Lilián Saba, o piano do Rio da Prata

lilián saba - malambo libre

Foi o meu querido amigo Guillo Espel que um dia, em Buenos Aires, me indicou o cd da capa aí de cima. Confesso que não conhecia, pelo menos assim à queima roupa Lilián Saba. Havia a assinatura da indicação e para mim já de acordo e ao voltar para casa o disco me acompanhava. E depois, para tirar do player somente com as outras novidades que vieram junto. Inclusive um outro trabalho de Lilián com a também pianista Nora Sarmoria chamado Sonideras. Ela é uma instrumentista e compositora do que muitas vezes por aqui chamados de primeiro time. (Não há jeito de encontrar o disco aqui em casa agora!) Sua trajetória é de muito estudo, primeiro com Benito Juarez, depois o Conservatório Nacional de Musica Carlos López Buchardo e a Escuela Nacional de Danzas e mais estudos de harmonias e composição com o extraordinário maestro Manolo Juárez. Mais tarde, caminho natural, se tornou solista e arranjadora, convidada por diversos artistas para seus trabalhos,  o exercício da docência na área do folclore argentino (Escuela de Musica Popular, em Avellaneda) e com o convite de Juan Falú ingressa no Conservatorio Municipal Manuel de Falla, Buenos Aires, para o exercício do magistério para o tango e folclore. Em paralelo, uma carreira que vai sendo preenchida com diversos prêmios. Lilián ainda que com toda a formação acadêmica e mais as incursões pelo folclore não poderia deixar passar as influências desses lados da cultura platina. Distante dos rótulos, criou trabalhos e caminhos sólidos e bem estruturados em qualquer gênero. Malambo Libre, o disco que veio comigo, possui essas variações e mais um pouco. Incursões pelo folclore andino também recebem um sensível visita daquelas que ficam marcadas para sempre. Toda a naturalidade de Saba no teclado flui através de um estilo denso e vigoroso e ao mesmo tempo suave e tranquilo. Nada parece ser demasiado ou de menos. os instrumento que a acompanham se encaixam, as notas se entrelaçam, os acordes duelam amigáveis, as harmonias se cruzam e de repente estamos envolvidos por uma pianista superior. Para muito além da linha do horizonte.

Trio Cumbo: Los tiempos cambian

Cumbo

O título é atual. É a vida que segue. E seguimos também. O disco de Jorge Cumbo, argentino de nascimento e alma, tocador exímio de quena, maestro, compositor, arranjador e um punhado de mais atividades, é a essência de que os tempos mudam. Recebem ventos, que podem ser novos ou mais envelhecidos, mas que forçam às mudanças. Na música, na política, na cultura, na educação, na saúde, na segurança, na vida. Talvez esteja não apenas no título de um disco argentino que comprei na França – foi lançado em 1995 – a resposta para muitas das inquietações que se manifestam não apenas hoje, com certeza se manifestarão amanhã se a possibilidade existir. O mais curioso desse trabalho, significativo para além das palavras, até por se tratar de temas instrumentais, é a trajetória do repertório em seus nomes igualmente significativos. “La antigua”, “Trifasico”, “Pintandome el alma”, “Luz de la noche”, “La vuelta de los tachos” e, óbvio, “Los tempos cambian”. Existe uma combinação nesse entrelaçamento de canções que vejo quase como um aviso. Tenho a consciência de que os tempos mudam. Porém, não voltam para trás. Os tempos não vestem jamais o verde autoritário do passado recente. Não os tempos que me restam viver. E ao escutar o Trio Cumbo sinto uma renovação para muito adiante de qualquer palavra escrita. Cumbo tocou no emblemático grupo Urubamba, que acompanhou Paul Simon. Período esse em que havia uma curiosidade com a música latino-americana, deixando um pouco de lado as rumbas, salsas, merengues, cumbias, e essa curiosidade chegou a estereotipar o latinismo musical em “El condor pasa”, gravação de Simon & Garfunkel. À época, chegou ao esgotamento e o “hino” era já exaustivo aos ouvidos mais apurados e conscientes e exigentes. A nossa América estava abaixo de mau tempo. Todavia, por alguma razão os exilados latinos em Europa produziam muito. Quando do certeiro e fatal golpe de Pinochet no Chile em 1973, que rasgou a constituição de bombardeou o La Moneda e Salvador Allende, grupos como Inti Illimani e Quilapayun estavam no continente europeu e por lá permaneceram até os anos oitenta e poucos. Fica para outro post esse assunto. A produção deles encantava o público. E trabalhos sólidos em sonoridade e poética estavam circulando livremente. Aqui, o silêncio, a censura, o confinamento. De tudo. Los tiempos cambian. É verdade. Avançamos. Cumbo avançou. Participou de diversas formações, com Lito Vitale, Gerardo DiGiusto, Ricardo Moyano, com o pianista Manolo Juárez, Leo Masliah, Lucho Gonzaléz. Eis aí um trio extraordinário: Cumbo-Vitale-González. Jorge é sinônimo dessa versatilidade toda que envolve a música, suas descobertas sonoras, suas texturas com os sopros sem jamais descansar. É um dos músicos mais importantes do folclore argentino. O que se escutar de sua obra é com certeza estar “cambiando los tiempos”. Tempos melhores. Mais uma vez, a Argentina e sua riqueza musical abraça o que há de melhor na vida: o viver.