Marcondes, Paulo Freire, Naná Vasconcelos, Mané Silveira, Lui Coimbra, Guello e Ari Colares, Ronem Altman, Sylvio Mazzuca Jr., Dimos Goudaroulis, Toninho Ferragutti, meu deus, faltou algum nome? A voz de Mônica Salmaso. tem cheiro e sabor de movimento musical tamanha a dimensão que os instrumentistas dão ao corpo sonoro que criam. A originalidade, a inovação expressam mais que sentimentos, assumem o quanto a música instrumental brasileira é rica e densa por eliminar qualquer foco de resistência ás convenções que muitas vezes são impostas aos músicos. A Orquestra Popular não olhou épocas, nem autores, nem regiões do mundo para realizar seu disco. Apresentou. E é da fusão dos gêneros e das influências que cada música ganha vida própria como se fosse composta especialmente para o álbum. Trabalho magnífico e faz o domingo frio desse amanhecer gaúcho ter um gosto suave e feliz.

Para o Sérgio Napp

imageSair alguns dias de Porto Alegre apenas para deixar o tempo correr apressado, como é sua característica, e eu a passos lentos, ficando para trás, foi uma decisão acertada e todo o meu interior exigia. A serra do Rio Grande do Sul é linda, europeia em sua formação, e simplesmente gosto daqui como fosse minha casa. Nesses poucos dias aqui por enquanto chuva, frio, café bem quente, o tinto convidando, as pessoas nos cafés felizes. Hoje o dia amanheceu ensolarado, pedindo para ser explorado. Será.

Mas, ontem, quando a chuva insistia em cair, soube da partida em definitivo do Sérgio Napp. Amigo desde sempre, colega de trabalho, escritor, poeta, compositor. Algo quebrou no que ainda me resta de tantas perdas nesses dois anos passados. Um silêncio me habita triste também, sem a sua gritaria feita de clichês. O Sérgio sempre foi daquelas pessoas que estão presentes e fazem de tudo para a vida ser mais suave e poética. A falta que já faz palavra alguma descreve. Deixo aqui Assis, lugar de paz e harmonia como uma homenagem ao Sérgio e toda minha amizade abraçando-o onde estiver.

Neste pequeno pc não consigo anexar sua música então sugiro que busquem no YouTube a canção Desgarrados, a mais bela letra do Sul do
Brasil.

De volta, deixo na voz de Victor Hugo “Desgarrados”.

Yamandu Costa: Tocata à amizade

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Reproduzir ambientes do passado, mesmo que recente, não é privilégio da indústria cinematográfica. Alguns músicos se valem desses ambientes, que ainda resistem ao tempo e aos modernismos, e com seus companheiros instrumentistas se reúnem e fazem verdadeiras celebrações musicais. É a amizade fluindo através das harmonias e acordes, dos cantos, das homenagens e de arranjos feitos à queima-roupa entre os amigos que se embalam em sorrisos e criatividade. Tocata à Amizade mais um dos tantos discos gravados por Yamandu Costa parte dessa premissa afetiva. E consegue transformar quem para para (ops, desculpem, mas a construção ficou assim mesmo, primeiro o verbo parar) escutar sente-se envolvido pelo clima, pelo ambiente. Ali, bem próximo a mesa do bar, a noite ganhando terreno sobre o dia, em volta deles mais amigos e admiradores. Ou apenas pessoas vivendo o seu normal. A formação dos músicos que estão em Tocata é camerística com Alessandro Kramer (acordeom), Rogério Caetano (violão 7 cordas de aço) e Luis Barcelos (bandolim 10 cordas). E mais não foi necessário. O começo foi um convite do Museu do Louvre para ele, Yamandu, compor uma peça que representasse um pouco da música popular brasileira. O movimento composto, “Suite Impressões Brasileiras” tem essa mensagem que abraça algumas regiões do território brasileiro (choro-tango, valsa, frevo-canção, baião com milonga). “Negra Bailarina” e “Boa Viagem” anunciam os amigos compositores que seguem a linha proposta. E chegam composições de Raphael Rabello (“Pedra do Leme”), João Pernambuco (“Graúna”) e a “Suite Retratos” com “Pixinguinha”, “Ernesto Nazareth”, “Anacleto de Medeiros” e “Chiquinha Gonzaga” que possuem a assinatura do maestro Radamés Gnatalli. Um trabalho coeso, bonito e delicioso de se escutar, e é mesmo uma celebração à amizade. (as reproduções são de momentos da carreira de Yamandu Costa).

António Zambujo em Porto Alegre, hoje

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Pois consegui uma façanha: vou perder o show de hoje, no Teatro do Bourbon Country, do António Zambujo de lançamento do seu álbum Rua da Emenda. E sem desculpas. Sem olhar a agenda, assumi outro compromisso. E perder o novo expoente, segundo alguns críticos, do novo fado é imperdoável. Ao escutar o seu Ao vivo no Coliseu já havia ficado impressionado com a suavidade do seu canto e a brasilidade com que seu repertório se desenvolve. O filho do Alentejo é talentoso e possui um timbre de voz que torna impossível não se envolver com suas canções. E ele mesmo confessa as influências da música popular brasileira, de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, de ser um joãogilbertiano assumido e convicto. eis a essência do seu trabalho: o fado tradicional, a mpb, e por aí encontra elos entre os fados mais antigos com os chorinhos, e a aproximação é natural. Mas, Zambujo tem um olhar cosmopolita e interiorano o que configura seu trabalho como de integração. E uma integração que vai além. Grava sem medo algum o uruguaio Jorge Drexler e Serge Gainsbourg, cantou acompanhado de Yamandu Costa músicas com letras de Paulo César Pinheiro, já esteve com o gaúcho Márcio Faraco e já havia passado por Porto Alegre em 2003 em projeto da Universidade Federal.  Escuto ao fundo o seu Ao Vivo e bate aquele sentimento de culpa. É que resulta em não olhar a agenda. No entanto, o mais importante de tudo: António Zambujo está aqui e isso vale infinitamente mais que a minha agenda.