Elton John/Leon Russell: The Union

Elton&Leon

Em algum momento – quem sabe em todos os momentos – músicos, compositores, intérpretes, instrumentistas, músicos de estúdio se encontram. Podem possuir cada um trajetórias diferentes, gêneros distintos entre si, mas lá adiante ou mesmo lá atrás estarão ou estiveram juntos. Quem gosta de pesquisar a fundo os encartes dos discos irá descobrir maravilhas e poderá contar a história da música através dos encartes. Exageros à parte, é mais ou menos isso que acontece. E essas uniões por fim dão um caráter extraordinário à evolução de cada artista. A união entre Elton John e Leon Russell é um desses momentos em que se celebra o virtuosismo. A essência do melhor que cada um pode oferecer com seus instrumentos e criatividade. Ambos mais que consagrados, embora transitando pelos quase mesmos espaços, tiveram trajetórias distantes entre eles. Leon se envolveu com Delaney & Bonnie – Clapton andava junto -, com Joe Cocker  e os Mad dogs, esteve no emblemático Concert for Bangladesh com George Harrison. E por aí seguiu, mais sou, mais rock, mais blues. Elton trilhou o caminho do pop. Com brilho, diga-se. Sem demérito algum, ao contrário, criou um estilo próprio de ser e tocar. E produziu trabalhos magníficos. A união de ambos veio por outro músico fora do comum: Elvis Costello. E com um produtor do calibre de T-Bone Burnett algo mexeu com ambos. Uma trilha foi seguida e os pianos trocaram notas precisas e reviveram seus anos marcantes. Russell com aquele gosto dos anos 60/70, quando logo após esse período exilou-se em pequenos clubes da vida e John com seu pop enraizado até a medula soando em harmonia com o parceiro somente poderia render um disco e tanto. The Union é um festival de canções inéditas, com sessões de sopros magníficas, participações de Neil Young, do Beach Boy Brian Wilson e do eterno baterista Jim Keltner. A integração  entre eles foi tamanha que não houve nada que colocasse Leon de volta ao seu período dos anos sessenta/setenta e teve o mérito de revitalizar Elton em sua dimensão como músico talentoso. Um disco que deu a ambos uma nossa história. Ganhamos nós, que ficamos escutando cada faixa com dedicação e reverência.

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Ry Cooder & Manuel Galbán: Mambo Sinuendo

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Ry Cooder sempre sinalizou um caminho transverso, um pouco mais além do convencional. Já havia realizado Crossroads nas fontes puras do blues. Uma trilha, certamente. Buena Vista Social Clube uma viagem através do tempo, um volta ao passado para que ele não se tornasse apenas uma passagem do tempo e ficasse recolhido ao esquecimento que o passado às vezes impõe. Ao trazer à luz solar antigos músicos, cantores, cantoras, compositores de uma Cuba antiga, trouxe junto história e muitas histórias. Uma passagem generosa pelo tempo, um passado muito presente. Um olhar sem medo para frente. Nessa leva de estar entre os instrumentistas e compositores cubanos, Cooder se encontrou com Manuel Galbán. Um velho e consagrado estilo criado por Galbán na ilha caribenha que permanecia desconhecida até mesmo por lá foi retomada pela dupla. Trabalho feito à base de guitarras, com quês de jazz e mesmo do pop, já que as influências de Henry Mancini e Nelson Riddle eram naturais no pequeno país nos anos 50 e 60, foi capaz de criar uma sonoridade diferente, com nuances havaianos, e toda uma técnica a serviço de ambos, fruto da qualidade musical dos dois. É um disco essencialmente instrumental embora haja algumas faixas com coros, muita percussão, e um linha de unidade perfeita o que traduz com exatidão o virtuosismo dos guitarristas. Não são guitarras ferozes, estilo heavy, são tranquilas e em seu tempo catalizadoras do estilo cubano de tempos passados que soam atuais. Integram o projeto de Ry Cooder o inesgotável baterista Jim Keltner, esse está merecendo um post especial, também nas batidas da percussão Joaquim Cooder, e um bando de talentosos e carismáticos músicos, em especial percussionistas, de Cuba. Um álbum que, muito mais que reverenciar Galbán, tem a felicidade de apresentar toda uma história musical que parecia confinada em algum tempo perdido do passado. É presente. Nos dois sentidos.

Fistful of Mercy: Harrison, Harper & Arthur

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Estúdios de gravação são lugares tentadores. Os músicos sempre estão presentes. Dispostos. À disposição. E os encontros acontecem, nascem grupos, formações, parcerias. Quanto da história da história do rock passa pelos estúdios? Talvez quase toda, claro com algum exagero. Com o Fistful of Mercy não foi muito diferente. Joseph Arthur convida Bem Harper para gravar com ele e Harper convida Dhani Harrison, filho de George, para participar. Está formado o grupo. O trio começa então a compor e de alguma forma, ainda que muito distante, com semelhanças a outra antiga formação que foi marcante na música: Traveling Wilburys. Para lembrar, eram nada mais nada menos que Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Roy Orbinson e Jeff Lynne. O trio grava algumas canções e convida um lenda da bateria e percussão a participar: Jim Keltner. É difícil encontrar algum disco ou banda em que sua bateria não esteja presente. E junto chegou a violinista Jessy Greene. está feito o disco As I call you down. Acústico por excelência, possui nuances do folk autêntico e uma levada envolvente, sem avançar em estilos e influências do gênero. cada um contribui com o seu jeito de ser, de compor, de cantar, de tocar. O que faz do Fistful of Mercy um grupo capaz de transformar simples composições em belas harmonias e uma química entre os três músicos que se não lembra Crosby, Stills & Nash, é capaz de mostrar que possui identidade. É uma formação de muita densidade musical e ótimos instrumentistas e vocalistas. Que venham mais discos.