Mawaca: a sonoridade do mundo

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Tem algum bom tempo que o Mawaca faz parte da minha vida. Veio junto com a chamada world music e na bagagem também outros grupos como o Terra Sonora, por exemplo. Não houve nenhum estranhamento. Se na década de sessenta as pedras começaram a rolar com o rock e o blues por que não brasileiros não poderiam hospedar em sua música universal a universalidade étnica? Assim, em encontros que aconteciam por aqui – Porto Alegre – havia sempre banca de venda de discos que passavam e ainda passam ao largo dos meios mais comerciais. Violeiros, grupos étnicos, folk brasileiro, nordestinos, paraibanos, o Armorial, Quinteto da Paraíba, iniciantes, uma gama quase infinita de nomes de conteúdo imenso e criativo. O Mawaca estava entre eles. Hoje, entre os meus preferidos, não descansa na cedeteca. É para estar no player quando a manhã começa a ganhar cor e descobrimento. Os vocais harmonizados com instrumentos acústicos como o acordeom, o violoncelo, a flauta, o sax e mais as tablas indianas, beri,bau, instrumentos árabes, africanos e de outras regiões do Brasil compõem um quadro sonoro vital de entrelaçamento entre culturas seja ela japonesa ou irlandesa, seja ela da Finlândia ou da Indonésia. Há sempre um ponto comum e uma fronteira desfeita. Uma terra de todos em cada acorde e em cada vocal. Música sim do mundo. E nossa.

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Jorge Drexler: La edad del cielo

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Uruguaio de nascimento, ganhou o mundo esse médico, cantor e compositor. Desde que seu Oscar por melhor música – “Al outro lado del río”, pelo filme Diários de motocicleta – sua vida foi pulando lugares: Buenos Aires, Madri, Porto Alegre, e mais uma infinidade de cidades. criativo, permaneceu algum tempo antes do sucesso cinematográfico entre as estantes de discos quase anônimo. Discos que já demonstravam sua universalidade e uma gama de influências para além do Prata e muitas vezes chegando à beira do Guaíba porto-alegrense. Não por acaso, um dos seus amigos e parceiros é Vitor Ramil e sua Estética do Frio. Andam juntos os dois. Os discos foram se sucedendo, todos com repercussão por onde passa e o seu caminho abre horizontes. La edad del cielo abraça um período em que a Virgin era a sua gravadora, e lá estavam (estão) VaiVen, Llueve, Frontera e Sea, e estão dezessete faixas em que não podemos escolher nenhuma: todas são magníficas. Voltar um pouco ao início de sua carreira é um exercício que permite observarmos o seu desenvolvimento com compositor, cantor, artista e cidadão do mundo. Um disco que se ouve com tranquilidade e para os que vivem ao sul do sul nesses dias de inverno com uma mate quente à mão ou um café.

Gisbranco: Flor de Abril

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Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco. Bianca é filha de Egberto Gismonti e isso por si só deveria ser uma apresentação. Para ela não é. mesmo com todo o amor e influência paterna ela juntou-se a Claudia e seguiu caminho. Dois pianos. Muitas ideias. Música. O Duo assume sem medo um repertório infinito: Heitor Villa-Lobos, Baden Powell/Vinícius de Moraes, Edu Lobo/Capinam, Hermeto Pascoal e Chico César. Flor de Abril não se resume a leitura especial desses compositores, possui obras próprias, e personalidade mais que própria. Talvez muito mais conhecidas no exterior que no Brasil, Bianca e Claudia têm muitos amigos que participam de suas obras: Carlos Malta, Robertinho Silva, Chico César, já tocaram com Ná Ozzetti, Marcos Suzano e músicos cubanos. Os teclados da dupla são incansáveis na busca – e no encontro – de texturas originais que marcam cada nota. As vocais que acompanham cada faixa do disco segue o mesmo caminho. A linguagem e estética ficam sempre em primeiro plano e classificar qual o gênero é algo indefinido para quem apenas coloca a criatividade à frente de qualquer rótulo (jazz à brasileira?). Ambas fazem música do mundo, e a sua música. O grande valor do trabalho é esse: identidade e autenticidade.

Hoje, 24 de junho está fechando 80 anos da passagem de Carlos Gardel entre nós. Desaparecido em acidente aéreo na cidade de Medellín, na Colômbia, Gardel permanece mais intenso e mais vivo com sua arte e seu jeito único de cantar tango. Neste espaço, sempre há Gardel. E sempre haverá tango. É e-terno.

Jamishied Sharifi: a música do Oriente Médio, África e Estados Unidos

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A música muitas vezes é pele. Penetra aos poucos. Entra na corrente sanguínea. Percorre todo o corpo. Acelera o coração. E alcança a alma. A música é pele e alma. Jamshied Sharifi condensa sua criação entre o Oriente Médio, a África e os Estados Unidos. Filho de iraniano e mãe norte-americana, nascido no Kansas, a música nunca foi mistério em sua vida. Desde cedo estudou-a com dedicação. Tornou-se compositor e instrumentista. Desvenda seus segredos em teias harmônicas. Abre espaços. Une outros espaços. Chama outras vertentes musicais. Cria o tempo todo. A player for the soul of Layla é um alentado álbum de doze canções onde o exótico forma interessante mosaico de sonoridades onde o oriente e o ocidente marcam encontro. Uma trilha sonora que liga o desolador deserto à meia-noite com o céu estrado do início do anoitecer, onde a suavidade chega em profundo silêncio interior para se tornar imensa nas instrumentalizações e vozes que crescem à medida em que o tempo passa a correr do lado de fora do espírito de quem está escutando. Um cenário magnífico, de sonho, de imaginação, de criatividade. E ainda conta com a participação de Paula Cole, Hassan Hakmoun, mamak Khadem, Marie Afonso, Miyuki Sakamoto, Sk li Sverrisson e do argentino Pedro Aznar (na faixa título). Um disco magnífico.

Agricantus, o canto dos campos

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Sempre fui atraído por música étnica. Embora, como todo mundo, tenha passado por fases em minha vida, e o conhecimento que foi sendo agregado a ela ganhou outra dimensão, não apenas na literatura mas também na música. Gosto de conhecer o que há, escutar independente de ser ou não sucesso. Aliás, sucesso não é medida para mim. Ao contrário, há muita qualidade sem chegar ao conhecimento da maioria das pessoas. Verdadeiras peças culturais que ficam à margem dos rios e correntezas do mercantilismo. É uma regra de mercado, não sou obrigado a aceitar. Gosto, então, de procurar o que, pelo menos aqui no Brasil, não frequenta “o sucesso” em emissoras de rádio, matérias de jornais e revistas ou televisão. Foi assim que, como sempre acontece, encontrei escondida em alguma prateleira misturada com vários outros discos o Best of Agricantus. Em tradução livre, do latim, significa canto dos campos de milho. O grupo italiano de Palermo, Sicília, tem em sua formação sonora a mistura de estilos musicais, idiomas e dialetos, instrumentos arcaicos sem perder de vista o que há de moderno. Sem exagero, uma preciosidade onde os elementos das harmonias africanas, do Oriente Médio e do próprio sul da Itália se encontram com o pop, com o eletrônico e o resultado é um trabalho vigoroso e sobretudo de aperto de mãos entre culturas diferentes entre si e ao mesmo tempo com pontos em comum. Neste disco em especial, de 1999, o melhor da sua produção de então, tem a presença marcante da voz de Rosie Wiederkehr e instrumentistas como Tony Acquaviva, Guiseppe Panzeca, Mario Rivera, Antônio Corrado, Aldo de Scalzi, Bob Callero e Mario Crispi nos mais variados instrumentos musicais. Doze canções que emolduram o nosso dia. Agricantus, a vida em constante rotação como o nome sugere.



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