Elomar Figueira Mello: um mar de harmonias e poesia

elomar

Elomar Figueira Mello ou Elomar. A vida na terra, terra de vida que tem mar no nome. É dos trilhos do ontem que repousam o brilho dos seus acordes, as palavras da sua poesia. Sabe dos movimentos das estrelas, dos movimentos dos barcos, onde o deserto tenta queimar a esperança, que se arrastam pelo nordeste e seu interior, lugar onde nasceu baiano. Sabe da lentidão da grande cidade e de suas janelas aprisionadas, lá onde se fez Arquiteto. E na aridez, na umidade dos caminhos onde vive, atravessando cotidianamente as pontes do sonho e da realidade, hospeda dentro da alma o interior do interior. Com a mistura de culturas vividas através dos séculos, estão presentes – a ibérica, a árabe, trazidas pela colonização portuguesa – nas terras da sua vida. São também raízes que não secam. E entre o folclore próprio de olhar cristalino do erudito cria o seu estilo, faz nascer a linguagem dialetal sertaneza, como assim chama. Violeiro. Escrever o quê mais? Não sei. Convido a um pequeno stop em seus minutos e apertem o play logo abaixo. E vivam Elomar. O mar dentro do nome.

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Hemingway, sempre

As ilhas

O imortal autor de O velho e o mar – Pullitzer em 1953 – e Adeus às armas foi um incansável escritor. Não por acaso Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Sua estética é paradigma. Forma contundente de expressar através de frases curtas e objetivas, Ernest Hemingway viveu uma vida em toda a sua plenitude. E, também, todos os seus riscos. Pertenceu a um grupo de exilados ou chamados de “geração perdida” que, por vontade própria, viveu na intensa Paris dos anos 1920. Primeiro, como jornalista e, depois, como motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial. Era o início de sua carreira literária fulminante. Em direção ao sucesso. Não satisfeito, mergulhou profundamente na Guerra Civil Espanhola narrada em Por quem os sinos dobram. Foi o suficiente para ele? Não. Acompanhou de perto, como correspondente, a Segunda Guerra Mundial. Não bastasse, viveu em Cuba, havendo inclusive algumas matérias afirmando que teria sido espião norte-americano na ilha caribenha. De vida afetiva atribulada – foram quatro casamentos – conviveu com os então principiantes Ezra Pound e Scott Fitzgerald, por exemplo. Sua criatividade e talento estão presentes em pelo menos dez romances, 11 livros de contos e pequenas histórias e seis publicações não ficcionais. As ilhas da corrente é uma edição póstuma. Publicada em 1970, Hemingway acabaria com sua vida em 61, é um romance que narra as aventuras e tragédias da vida do pintor Thomas Hudson. A obra é dividida em três partes, que pode ser lida como pequenas novelas, que se entrelaçam, ou se fragmentam entre si, embora revelam toda a sua maturidade na escrita. “Bimini”, a primeira parte, se passa em ilha paradisíaca do Caribe; em “Cuba”, segundo momento, Hudson é um homem atormentado que perde o filho e reencontra a primeira esposa. O desfecho recebeu como nome de batismo “No mar” e tem elementos de guerra muito definidos na ação do personagem, verdadeiro caçador de submarinos nazistas durante o conflito dos anos 40. Considerado por muitos da crítica literária como a sua melhor obra pós-1961, As ilhas da corrente mantém a elegância de seu estilo capaz de prender até o menos interessado leitor. Um livro extraordinário e imperdível. A tradução de Milton Persson é precisa e um dos pontos de atração da leitura.

As ilhas da corrente

Ernest Hemingway

Editora Bertrand Brasil

558 páginas

Preço sugerido: R$ 59,00

Martin

Imagem

I

Nem a chuva intermitente afasta Martin do banco da praça. O jornal, dobrado, borra a roupa. Quase nenhuma, seja o frio intenso. Olha as pessoas à espera do ônibus. Formam uma única massa, pensa. Desvia o olhar, leva-o ao fim da avenida. Pouco antes de a primeira quadra alcançar a metade, a noite avança. Ganha espaço da luz acesa, tem nos olhos ainda o resto do dia. Os traços das mãos são segredos, seu baú de carne e ossos e veias. Os bolsos escondem as fatias do tempo. Repartidas dia após dia, escondem o mofo mastigado pelas horas. Mede a travessia para o outro lado da rua sem o ânimo dos músculos. Fala para dentro a conversa diária entre uma palavra e outra sobrevivente do dilúvio que arrastara o vocabulário, seu sinal de visita aqui, porta aberta para quem chega. A noite seca o sono. Ajeita alma, coração e corpo entre as fissuras da madeira. Acomoda as fundas rugas, de onde nascem densos brancos, que se dobram sem rebeldia. Ao lado, rente ao chão, os sonhos dormentes feitos de relâmpagos e estrelas. Manhã, retrato sem cor, por trás das janelas despertam sombras e sol.

II

Por trás das janelas, manhã, sol em febre. Sobre os cortes úmidos do musgo, desprende o corpo da noite. Martin, trêmulo, ergue o que falta para ficar em pé. O apagar das luzes comprime a praça vazia aos estreitos castanhos dos olhos recém despertos. O traço da boca mergulha na garrafa quase vazia de água. Desce lento o alimento único. Nos primeiros passos, olhares por trás das janelas, alvoroça o silêncio das folhas sem estação. Atravessa as asas incertas dos pássaros e segue o caminhar do vento. A parede próxima indica datas. As mesmas de ontem, de muito antes. Cartaz colado em cima de cartaz, calendário. Nomes diferentes, fotografias e palavras distorcidas pela natureza do dia a dia. Segue. O rio não está longe. Do mar não sabe, nunca viu. Ouve as vozes, dentro ou de fora, pouco importa, ouve com a vertigem da hora incerta, correria para a hora certa. Nada é com ele. É passado, diz, foi presente, lembra. Os lábios adoçam o futuro: – Um dia, quem sabe. – Anda como quem escreve uma carta sem destinatário. Passa as ruas como quem pula parágrafos. Amassa o chão como se fosse a folha escrita e não gosta do que escreveu. O olhar já distante sente o mormaço do meio-dia sem a sombra, veio com o amanhecer, pensa. Sente o cheiro do rio. Sério, gosto de felicidade em preto e branco, risca o céu da boca com a língua. Para, antes de o sinal abrir verde, o feixe de sonhos avermelha sem soluços sem olhos marejados sem a morte sanguínea da palavra. O outro lado o espera. Antes de a noite chegar, a maré já terá partido no mar que nunca soube.

III

Do mar nunca soube, sabe o mar. Sob as enrugadas árvores tece, nos gestos lentos, a curva do que não sonhou. Um bando de folhas secas, voando como ave migratória, cobre as pálpebras, o esquecimento. Molha os pés. Beira do rio, margem branca, margem de vertigens. Margem. Os cabelos, poucos, conhecem o sol, acolhem seu calor. As mãos solitárias inventam movimentos, traçam no espaço desenhos, disputam com as nuvens formas. Manhã, sem janelas por perto, as cores cruzam os braços, avermelham a pele, iluminam como lampião os olhos tintos. Estilhaços acesos. A água chega, mansa, translúcida, com a face do dia. Sabor do silêncio nessa areia de ninguém. Martin, dono do vazio, mastiga o horizonte como o entardecer engole o último sol. Intenso e laranja antes do azul ser noite. Mordaça dos anos passados, as pedras insones da memória provam o gosto do instinto. Gira o corpo. Na faixa estreita entre rio e cidade, a história segue o rumo. Para trás, para frente, não sabe, sempre soube a história. Torna a olhar o traço nada uniforme das ilhas à frente. Duas, três. Não sabe, nunca soube. Passa barco, passa rede vazia, passa automóvel, passa. Fica o passado. Presente. Martin ajeita o corpo, joga às costas a mochila, caminha. Para no tempo outra vida.

 

Fotos: São José do Norte, Rio Grande do Sul, Brasil.

Montagem: Chronosfer.