Mercedes Sosa, León Gieco, Eugénia Melo e Castro, Dulce Pontes, Joan Baez, Tom Jobim….

Hoje, apenas música. A que nos envolve. A que nos revela. A que nos transforma. A que nos lança através dos tempos. A que nos faz parar. A que nos faz pensar e discernir. A que nos comove. São tantas. Escolho as que nos aproximam latino-americanos e portugueses, como um caminho sem volta de integração e alma. Identidades que se reconhecem e andam pelas mãos da arte. Margens que se encontram.

Miniconto XXI: Coroas de Cristo

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Coroas de Cristo

Os vincos nas costas doíam. As mãos não alcançavam o dorso. Sentia crescer, entre a pele e a carne, finas camadas de coágulos. O corpo curvou-se, os ossos estalaram. Ao encontrar o chão, descobriu Coroas de Cristo. Os espinhos avermelhados recolheram-se, deixando tesa e acinzentada a retina envelhecida.

No outro lado da rua, as janelas fecharam-se, os vizinhos retornaram às suas tramas caseiras.
O inverno é apenas um dos quatro cantos do Tempo.

(Promessas do Sol – Milton Nascimento/Fernando Brant)

Fotos e montagem: Chronosfer

Perdemos Fernando Brant *1946+2015 e Ornette Coleman *1930+2015

Fernando Brant

A cada dia que vivemos dos dias que nos cabem viver fica mais próxima a linha do horizonte. E do quando iremos saber o que há depois dela. Ontem, dia demasiado agitado, sem noticiário às mãos, uma espécie de silêncio consentido me deixou distante desse cotidiano de notícias e outras realidades, e sonhos também. E foi também o primeiro dia em que o frio do inverno mostrou sua face aqui na extremidade sul do Brasil. Manhã de sábado não muito diferente de ontem, frio, uma suave névoa impedindo a passagem de alguns raios de sol, ruas desertas, café bem quente. Jornal aberto e em destaque a partida de Fernando Brant e Ornette Coleman. O mineiro de Caldas, ontem. O texano, na quinta-feira. Aquele silêncio que me acompanhou o dia passado se impõe hoje. Mesmo as palavras parecem se recusar a seguir o comando das teclas e gritam para não serem comprimidas no teclado e nascerem na tela branca. Dias atrás, em meio aos meus discos e escolhendo alguns peguei um duplo do Milton Nascimento sobre a sua trajetória, disco que agora não consigo achar, onde o coloquei? E lembrei que na década de 90 (acho que foi em 1993), o ano exato foge à mais simples lembrança minha, a Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre promoveu um seminário chamado “Com a palavra a letra”. Encontros, debates, oficinas, shows com Ronaldo Bastos, José Miguel Wisnik, Wally Salomão, Ná Ozzeti, acho que Alice Ruiz também veio, enfim, uma infinidade de nomes, e de artistas e compositores do Rio Grande do Sul, com os de fora,
fizeram um seminário maiúsculo. Fernando Brant estava entre eles. Cobri o evento como repórter da revista Porto&Vírgula. Foi muito complicado separar o profissional dos meus ídolos. E o Clube da Esquina é, para mim, o maior de todos os nossos movimentos, claro que reconhecendo Bossa Nova, maravilhosa, Jovem Guarda, cumpriu extraordinário papel em um período complicado de nossa história, Tropicália, sem muitas palavras, Tropicália é Tropicália, o Movimento Artístico Universitário, de onde vieram grandes compositores, o Pessoal do Ceará, de São Paulo-Paraná nos anos 80, enfim, uma infinidade de movimentos que mexeram com todos nós para melhor. Conversei com Fernando uns quarenta minutos, dividindo esse tempo com outro colega, e tudo fluiu com espantosa naturalidade. Ele, contando suas letras, sua forma de escrever, de compor, de não falar sobre o trabalhos dos colegas, sempre disposto, ético, íntegro. Quarenta minutos que chegam velozes à minha memória em forma de saudade. Saudade pelo tudo e pelo todo que fez e ainda fará por todos através de suas letras e músicas cuja riqueza não há como medir. Nada será como antes, diria Ronaldo Bastos. Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre, diz o mineiro que nos deixou. Assim será, Fernando.

Foto: colhida do site http://www.cantosagradodaterra.blogspot.com

* Sobre Ornette Coleman, amanhã um texto.

Um tempo para parar um pouco….

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O outono tem sido um tempo de verão. Envolto pelas camadas do calor da estação passada, os dias se ajustam à proximidade do inverno no escurecer mais cedo, quando as horas encurtam o dia e os segundos fracionam os pensamentos. Por agora, a chuva chegou não tem dado trégua, assume posição e se transforma em rio. Esse meu tempo necessário será curto como os dias do inverno. Apenas uma pausa, para ler mais, o café quente nas manhãs já frias, e quando a noite se aproxima, mais música, mais pensamentos, mais textos à mão e a uma distância razoável do computador. Apenas uma pausa. Pequena. E um até breve.

Milton Nascimento e seu Geraes,

A música em Fernando Pessoa ou Fernando Pessoa na música

Pessoa

Fernando Pessoa é poeta único. Está certo, existem tantos poetas que também podem ser adjetivados como únicos. É verdade. Mas, quando conheci Pessoa na minha adolescência, não houve e tenho a convicção de que não haverá substituto. É único. Direto. Objetivo, subjetivo. Seus livros me acompanham desde então e por acordo tácito sempre em minha pasta, em meu estúdio, em meu local de trabalho há Fernando Pessoa. Em 1985, quando cinquentenário de sua morte, a produtora Elisa Byington mesclou a poesia em nossa música popular. Maria Bethânia sempre tem Fernando Pessoa em seus espetáculos. Sempre. Então, palavras de Elisa no encarte do disco que nasceu: “Depois de um caminho mais literário, a ideia do disco fixou-se mesmo na música popular. Era preciso trazer sua fala bem perto. Por que não fazê-lo parceiro desta nossa expressão cultural mais rica?”. A música em Pessoa chegou assim. E com a palavra também veio Tom Jobim, Sueli Costa, nana Caymmi, Francis Hime, Olívia Hime, Ritchie, Milton Nascimento, Eugénia Melo e Castro, Marco Nanini, Edu Lôbo, Olívia Byington, Eduardo Duvivier, Arrigo Barnabé, Toninho Horta, Dori Caymmi, Marília Pêra, Vania Bastos, Nando carneiro e Jô Soares. Um time perfeito para uma obra extraordinária. O vinil de 85 se foi como água para o mar. As margens enfim se encontraram. Sete depois, em 2002, a Biscoito Fino, com o Olívia Hime à bordo, trouxe de volta o que já era ausência mais que sentida. E mais, um bônus com Tom Jobim em “Autopsicografia”. As poesias escolhidas, ou parte delas como “Passagem das horas”, “O rio da minha aldeia”, “Segue o teu destino”, “Meantime”, “Na beira deste rio”, “Livro do Desassossêgo”, e outras contemplam a escolha dos músicos, o que mais “toca” em cada um (sim, tempo presente) e em cada intérprete. Um disco daqueles que a gente tem que ter no player, no Ipod, no MP3, no pen, onde for possível ter, tem que ter. Fernando Pessoa. Não é necessário dizer ou escrever mais nada.


Lô Borges, um dos gênios do Clube da Esquina

lô

O Clube da Esquina é um divisor de águas na música popular brasileira. Se a Tropicália mexeu com as estruturas – e a censura – nos anos sessenta, os setenta chegaram com os mineiros de trem com o condutor Milton Nascimento. Entre eles, os jovens Lô Borges e Beto Guedes. Está no filho do seu Salomão e da Dona Maricota a gênese da canção que deu origem ao nome do grupo de músicos. É sua a sequência harmônica que Milton musicou e Márcio, seu irmão, pôs letra e batizou como Clube da esquina. Eternizou. A universalidade de todos permitiu que os beatlemaníacos Lô e Beto desenvolvem suas composições com densidade e ganharam letras de nomes como Ronaldo Bastos, Fernando Brant além do “mano” Márcio. O mérito de Lô está presente no primeiro álbum duplo do clube. E se a nossa atenção estiver aguçada, vamos confirmar que as composições do jovem compositor são quem sabe os maiores destaques do emblemático disco. Quem não conhece “Um girassol da cor de seu cabelo”? ou “Trem Azul”, gravada inclusive por Elis Regina e Tom Jobim? “Cravo e Canela”? “Trem de doido”? Pois é, de repente as cortinas se abrem para o mineiro solar. No mesmo ano de 1972, ele lançou seu primeiro solo. A capa é ícone até hoje, está ali acima. Um dos mais extraordinários trabalhos lançados à época. Lô Borges é um disco pop, mpb, é tão mineiro como poderia ser inglês ou mesmo norte-americano. De tudo um pouco, um pouco de tudo, e o talento se abrindo sem medo. Mais adiante, vieram Sonho Real, Nuvem Cigana, A Via Lactea, Feira Moderna, não necessariamente nessa ordem, e outros mais sempre com esse viés de mesclas, de pop, de convidados, de abertura para o novo. Em 1980, quebrando um pouco o clube, grava um disco família: Os Borges. Faixas em que toda a musicalidade dos Borges aparece em uma reunião maravilhosa e trazendo um encarte com texto do pai, Seu Salomão, delicioso por contar grande parte da história do filho e do próprio clube. Continuo “vidrado” no disco dos tênis. Por tudo, pelos músicos que o acompanham – na contracapa há toda as letras e quem toca o que em cada faixa – a suavidade, a sutileza, a ironia, o romantismo, a essência de um músico que transformou, juntos com o Clube da Esquina, para sempre a MPB desde as Minas Gerais para o mundo.



Clube da Esquina II: a magia continua

Clube 2

1978. Alguns anos após o primeiro Clube, o segundo chega com mais e novos amigos. O jeito universal de ser é o mesmo. Os amigos, outros: Elis Regina, Chico Buarque, Francis Hime, Grupo Tacuabé, Pablo Milanés, Boca Livre, Joyce, Gonzaguinha. Novas parcerias, novos arranjos. Na verdade, o nada será como antes, na música de Milton, continuou igual. O talento, a sensibilidade, a leitura do momento, a sua compreensão, a integração entre os gêneros, a América Latina mais dentro do Brasil, mais poesia, mais consciência. Menos Lô e Beto, mais diversificação. Mais Milton. Clube da esquina II, uma fotografia de um país transversal em busca da sua identidade. Clube da Esquina II, a síntese de cada um. De todos nós, quem sabe. O que foi feito deverá.