Humanidade: Fronteiras fechadas

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2015. Século XXI. Será? Boate Kiss, Santa Maria. Mariana, Minas Gerais. Paris, França. Líbano. Síria. Imigrantes náufragos. E a lista não para de crescer. 2015. Século XXI. Será? Dia após dia, a humanidade fecha suas portas. E nós perdemos a chave para abri-la. Ontem, Mariana, o desastre, dezenas de vidas perdidas e desaparecidas. O Rio Doce assassinado. Milhares sem água, sem alimentos, sem vida. Ninguém preso. Hoje, o terror em Paris. Mais de centena de vidas sem vida. Em nome de quê? E amanhã? Será que amanheceremos?

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A derrota da civilidade

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Sou ingênuo. Assumo. Não me habitam intolerâncias, homofobia, radicalismos e outras espécies. Talvez porque seja de uma geração nascida nos 50, ainda que tenha passado os longos e complicados anos 60 e 70 do século de 1900 no Brasil verde militar, e testemunhou ou viveu uma série de transformações entre elas a contracultura norte-americana, por exemplo. Por óbvio, os ecos aqui eram tímidos. Toda transformação, para melhor, é assim, repleta de incompreensões, de fundamentalismos, de negações, de revoltas, de razões para todos os lados, de justificativas bizarras, de explicações que nada explicam. Aprofundam apenas as diferenças. Não compreendem que são as diferenças que nos farão melhores. Que nos farão crescer, em todos os sentidos. As últimas e, infelizmente, sempre presentes demonstrações de racismo, injúrias raciais, incêndios criminosos em nada apontam para um gesto de civilidade. Nos distanciam de um gesto de igualdade entre todos nós.  A impunidade corre cada vez mais solta. A sociedade fraqueja. Mais um pouco e as decapitações que o EI comete, e são amplamente divulgadas, serão consideradas normais. Alguém dirá que devemos respeitar suas tradições (??????????). Caminhamos sim para o perigoso caminho onde tudo se justifica. O que aconteceu com os que cometeram os crimes em estádios de futebol? E não me refiro apenas aos fatos ocorridos em Porto Alegre, basta lembrar o jovem assassinado na Bolívia, a batalha campal em Joinville ano passado. O deputado que cometeu o mesmo crime de racismo ou injúria racial, hoje está em campanha eleitoral, escudado por certo pela imunidade parlamentar, continua sem responder processo ou se responder terá foro privilegiado. Deveria ser cassado. A jovem que apareceu atacando o goleiro dos Santos até o momento é a única que assumiu o que fez. Ainda que tenha cometido crime, foi digna, assumiu o que fez. Foi condenada. Sumariamente, sem passar pelos ritos da Justiça. Incendiaram a sua casa. Os outros que as câmeras televisivas captaram imagens negaram, aliás, foram além, disseram que outros faziam o coro injurioso. E agora? Não se trata apenas de quem incendiou a casa da torcedora ou o CTG em Livramento para não ocorrer o casamento homoafetivo, mas e aqueles que incendiaram a situação toda? O que vai acontecer com eles? E os que acusam o goleiro de fazer encenação ao ser violentamente agredido pelo crime de injúria racial o que vai acontecer com eles? E os que defendem a absolvição do clube que foi punido com a justificativa que outros também fizeram e fizeram até pior e não foram punidos defendem nada mais que não a impunidade. Ou seja, se os outros fizeram e ficou por isso mesmo porque nós seremos punidos. O que acontecerá com esses que inclusive frequentam a mídia, alguns são advogados, e defendendo a impunidade? E fica apenas “no campo da opinião”? E a responsabilidade pelo que dizem para um público calculado em milhares? Vamos deixar bem claro, o Grêmio como instituição não é racista, não fomenta agressões desse gênero, tem um presidente do porte de um homem chamado Fábio Koff o que por si só já mostra a sua essência justa, correta e íntegra. (Por sinal, abraço ao presidente pelos 111 anos completados hoje pelo seu clube e a todos os verdadeiros torcedores do Mosqueteiro.)

Estamos vivendo uma era de barbáries. É a derrota da civilidade. Confundem humanismo, tolerância, convivência pacífica e discussão de ideias com atitudes radicais cujo reflexo está a cada dia nas páginas policiais. Sou ingênuo, acreditei em um mundo melhor. Vivo em uma sociedade que em que os meios justificam o fins, mesmo que isso signifique a nossa derrota.

Mas, como todos os dias amanhece, quem sabe amanhã haverá sol.

Triste Brasil, corrupção, racismo e há quem defenda a impunidade

O racismo é uma lâmina afiada. Finca a carne, corta a alma. Atinge e respinga por todos os lados. Devasta a dignidade. Dilacera a sociedade. Impossível suportar a intolerância, a discriminação. O racismo está a olhos vistos em todos os lugares. O câncer brasileiro é visível. Transita pela impunidade. No tudo fica como está. Os episódios nos estádios de futebol, onde torcedores acobertados pelo manto da multidão, não são casos isolados. Há deputados que se valem do mesmo manto, não da multidão, mas da imunidade parlamentar para desafiar a legislação. (para quem não sabe a Lei 7.716 de 05 de janeiro de 1989 criminaliza o racismo) O deputado federal Luiz Carlos Heinze incorreu no artº 20 da Lei 7.716. O que diz o artigo: “Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional (redação dada pela Lei 9.459 de 15.05.1997). Pena: Reclusão de um a três anos e multa (redação pela mesma Lei)”. O que disse o deputado: “Agora eu quero dizer para vocês: o mesmo governo, seu Gilberto Carvalho também é ministro da presidenta Dilma, e é ali que estão aninhados quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo o que não presta, ali está aninhado e eles têm a direção e o comando do governo“. O que precisa para ser enquadrado na Lei? Possui foro privilegiado? Senhores deputados, senadores façam um favor à nação: abram mão da imunidade parlamentar para o caso que não seja o da defesa de ideias políticas, abram mão do foro privilegiado. Enfrentem como cidadãos comuns os crimes que por ventura cometerem. Não é Chronosfer que define o crime de racismo, é a Lei, apenas exige o seu cumprimento integral a todos. Os senhores não são representantes da sociedade? Então, se o editor do site cometer crime de racismo, será processado, podendo ser preso de um a três anos. Receber a delegação dos seus eleitores não confere a nenhum parlamentar a liberdade de quebrar as regras e as leis. Tal como legítimos representantes de quem os elegeu, que recebam as devidas penas previstas em lei todas as vezes em que forem feridas.

Na sua coluna em Zero Hora de 07 de março de 2014, o jornalista Diogo Olivier destaca como título A Barbárie. Refere-se ao relato feito pelo árbitro Márcio Chagas da Silva sobre o que sofreu no estacionamento do estádio Montanha dos Vinhedos em Bento Gonçalves. O jogador Arouca também foi alvo dessa barbárie. Olivier, lúcido e brilhante, diz: “A hora é de punir. Ultrapassamos todos os limites. O Esportivo tem de receber alguma punição. Perder os pontos da partida. Ou o mando de campo. É injusto com a esmagadora maioria de seus torcedores e com o próprio Esportivo, que nada têm a ver diretamente com os racistas que atacaram Márcio? Sim, é. Mas há outro jeito, seja qual for o clube, grande, médio ou pequeno? Se ficar por isso mesmo, aonde vamos parar? (grifo feito pelo editor)

“A barbárie chegou. Temos que lutar contra ela antes que seja tarde”. Posição corajosa, correta, consciente e lúcida de Diogo Olivier. Não pode haver concessões ao crime cometido.

E, para surpresa do site, ao ler matéria assinada por Pedro Ivo Almeira, do UOL, Rio de Janeiro, de 08 de março de 2014 sobre o racismo, vamos reproduzir o que foi dito por uma pessoa da mais alta relevância do País: “Isso (discussão intensa sobre o racismo) é uma bobagem. Estão dando ênfase a uma bobagem. Não devíamos nem debater isso. Não adianta punir, a solução é ignorar. Vocês (imprensa) não podem dar moral e ficar falando dessas pessoas. Este caso não tem solução, esses babacas nunca vão aprender”. E continua ao ser questionado sobre a importância do racismo no futebol, deixando claro que o melhor caminho é ignorar as pessoas que praticam atos preconceituosos no esporte. “Deixem esse assunto para lá, daqui a pouco todos esquecem e estas pessoas voltam para o cantinho delas”, completou. O título da matéria é “Não adianta punir os racistas. Babacas não aprendem”. (http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/03/08/e-uma-bobagem-diz-felipao-sobre-discutir-racismo-no-futebol.htm)

O autor das afirmações é o senhor Luis Felipe Scolari, treinador da seleção brasileira. O mínimo que se pode esperar da presidência da CBF é sua demissão sumária. Não adianta dizer que está fora de contexto, que foi mal interpretado, ou algo do gênero. O senhor Scolari é uma referência nacional e internacional para deixar claro que discutir e punir o racismo não adianta. Se não conhece a Lei, fique quieto. Não basta o Brasil viver uma corrupção sistêmica, já com alguns conhecendo a cadeia, para que se deixe passar um crime que é considerado inafiançável e imprescritível.

Chronosfer deixa claro que não acusa os senhores Scolari e Heinze de racistas, mas lamenta profundamente suas manifestações, sendo a do primeiro bem clara na matéria reproduzida, e a do deputado passível de enquadramento legal pelo que afirmou, inclusive mais de uma vez.

Infelizmente, sim, o Diogo Olivier tem razão, estamos em plena barbárie e se nada for feito, não sabemos aonde iremos parar.

Chega de impunidade!

Abaixo, reprodução da matéria capturada no site do OUL.

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