Minicontos & Música: Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes, Tatiana Parra, Lito Vitale…

PEN FOTOS 060

I

No presente, o agora, dentro do círculo, é a saída.

II

Por ser larva, o voo é um ciclo. Por não ser larva, a palavra é o voo.

Foto: Chronosfer – Roma.

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Antonio Suliani + 2015

suliani

Há muito tenho desejado não mais contar o tempo, apenas deixar que passe, que seja como as estações. Ele, assim como as certezas mais definitivas da vida, não escolhem estações, nem desejam ser estações. São o que são porque assim é o seu destino. Que mais dia ou menos dia, vai nos encontrar. Conheci o Suliani em meio a tantas idas e vindas do meio literário, em especial o editorial. Precisávamos na Editora da Cidade da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, onde fui editor, um profissional que trabalhasse na editoração e mais outros quês de edição. Fui apresentado a ele por nosso secretário Sergius Gonzaga. Isso em 2005. Dez anos de um trabalho que começou com a finalização de livro, passou para outros, transformou-se em parceria e por fim, amizade. Não sei quantas vezes estive em sua editora, a Suliani Letra & Vida Editora, para o trabalho inadiável de copiões, revisões, finalizações, e mais tratamentos de imagens e por aí as coisas andavam. Porém, também não sei quantas vezes o trabalho me levou lá na casa da Veríssimo Rosa e o que menos fizemos foi trabalhar. Atravessamos muitas horas conversando, fazendo alguns planos para o mais adiante, e assim estreitamos o afeto amigo para sempre. Jamais nesse tempo todo ouvi dele a palavra não. Sempre pronto, foi mais que um braço em nossa Editora. Foi mais que um parceiro. Foi um amigo. Não, não gosto desse passado. É um amigo. Hoje, não faz muito fui surpreendido pela sua partida. Pessoas como o Antônio fazem muita falta quando partem. Pelo que são. A sensação de que os degraus da escada estão caindo é imensa e o chão muito próximo assusta. Com o meu abraço infinito não me despeço, apenas sigo o tempo das minhas estações. Que estão me esperando, um dia qualquer desses.

Trio Cumbo: Los tiempos cambian

Cumbo

O título é atual. É a vida que segue. E seguimos também. O disco de Jorge Cumbo, argentino de nascimento e alma, tocador exímio de quena, maestro, compositor, arranjador e um punhado de mais atividades, é a essência de que os tempos mudam. Recebem ventos, que podem ser novos ou mais envelhecidos, mas que forçam às mudanças. Na música, na política, na cultura, na educação, na saúde, na segurança, na vida. Talvez esteja não apenas no título de um disco argentino que comprei na França – foi lançado em 1995 – a resposta para muitas das inquietações que se manifestam não apenas hoje, com certeza se manifestarão amanhã se a possibilidade existir. O mais curioso desse trabalho, significativo para além das palavras, até por se tratar de temas instrumentais, é a trajetória do repertório em seus nomes igualmente significativos. “La antigua”, “Trifasico”, “Pintandome el alma”, “Luz de la noche”, “La vuelta de los tachos” e, óbvio, “Los tempos cambian”. Existe uma combinação nesse entrelaçamento de canções que vejo quase como um aviso. Tenho a consciência de que os tempos mudam. Porém, não voltam para trás. Os tempos não vestem jamais o verde autoritário do passado recente. Não os tempos que me restam viver. E ao escutar o Trio Cumbo sinto uma renovação para muito adiante de qualquer palavra escrita. Cumbo tocou no emblemático grupo Urubamba, que acompanhou Paul Simon. Período esse em que havia uma curiosidade com a música latino-americana, deixando um pouco de lado as rumbas, salsas, merengues, cumbias, e essa curiosidade chegou a estereotipar o latinismo musical em “El condor pasa”, gravação de Simon & Garfunkel. À época, chegou ao esgotamento e o “hino” era já exaustivo aos ouvidos mais apurados e conscientes e exigentes. A nossa América estava abaixo de mau tempo. Todavia, por alguma razão os exilados latinos em Europa produziam muito. Quando do certeiro e fatal golpe de Pinochet no Chile em 1973, que rasgou a constituição de bombardeou o La Moneda e Salvador Allende, grupos como Inti Illimani e Quilapayun estavam no continente europeu e por lá permaneceram até os anos oitenta e poucos. Fica para outro post esse assunto. A produção deles encantava o público. E trabalhos sólidos em sonoridade e poética estavam circulando livremente. Aqui, o silêncio, a censura, o confinamento. De tudo. Los tiempos cambian. É verdade. Avançamos. Cumbo avançou. Participou de diversas formações, com Lito Vitale, Gerardo DiGiusto, Ricardo Moyano, com o pianista Manolo Juárez, Leo Masliah, Lucho Gonzaléz. Eis aí um trio extraordinário: Cumbo-Vitale-González. Jorge é sinônimo dessa versatilidade toda que envolve a música, suas descobertas sonoras, suas texturas com os sopros sem jamais descansar. É um dos músicos mais importantes do folclore argentino. O que se escutar de sua obra é com certeza estar “cambiando los tiempos”. Tempos melhores. Mais uma vez, a Argentina e sua riqueza musical abraça o que há de melhor na vida: o viver.

 

Lito Vitale, esse amigo da alma

Lito

A riqueza musical da Argentina é mais que infinita. E tentar colocar um limite ou linhas a delimitem é perda de tempo. Hector Facundo Vitale, na certidão de nascimento, Lito Vitale pra todos nós, é um desses músicos que desconhece fronteiras. O pianista e arranjador possui um trabalho vigoroso e transversal. Tanto pode estar envolvido com tangos, como estar compondo peças para bellet ou tocando música popular ou em quarteto ou em trio ou mesmo em dupla. Não importa os formatos. Lito se sobrepõe a eles e transforma sua música em um universo de harmonias catalizadoras do que há de melhor na Argentina.

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Tanto pode estar com Lucho González, Jorge Cumbo, Bernard Baraj, Manolo Juárez, Juan Carlos Baglietto que suas texturas ganham cores para além do arco-íris que nos habituamos. Lito Vitale tem uma capacidade singular de captar com sensibilidade cada gênero, cada ritmo e cada acorde como se cada um fosse parte de sua alma. Não por acaso nome de disco, de programa de televisão têm esse nome: Ese amigo del alma. Muito requisitado como arranjador, trabalha ao extremo sua criatividade sem perder a linha que o torna um dos grandes pianistas dos lados do Prata. Cada uma de suas canções tem vida e mergulhar em suas melodias é estar mergulhando na alma. Na de quem compõe, na de quem ouve.

http://www.youtube.com/watch?v=58y_dgets2E

http://www.youtube.com/watch?v=lxm7IMpxDyI

http://www.youtube.com/watch?v=-O6osFTfN6A

Foto Lito Vitale: http://www.progarchives.com Capa: capturada na Internet.