Mawaca: a sonoridade do mundo

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Tem algum bom tempo que o Mawaca faz parte da minha vida. Veio junto com a chamada world music e na bagagem também outros grupos como o Terra Sonora, por exemplo. Não houve nenhum estranhamento. Se na década de sessenta as pedras começaram a rolar com o rock e o blues por que não brasileiros não poderiam hospedar em sua música universal a universalidade étnica? Assim, em encontros que aconteciam por aqui – Porto Alegre – havia sempre banca de venda de discos que passavam e ainda passam ao largo dos meios mais comerciais. Violeiros, grupos étnicos, folk brasileiro, nordestinos, paraibanos, o Armorial, Quinteto da Paraíba, iniciantes, uma gama quase infinita de nomes de conteúdo imenso e criativo. O Mawaca estava entre eles. Hoje, entre os meus preferidos, não descansa na cedeteca. É para estar no player quando a manhã começa a ganhar cor e descobrimento. Os vocais harmonizados com instrumentos acústicos como o acordeom, o violoncelo, a flauta, o sax e mais as tablas indianas, beri,bau, instrumentos árabes, africanos e de outras regiões do Brasil compõem um quadro sonoro vital de entrelaçamento entre culturas seja ela japonesa ou irlandesa, seja ela da Finlândia ou da Indonésia. Há sempre um ponto comum e uma fronteira desfeita. Uma terra de todos em cada acorde e em cada vocal. Música sim do mundo. E nossa.

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Kronos Quartet: Caravan

kronos quartet

Quarteto de Cordas maiúsculo. Começar com adjetivo é sempre um perigo. A linha que separa a afirmação do não corresponder à expectativa é tênue. Demasiada estreita por onde podem passar gostos distintos. E cada um com suas razões. O Kronos Quartet se ajusta com canções que se criam ao redor do mundo. Ou para dentro do mundo. Caravan vai passeando faixa por faixa por essa geografia: Iuguslávia (antes de ser fatiada), Portugal (Carlos Paredes), Índia, México, Turquia, Romênia, Hungria, Irã, Líbano e Argentina (Aníbal Troilo). Música étnica, música tradicional, folclore, tango (já haviam gravado Piazzolla), canções populares recheiam o disco com suavidade e emoção. Lançam para além da formação clássica convidados à arena das interpretações: Zakir Hussain, Taraf de Haidouks, Kayhan Kalhor, Ziya Tabassian, Ali Jihad Racy, Souhail Kaspar e Martyn Jones. Eles dão o gosto da mescla. Introduzem instrumentos como o acordeom, as tablas, címbalos, bateria e instrumentos da cultura africana. E esse gosto étnico conduz o quarteto por um caminho de aproximação e profundidade entre as culturas, regando-as sem concessões, criando texturas envolventes e revelam intimidade em suas nuances. Caravan não excede em absolutamente nada e os arranjos ultrapassam os limites que um quarteto de cordas comum ficaria confinado. Tudo aqui se transforma. Ganha uma vida que abre outras tantas. E se mostram por inteiro. Um disco completo. Maiúsculo. O adjetivo é toda a sua sensibilidade de sentir e passar adiante.