Carlos Badia: Zeros

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Se alguém passar e perguntar se Carlos Badia é o mesmo do grupo de jazz Delicatessen a resposta é sim. O compositor, produtor e instrumentista faz algum tempo que trabalha suas canções. Ao deixar o Delicatessen, iniciou um mergulho no tempo e foi lapidando suas canções que forma descobertas na década de 90 e chegaram até estes anos 2000. Zeros, álbum duplo, pode ser visto como uma síntese destes anos ou um disco que percorre seus vários caminhos além do jazz. Um dos discos contempla sua criação instrumental, o outro transporta o ouvinte para o universo vocal. E a som de ambos condensa suas influências ao longo desse tempo todo: jazz, naturalmente, bossa nova, samba, zamba e ritmos caribenhos. Há nele, em Zeros, uma síntese da universalidade de Badia. As mesclas de gêneros, os países que nos circundam, os que estão lá adiante de repente se encontram em complexas harmonias criadas pelo compositor. Seus arranjos, elaborados em esmero e talento, carimba o trabalho solo, o primeiro, com extremo virtuosismo. Se quem gosta do Delicatessen, por certo haverá de gostar de Carlos Badia, mas não tente juntar os dois ao mesmo tempo. O disco de Badia tem vida própria, e abraça o ouvinte com toda a sua sensibilidade.

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Alice Caymmi: Rainha dos Raios

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“Alice é a primeira do reino Caymmi. E quando ela canta, todos nós, povo e também aristocracia, identificamos sua autenticidade. Para Platão, o termo aristocracia se fundia na virtude e na sabedoria. Para Dorival Caymmi, o termo aristocracia se fundia na mais perfeita convergência genética que sua música poderia fazer: uma revolução chamada Alice Caymmi. Seu talento se mantém internacional e suas ideias sempre a levam para voos mais altos a cada registro e a cada vontade que ela tem de ser Alice Caymmi.”

Texto de Michael Sullivan, no encarte do disco Rainha dos Raios.

Marina De La Riva: Idilio

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Marina de La Riva iniciou sua carreira em 2007 quando lançou seu primeiro CD, Marina De La Riva. Sua relação com a música começou na infância. Filha de pai cubano e mãe mineira, Marina cresceu em um ambiente regado a cultura e música, naturalmente. Ela lembra de suas avô tocarem piano, das canções em espanhol e português.

Ficou conhecida pela mistura que faz de música brasileira e latina, em especial com a cubana. Sua arte é um resgate de sua memória afetiva, das canções que escutava quando criança. Por isso têm grandes influências da música latino-americana das décadas de 20, 30, 40 e 50. Em Idilio isso se repete ao reafirmar suas mesclas, agora com o baixista cubano Fabian García Caturla, o violinista paulista Emiliano Castro. Também inclui composições de Luiz Gonzaga, Armando Tejada Gómez, entre outros. A palavra idílio tem o mesmo sentido no português e no espanhol. Seu significado tem origem nos poemas bucólicos. A palavra faz referencia a um sonho, uma ilusão ou a uma grande paixão. Um belo e apaixonado disco. Daqueles que ouvimos e não esquecemos jamais.

Tatiana Parra: Inteira, Aqui

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Pois é, eu que sou um apaixonado pela música latino-americana e em especial tenho grande parte do meu coração lá pelos lados do Chile e sua história, me deixei levar pelo nome Parra. Logo que vi o cd Aqui com o nome de Tatiana Parra e Andrés Beeuwsaert logo chegou em mim Violeta Parra, seus filhos Angel e Isabel Parra e não pensei nenhuma vez: é neta de Violeta. Ah, essa pressa desavisada e inconsequente! Teve, no entanto, sequência feliz. Tatiana não é filha de Angel nem de Isabel, suponho que sequer tenha algum grau de parentesco com Violeta. Apenas o nome Parra que traz consigo. Disco no player e a surpresa, a tal sequência feliz. É um belo trabalho em harmonias e vocais. Composições que deslizam suaves e encantadoras pelo espaço e penetram em nossa corrente de sensibilidade. O piano do platino Andrés é mais que um complemento. É parte. Beeuwsaert, na Argentina, participou de grupos ligados ao folclore, ao rock, esteve no disco de Roxana Amed – Entremundos – de 2006, com produção do mago uruguaio Pedro Aznar e como convidado na canção “Georgia Lee”, da lavra de Tom Waits, nada mais nada menos que León Gieco e sua harmônica. Como se vê, uma dupla e tanto essa. Tatiana é de São Paulo, desde cedo ligada à música, integrou os shows de vários nomes da música popular brasileira, já havia gravado Inteira e seguiu rumo aos Estados Unidos. O repertório dos dois discos é magnífico, um passeio pelo nosso cancioneiro, visita a latinidade, é um pouco de cada parte desse universo de meu deus. Voz e música para se guardar no lado esquerdo do peito, no coração, diria Milton Nascimento. E é mesmo.

Hermeto Pascoal, o mago Merlin da música brasileira

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Está bem, o título pode estar exagerado, assumo o exagero consciente. Tive a felicidade de, quando editor da Revista Porto&Vírgula, à época da sua edição pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, entrevistar e almoçar com Hermeto Pascoal em duas oportunidades. Isso nos anos 90, em que aqui esteve para shows, em especial no então velho Auditório Araújo Vianna sem cobertura, com bancos de madeira fissuradas pela ação do tempo. O tempo todo em que esteve disponível à imprensa mostrou-se alegre, irreverente, inquieto, persuasivo, feliz. Impossível levar adiante uma conversa com ele sem cair no riso com suas bem humoradas frases e efeitos sonoros que criava a cada instante com qualquer objeto que aparecia em sua frente. Uma experiência marcante e sobretudo humana de alguém que acima de tudo o tempo todo em que esteve sendo entrevistado jamais ficou contrariado com qualquer pergunta. E respondia com o jeito Hermeto de ser. Muito próximo de beijar os oitenta anos, na verdade será em 22 de junho de 2016, esse filho das Alagoas, nasceu para o mundo. Sem qualquer exagero. O som, seja ele qual fosse sempre foi uma fonte de atração desde pequeno. Nada escapava. Até que um dia partiu para o Rio de Janeiro tocar sanfona, que já havia aprendido com seu irmão lá em Lagoa  da Canoa, hoje Arapiraca, no Regional de Pernambuco do Pandeiro (na Rádio Mauá) e, em seguida, piano no conjunto e na boate do violinista Fafá Lemos e, em seguida, no conjunto do Maestro Copinha, flautista e saxofonista, no Hotel Excelsior. Alguns anos depois, em 66, cria o Quarteto Novo com nada mais nada menos que Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros (basta uma pequena ida ao Mr. Google para descobrirem a relevância de cada um em nossa música.) Pouco depois, partiu para os Estados Unidos, gravou com Flora Purim e Airto, conheceu e gravou com Miles Davis, e a partir daí ganhou o mundo. A sua obra é universal com profundas raízes brasileiras. Absorveu as influências, em especial do jazz, mas se manteve com um brasileiro fincado em sua terra. De criatividade incansável, não há o que não possa transformar em música e  harmonias o que sente e o que cai em suas mãos. Não por acaso, pensando melhor, é mesmo o nosso mago Merlin da música.

Yamandu Costa: Tocata à amizade

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Reproduzir ambientes do passado, mesmo que recente, não é privilégio da indústria cinematográfica. Alguns músicos se valem desses ambientes, que ainda resistem ao tempo e aos modernismos, e com seus companheiros instrumentistas se reúnem e fazem verdadeiras celebrações musicais. É a amizade fluindo através das harmonias e acordes, dos cantos, das homenagens e de arranjos feitos à queima-roupa entre os amigos que se embalam em sorrisos e criatividade. Tocata à Amizade mais um dos tantos discos gravados por Yamandu Costa parte dessa premissa afetiva. E consegue transformar quem para para (ops, desculpem, mas a construção ficou assim mesmo, primeiro o verbo parar) escutar sente-se envolvido pelo clima, pelo ambiente. Ali, bem próximo a mesa do bar, a noite ganhando terreno sobre o dia, em volta deles mais amigos e admiradores. Ou apenas pessoas vivendo o seu normal. A formação dos músicos que estão em Tocata é camerística com Alessandro Kramer (acordeom), Rogério Caetano (violão 7 cordas de aço) e Luis Barcelos (bandolim 10 cordas). E mais não foi necessário. O começo foi um convite do Museu do Louvre para ele, Yamandu, compor uma peça que representasse um pouco da música popular brasileira. O movimento composto, “Suite Impressões Brasileiras” tem essa mensagem que abraça algumas regiões do território brasileiro (choro-tango, valsa, frevo-canção, baião com milonga). “Negra Bailarina” e “Boa Viagem” anunciam os amigos compositores que seguem a linha proposta. E chegam composições de Raphael Rabello (“Pedra do Leme”), João Pernambuco (“Graúna”) e a “Suite Retratos” com “Pixinguinha”, “Ernesto Nazareth”, “Anacleto de Medeiros” e “Chiquinha Gonzaga” que possuem a assinatura do maestro Radamés Gnatalli. Um trabalho coeso, bonito e delicioso de se escutar, e é mesmo uma celebração à amizade. (as reproduções são de momentos da carreira de Yamandu Costa).

Clube da Esquina: mágico e cada dia mais novo

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1972. Ano em que foi lançado, para mim, um dos maiores discos da música brasileira de todos os tempos. Em torno do carioca-mineiro Milton Nascimento uma geração inteira de instrumentistas, compositores, letristas, escritores e intérpretes ganharam a geografia do Brasil por inteiro. Tanto já se falou, tanto já se escreveu, tanto ainda não foi dito nem escrito. E nos dias de hoje, quando os pontos de interrogação inquietam a todos nós, as canções universais de Milton, Lô Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Márcio Borges, autor de Os sonhos não envelhecem, livro que conta a história deles, Novelli, e muitos outros que se agruparam e tornaram a poética e estética (desculpem a rima) da nossa música soar o mundo, com seu universalismo, e ao mesmo tempo tão brasileira. Passados mais de 40 anos e ouvir Clube da Esquina não é uma volta ao tempo lá de trás. É estar hoje e refletindo com suas letras o momento que vivemos. A magia continua intacta. A consciência e o discernimento tão necessários quanto naquele sombrio início dos anos setenta. Nada será como antes.