Adam Cohen: Like a Man

Adam Cohen

O peso do DNA pesou um tanto durante anos. Afinal, ser filho de Leonard Cohen é mais que um peso, mas de repente poderia ser um caminho e uma bagagem de histórias. Adam fez a escolha certa. A de seguir caminho. Like a Man são dez canções que, sim, tangenciam o pai, e ao mesmo tempo revela um compositor/cantor de personalidade. Não vale comparações. Injusto. Adam é Adam e isso é o suficiente. E sua matéria-prima é amar. Ela desafia as faixas do disco, desliza por sua voz, pelos instrumentos, pelas vozes que acompanham, pelo próprio canadense. E torna-se um trabalho autoral, escapando das metáforas do Cohen pai e introduzindo uma linguagem mais direta, sem muitas concessões em sua objetividade repleta de observações. Os arranjos são sutis, bem elaborados e se complementam, tornando a obra um todo bem encaixado. Um disco que Adam fez para ser Adam Cohen e não o filho de Leonard. Conseguiu. É um belo e sensível álbum.

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Miniconto: Luther – Música: Lô Borges, Al Di Meola, Madredeus, Neil Young, Leonard Cohen…

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Não há horizonte além dos olhos de Luther. A única linha que o separa da vida é a harmônica deslizando em seus lábios. Na textura do sopro, entranha-se o sol e as nuvens de poeira nublam as retinas. A pele da memória anoitece mais cedo. Os ossos da casa se desprendem e os estalos o acompanham como uma percussão.

Foto: Chronosfer: Vila Muñoz – Montevidéu.

Leonard Cohen: LIVE at The Isle of Wight 1970

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Tudo indicava o caminho dos desacertos, da confusão, do quem sabe cancelar o que ainda havia de shows pela frente. O festival da Ilha de Wight, Inglaterra, em 1970, ganhou uma dimensão extra pós-Woodstock. E os milhares que lá estiveram, estima-se 600 mil pessoas, nem todas com ingressos adquiridos, ao contrário, apenas um universo de 100 mil vendidos foi o suficiente para o colapso acontecer. O palco quase destruído, as câmeras de filmagens desativadas, atrasos, e a inconformidade geral. Até que na madrugada após a apresentação de Jimi Hendrix estava prevista a entrava de Leonard Cohen. E ele, desajeitado, com todo o seu jeito de poeta com aparência rebelde, subiu ao palco. Alguns relatos afirmam que seria uma temeridade por tudo o que estava acontecendo. O improvável, para aquela situação, aconteceu. Cohen hipnotizou o público. Encantou a todos com uma performance inesquecível capturada por uma única câmera sob a direção de Murray Lerner. Toda a essência do poeta, do contador de histórias, do músico de dois discos e um ainda por lançar, à época, uma banda de apoio mais que competente, tornou a transição entre a noite e o dia momentos de magia e paz. Canções que hoje estão presentes no repertório de muitos artistas, ali naquele agosto de 1970, com Leonard aos 35 anos, vibraram com tanta densidade que um simples pedido dele para o público acender fósforos para um ver o outro fez com que a vara mágica da sensibilidade percorresse todos os caminhos de Wight. “Bird of Fire”, “The Partisan”, “So Long, Marianne”, a extraordinária “Famous Blue Raincoat”, “Suzanne” foram  abraçadas por todos que lá estavam. O registro em cd e dvd desses momentos estão no álbum cuja capa lá acima mostra. O dvd conta com depoimentos preciosos de Joan Baez, Judy Collins e Kris Kristofferson. Talvez nem seja o caso de continuar escrevendo e sim de apenas dizer escutem e vejam a obra de Cohen no festival de Wight.

Markéta Irglová & Leonard Cohen

8-17_MarketaIrglova_web                                  Leonard_Cohen_2187  Tenho escutado Markéta e Leonard. Ela, com o seu Muna. Ele, com o belo Live in Dublin. A Irlanda entra em meus pensamentos. Once com o Glen Hansard acontece em Dublin. A trilha, também bela, continua encantadora. Folk suave e também visceral. Então, em pensamento de admirador confesso de Cohen e agora tendo Markéta como um presente vivo, no meu longo caminhar das manhãs já quentes do verão recém nascido nesta parte meridional do Brasil, uni os dois em um disco. Como seria o piano/violão de Markéta com a voz rouca, como se estivesse recitando poemas, de Leonard. Nesta viagem, ambos revelam-se em todos os sentidos e a música penetra pele adentro até atingir a alma. Que dupla fariam!

Ponto de chegada à vista. Respiro fundo, alongo os músculos, desligo o Ipod. A tarde será mais quente ainda. E a certeza de que os meus sonhos não envelhecerão animam a minha vontade. Um dia, quem sabe!

www.youtube.com/watch?v=YrLk4vdY28Q

www.youtube.com/watch?v=-Ar9syGQYYQ

No Youtube, pela ordem, Leonard e Markéta.

Fotos: Markéta: http://www.yogongyisham.com e Leonard, capturada na Internet.

Leonard Cohen: Live in Dublin

Dublin

Pouco antes de os 79 anos bater em sua porta, Leonard Cohen esteve no Dublin´s 02 Arena e gravou um disco ao vivo. E para quem possa imaginar que sua voz estivesse cansada, beirando a cheiro de mofo, está enganado. Live in Dublin é um álbum triplo que respira e transpira sensibilidade. Não faz espécie alguma de concessão. É um Cohen à pele. É visceral. Vibra ao extremo. Faz vibrar em outros tantos extremos. O poeta bardo está melhor que nunca. Maduro, comove. Emociona-se, seduz com sua voz dilacerante. O canadense de Westmount entrega ao mundo um punhado de canções que vão penetrando em nossa corrente sanguínea e acelera o coração. Sem dúvida seu melhor ao vivo em anos, em especial após Songs from the road e Live in London, não que esses possam parecer menores diante do disco gravado na Irlanda. Absolutamente não.

Leo Dublin

Apenas, e esse apenas parece ser tão deslocado como palavra e sentido diante do universo de Cohen, ele trabalhou o seu tradicional repertório com canções como “Dance me to the end of love”, “Bird on the wire”, “Who be fire”, “The future”, “Suzanne”, “In my secret life”, “Hallelujah” e “So long Marianne”, todas clássicos, e cria arranjos envolventes e, sobretudo, repletos de vocais em backing, e passagens instrumentais que se fundem com sua voz de forma única e infinita. Destaques para Alex Bublitchi, violino, Javier Mas, guitar, laud, bandurria, e as sempre extraordinárias cantoras de apoio Sharon Robinson, Charley Webb e Hattie Webb. O tempo e Leonard têm uma relação muito próxima um do outro. E isso o torna ainda mais um descobridor de novos horizontes e abre novas possibilidades para quem o acompanha. Ele é parte de nossas vidas. Podem acreditar.  (Este post é dedicado ao amigo de todos os momentos, filho de novembro, Marcelo Fébula, músico, compositor, turfista, porteño e também já com o coração porto-alegrense.)

www.youtube.com/watch?v=TC5xv3JKy8E

www.youtube.com/watch?v=THUhjzYz2n4

Fotos: Getty Images