Carlos Badia: Zeros

carlos badia

Se alguém passar e perguntar se Carlos Badia é o mesmo do grupo de jazz Delicatessen a resposta é sim. O compositor, produtor e instrumentista faz algum tempo que trabalha suas canções. Ao deixar o Delicatessen, iniciou um mergulho no tempo e foi lapidando suas canções que forma descobertas na década de 90 e chegaram até estes anos 2000. Zeros, álbum duplo, pode ser visto como uma síntese destes anos ou um disco que percorre seus vários caminhos além do jazz. Um dos discos contempla sua criação instrumental, o outro transporta o ouvinte para o universo vocal. E a som de ambos condensa suas influências ao longo desse tempo todo: jazz, naturalmente, bossa nova, samba, zamba e ritmos caribenhos. Há nele, em Zeros, uma síntese da universalidade de Badia. As mesclas de gêneros, os países que nos circundam, os que estão lá adiante de repente se encontram em complexas harmonias criadas pelo compositor. Seus arranjos, elaborados em esmero e talento, carimba o trabalho solo, o primeiro, com extremo virtuosismo. Se quem gosta do Delicatessen, por certo haverá de gostar de Carlos Badia, mas não tente juntar os dois ao mesmo tempo. O disco de Badia tem vida própria, e abraça o ouvinte com toda a sua sensibilidade.

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Stanley Jordan: Cornucopia

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Stanley Jordan é um virtuose. Basta ouvi-lo e o mundo se transforma. Quem o ouve também. O guitarrista é mais que um instrumentista clássico por formação. Para além dos bancos da academia, as ruas forjaram sua forma de tocar guitarra. Quem sabe, a melhor escola. Do rock e do soul para o jazz e o jazz fusion foram poucos passos. O talento, sempre o mesmo. Melhor, em crescimento constante. Todos os seus discos são vertentes maduras, ora águas tranquilas ora revoltas que a criatividade instiga. É um instrumentista que se vale e muito da técnica. E em sendo técnico abre mais espaços para desenvolver o jeito único de toca. Com o tapping – consiste em uma ou duas mãos para “martelar” na escala do instrumento, ligando-as, adquirindo efeito de grande velocidade – revolucionou a música instrumental. E a ela aliou várias influências, inclusive a brasileira, a caribenha e por aí segue. Uma guitarra cujas harmonias nos fazem criar harmonias dentro de nós mesmos.

Mário Sève & David Ganc: Pixinguinha & Benedito

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O CD traz a parceria de Benedito Lacerda e Pixinguinha, o dueto instrumental mais importante da música brasileira, com inéditas, novos arranjos, e os instrumentos dos dois: flauta e sax. Alternância nos instrumentos, melodia e contraponto, arte do contraponto brasileiro, que teve seu ápice com Pixinguinha, está presente nas 14 músicas, inspiradas nas gravações da década de 40. Duas delas são inéditas, saídas do baú da família: o baião “Acorda Garota” e o frevo “Agua Morna”. O disco redefine as tradicionais classificações e olhares sobre os gêneros musicais sem preconceitos. O que era choro torna-se choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda. É música viva que flui, é mescla dos tempos ora passado ora presente, e quem sabe, o futuro também. É esse olhar sobre a obra extraordinária de Pixinguinha e Benedito Lacerda que o sax de Mário Sève e a flauta de David Ganc se debruçam. E esmiúçam sem nunca chegar à exaustão. Ao contrário. Os “standards” da dupla atravessam e desafiam o tempo sem nenhum problema. E a leitura que os instrumentistas criam é algo que fascina. É o prende e liberta que somente a música possui. O acompanhamento é de deixar o ouvinte com água na boca. Um regional que inclui Dininho, filho de Dino 7 Cordas (mestre do contraponto no choro, ao lado de Pixinguinha), Jorginho “Época de Ouro” do Pandeiro (elo de ligação com o mestre), Celsinho Silva, Mingo Araujo (percussões), Oscar Bolão (bateria). Da turma do samba: Wanderson Martins, que toca com Martinho; Esguleba (do grupo de Zeca Pagodinho); Claudio Jorge, parceiro de Cartola. O disco caminha muito também pelos caminhos de  João da Bahiana, Clementina de Jesus, ao samba batucada de Ciro Monteiro e a Paulinho da Viola. Tem ainda o piano de Leandro Braga, o quarteto de Guerra Peixe, o acordeon de Toninho Ferragutti e uma orquestra de frevo com os metais de Roberto Marques, Nilton Rodrigues, Carlos Veja. Trabalho de extrema sensibilidade e daqueles que a gente ouve e aperta o repeat sem medo algum. Uma viagem maravilhosa pela sonoridade dos mestres do chorinho e outros gêneros sem cair no modismo dos rótulos.

 

Dedilhando o Brasil com Marcus Bonilla

Dedilhando o brasil

Marcus Bonilla é um violonista que trabalha seu instrumento como se fosse um artesão. Na verdade, é um artesão da música. Com formação na área, é Mestre em Musicologia – Etnomusicologia, é Bacharel em Violão pela UFRGS e possui pós-graduado em Educação Musical pela UDESC, Marcus estendeu sua experiência formal em trabalhos mais orgânicos e tecidos com o sentimento de quem vai semeando o campo com precisão e acerto. Sabe a hora da colheita, sabe o que e como plantar. Dedilhando o Brasil é um disco solo, em que o violão e o repertório dialogam tendo Bonilla como mediador. É um trabalho seguro, inspirador e tranquilo. Ao olhar com maior atenção compositores como Dilermando Reis, Egberto Gismonti, Paulinho Nogueira, Luiz Bonfá e Antônio Maria, Heitor Villa-Lobos e Alexandre Sapienza, além de três peças autorais, ele revela sua universalidade musical e também não deixa de lado suas influências. As dezesseis faixas parecem passar rápido demais tamanha é a qualidade de suas cordas. Neste disco, o violão é a linha mestre apenas tendo o violoncelo de Raquel Alquati em “A propósito” do compositor. premiado em 200O com o Prêmio Açorianos de Música Instrumental, o seu trabalho seguinte Caminhante do Céu Vermelho é uma mescla de música clássica, popular, new age e a introdução de outros instrumentos na elaboração dos arranjos e gravações. Há uma linha coerente e de uma estética própria em seu caminho a ponto de deixar de lado, ao menos por ora, outras composições de outros autores e partir para um trabalho mais autoral. O resultado pode ser ouvido no site http://marcusbonilla.com.br Sua maturidade está à disposição e seu talento suave tece esses momentos com sensibilidade.

Al Di Meola, John McLaughlin & Paco De Lucia

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Alguns discos entram em nossas vidas para sempre. Tornam-se definitivos. Guardamos em nossas almas e memórias e gostamos de tê-los próximos. Não importa o gênero, o estilo ou mesmo quem, o que importa é que o disco penetre profundamente em nossos corações e pronto. Tenho minhas preferências, que de alguma forma tenho mostrado aqui, e em um exercício para lá de exagerado faço uma espécie de 1001 discos para se ouvir antes de morrer. Guardadas as trilhões de proporções, naturalmente. Gosto, no entanto, de pensar que posso passar adiante trabalhos que para mim dizem muito, não apenas sob o ponto de vista musical, mas também social, político, cultural, de identidade, de raiz. Discos como O primeiro canto da Dulce Pontes, do Ian Anderson e suas danças com Deus, as verdadeiras canções de amor de León Gieco, os poemas e musicalidade de Mario Benedetti e Daniel Viglietti, e a lista está no Chronosfer em forma de posts. Assim, sem entrar em maiores detalhes, apenas deixar como sugestão, este extraordinário encontro de três dos maiores instrumentistas que escutei em minha vida: Al Di Meola, John McLaughlin e Paco De Lucia. E triste ao sentir na pele a certeza de que este encontro jamais se realizará pela partida de Lucia. Porém, Friday Night in San Francisco é daqueles álbuns em que o player não se cansa nunca de repetir e repetir. Repertório com cinco canções, deles e de Egberto Gismonti (“Frevo Rasgado”) e Chick Corea (“Short Tales of Black Forest”) que encantam, hipnotizam, e simplesmente nos transforma. Há tanto de harmonias e timbres sonoros que a junção de estilos e formas diferentes de interpretar se uniram um único e transversal som de magnitude superior. Música instrumental, jazz, flamenco, não importa. São três violões, três músicos. E precisa mais? Apenas que cada um de nós possa escutar com a alma, com o coração e a pele. E um universo inteiro de sensibilidade para ser vivido.