Leonard Cohen: LIVE at The Isle of Wight 1970

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Tudo indicava o caminho dos desacertos, da confusão, do quem sabe cancelar o que ainda havia de shows pela frente. O festival da Ilha de Wight, Inglaterra, em 1970, ganhou uma dimensão extra pós-Woodstock. E os milhares que lá estiveram, estima-se 600 mil pessoas, nem todas com ingressos adquiridos, ao contrário, apenas um universo de 100 mil vendidos foi o suficiente para o colapso acontecer. O palco quase destruído, as câmeras de filmagens desativadas, atrasos, e a inconformidade geral. Até que na madrugada após a apresentação de Jimi Hendrix estava prevista a entrava de Leonard Cohen. E ele, desajeitado, com todo o seu jeito de poeta com aparência rebelde, subiu ao palco. Alguns relatos afirmam que seria uma temeridade por tudo o que estava acontecendo. O improvável, para aquela situação, aconteceu. Cohen hipnotizou o público. Encantou a todos com uma performance inesquecível capturada por uma única câmera sob a direção de Murray Lerner. Toda a essência do poeta, do contador de histórias, do músico de dois discos e um ainda por lançar, à época, uma banda de apoio mais que competente, tornou a transição entre a noite e o dia momentos de magia e paz. Canções que hoje estão presentes no repertório de muitos artistas, ali naquele agosto de 1970, com Leonard aos 35 anos, vibraram com tanta densidade que um simples pedido dele para o público acender fósforos para um ver o outro fez com que a vara mágica da sensibilidade percorresse todos os caminhos de Wight. “Bird of Fire”, “The Partisan”, “So Long, Marianne”, a extraordinária “Famous Blue Raincoat”, “Suzanne” foram  abraçadas por todos que lá estavam. O registro em cd e dvd desses momentos estão no álbum cuja capa lá acima mostra. O dvd conta com depoimentos preciosos de Joan Baez, Judy Collins e Kris Kristofferson. Talvez nem seja o caso de continuar escrevendo e sim de apenas dizer escutem e vejam a obra de Cohen no festival de Wight.

BB KING: * 1925 + 2015

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Manhã azulada, sol tímido, poucas nuvens. O outono avança lento, a natureza na contramão acelera o colorido da estação, as ruas começam a viver o seu dia. E ele surge diante de mim sem a mesma precisão de todos os outros dias. BB King partiu. Perdas são fulminantes. Ausências em que a voz jamais retornará a ser escutada, ouvida. Não haverão mais respostas. A vida quando vivida traz junto um golpe fatal, conhecido e terrível. BB King partiu. O homem do Mississippi, que nasceu em fazenda de algodão, e que fez do violão seu instrumento quando ainda adolescente para logo estar já tocando em rádios locais, em programas como o de Sonny Boy Willianson, outra lenda, foi quem eletrificou o blues. Foi quem deu uma nova sonoridade ao blues. Foi quem fez do blues coração, alma, pele e ossos. O lendário Robert Johnson estava (está) sempre presente assim com BB King. Cada em seu tempo. Cada um com seu sangue “blues”. Acústicos ou elétricos, pouco importa, importa que eletrizaram públicos, consciências, um jeito de ser e tocar, de falar, de dizer, de escutar, de ouvir. Com sua guitarra criou e deu essência e vitalidade a tantos outros que vinham junto e chegaram depois. Ainda que o sucesso tenha vindo nos anos 50, foi ao abrir shows dos Rolling Stones, cujos primeiros discos são realmente pedras rolantes preciosas de blues, que passou a ser conhecido e reconhecido por outros públicos. Ele e sua eterna “Lucille”, como chamava sua companheira de harmonias com pouca notas musicais. Qualquer lista que se faça, BB King está (estará) nela. A revista Rolling Stone em 2003 escolheu os maiores guitarristas de todos os tempos. O terceiro, ele, ficando atrás de Jimi Hendrix e Duane Allman. Tão vasta e densa sua discografia como quem influenciou, entre eles Eric Clapton, com quem gravou belo disco. Não listo, não menciono nenhum de seus trabalhos. Você pode escolher qualquer um deles e deixar o tempo correr em sua direção escutando-o. BB King é isso e muito mais. O sol penetra mais forte pela janela do meu estúdio. Ilumina a tela do pc, formando reflexos disformes. As palavras seguem o cursor quase que de forma mecânica. Olho para rua. O céu está completamente “blue”.

NEW YORK - APRIL 18:  Blues Legend B.B. King performs his 10,000th concert at B.B. KIng Blues Club & Grill in Times Square on April 18, 2006 in New York City. King is a nine time solo Grammy Award winning musician who started his career in 1947.  (Photo by Astrid Stawiarz/Getty Images)

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Nick Drake: quatro décadas de ausência

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A cena folk é de uma riqueza única. Ainda que muitos dos seus nomes passem despercebidos, os talentos se multiplicam, e alimentam a música. Para além de Bob Dylan, Cat Stevens, Neil Young, James Taylor entre tantos, desperta a atenção Nick Drake. Em 25 de novembro próximo passado foram completadas quatro décadas de sua morte. Aos 26 anos. Isso faz lembrar as perdas também prematuras de ícones como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Brian Jones. Todos antes de entrarem na casa dos trinta.

Nicholas Rodney Drake foi um obsessivo instrumentista e compositor. Capaz de inventar afinações para cada canção composta e escrever letras alicerçadas em sua experiência de vida, criou o jeito Nick Drake de ser. Sua presença no cenário musical coincide, como sempre, com um período de profundas transformações que estão fincadas nos anos sessenta e se estendem até um pouco mais dos anos setenta. Autor de apenas três discos, todos afundados na escala de vendas, somente muito tempo depois o reconhecimento chegou. Antes, o jeito único, inquieto de Drake em nada colaborava em sua relação com o público e apenas alguns amigos o acompanhavam. Entre eles, os músicos do Fairport Convention. De quem abriu shows, inclusive. Os sucessivos fracassos, fizeram com que o seu segundo álbum fosse mais pop, mais comercial. Brayter Layter seguiu o mesmo caminho de Five Leaves Left: pouco reconhecimento. Em 74 entrega vinte e oito minutos de música dispostas em onze canções. Pink Moon teve participação de John Cale do Velvet Underground e a base musical estava concentrada em cordas, bateria e sax. Claro, e o violão extraordinário de Nick.

Levou muitos anos até que Norah Jones, Elton John, Brad Mehldau gravassem canções de sua autoria. No Brasil, Renato Russo o descobriu. E outras bandas com REM e The Cure apresentam referências notáveis do estilo único de Drake.

Agora, quando quatro décadas nos separam de sua partida, a sua obra é reverenciada e o seu trabalho é sem dúvida um trabalho de riqueza interminável, testemunho de tanta vida e inquietações que um jovem possa ter vivido naqueles fantásticos anos. Abaixo, dois dos seus trabalhos melancólicos e sensíveis.

www.youtube.com/watch?v=llNpigCSAZE

www.youtube.com/watch?v=3sQv04CFSdE

Foto capturada na Internet.