The Concert for Bangladesh

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Agosto de 1971. O tempo não parou. O que motivou o ex-beatle George Harrison e Ravi Shankar a reunirem milhares de pessoas em dois dias no Madison Square Garden, em Nova York, continua atual. Pior, continuamos iguais. Se lá no início dos setenta os shows foram organizados para aumentar os esforços internacionais de sensibilização e de alívio aos fundos para os refugiados do Paquistão Oriental (hoje Bangladesh ), na sequência da Guerra da Libertação de Bangladesh, muito relacionado com o genocídio praticado então, os noticiários dos dias de hoje não nos distancia dessas razões. O poço em que a humanidade entrou não tem fim. Suas consequências, alimentadas ano após ano, chega a um momento de esgotamento da capacidade de reconstituição dos valores humanos. Falta de esperança? Desânimo? Não. Apenas a triste e discernida consciência de que caminhamos para o caos dos caos, onde os tecidos da sociedade se desfazem seja por um bombardeio, seja pela intolerância, seja pela corrupção, seja pelo preconceito, seja pela impunidade, seja por um lista infindável de situações que nos aprisionam dentro de nós mesmos. O exemplo de Harrison contou com uma “pequena ajuda dos amigos” Ringo Starr, Eric Clapton, Bog Dylan, Leon Russell, Billy Preston, Badfinger, Jim Keltner, Klaus Voormann e Jesse Ed Davis entre vários outros. Assisto o documentário. Escuto o disco. A parte deste todo que é a humanidade precisa parar, voltar um pouco para dentro e então buscar respostas mais contundentes e sérias para a crise de …falta de humanidade que vivemos. Continuo com a ingenuidade da utopia a guiar meus passos. Acreditar que é possível mais que um objetivo é uma razão para viver. Concertos como o realizado por George Harrison apontam, simbolicamente, este caminho. Em 2015, falta apenas o primeiro passo.

Testament of Youth: a film by James Kent

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Aos dezessete anos os sonhos transbordam. Tal qual um tsunami, não têm medo dos obstáculos que os impeçam de avançar. Sonhos não destroem vidas, flutuam até um dia se tornarem realidade. Ou não. Como seria sonhar e viver em 1914? Ter exatos dezessete anos, nos meses que estavam quase ao alcance da 1ª Grande Guerra Mundial, para Vera Brittain (Alicia Vikander) era um universo de amizade e amor por Roland Leighton (Kit Harington). Testament of Youth, com a mão segura de James Kent, entra nesse mundo de Vera. A biografia da jovem que viveu os amargos anos em que durou o conflito bélico (1914/18) é reflexivo e atual. Pular dos sonhos para a realidade, penetrar em um universo onde a dor, a contagem do tempo pode ser de apenas segundos entre a vida e a morte, e a perda são os companheiros mais fiéis de um tempo sombrio é um envelhecimento da humanidade para o lado ainda mais sombrio que é capaz. O processo de amadurecimento da jovem Brittain, de seus irmãos e amigos são fotografias de hoje. Os anos e as formas de combate mudam. Os atos são os mesmos ou piores. Se em 1914 a tecnologia era absolutamente quase nada em relação aos dias de hoje, se os recursos médicos ainda eram limitados, se as armas mesmo mortais eram menos sofisticadas, a essência do ser humano continuou (e continua) sendo dominadora independente de época. A capacidade que possuímos para a paz parece se desfazer com a ambição pela conquista. E essa espécie de conquista não é catalogada como sonho. A narrativa é dolorosa e densa. Vai povoando a vida interior e exterior de Vera e dos personagens. Forja ainda mais seu caráter, sua personalidade, sua coragem. Seu humanismo. Traçar um paralelo com 2015 parece ser cruel. Não é. Basta um único olhar para dentro do que acontece em nossos dias para que nossas peles sintam a verdade queimar impiedosa sobre nossas consciências. Um filme pesado, concreto e sem muitas palavras. Para que possamos olhar a vida com discernimento e jamais deixarmos de sonhar.

A derrota da civilidade

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Sou ingênuo. Assumo. Não me habitam intolerâncias, homofobia, radicalismos e outras espécies. Talvez porque seja de uma geração nascida nos 50, ainda que tenha passado os longos e complicados anos 60 e 70 do século de 1900 no Brasil verde militar, e testemunhou ou viveu uma série de transformações entre elas a contracultura norte-americana, por exemplo. Por óbvio, os ecos aqui eram tímidos. Toda transformação, para melhor, é assim, repleta de incompreensões, de fundamentalismos, de negações, de revoltas, de razões para todos os lados, de justificativas bizarras, de explicações que nada explicam. Aprofundam apenas as diferenças. Não compreendem que são as diferenças que nos farão melhores. Que nos farão crescer, em todos os sentidos. As últimas e, infelizmente, sempre presentes demonstrações de racismo, injúrias raciais, incêndios criminosos em nada apontam para um gesto de civilidade. Nos distanciam de um gesto de igualdade entre todos nós.  A impunidade corre cada vez mais solta. A sociedade fraqueja. Mais um pouco e as decapitações que o EI comete, e são amplamente divulgadas, serão consideradas normais. Alguém dirá que devemos respeitar suas tradições (??????????). Caminhamos sim para o perigoso caminho onde tudo se justifica. O que aconteceu com os que cometeram os crimes em estádios de futebol? E não me refiro apenas aos fatos ocorridos em Porto Alegre, basta lembrar o jovem assassinado na Bolívia, a batalha campal em Joinville ano passado. O deputado que cometeu o mesmo crime de racismo ou injúria racial, hoje está em campanha eleitoral, escudado por certo pela imunidade parlamentar, continua sem responder processo ou se responder terá foro privilegiado. Deveria ser cassado. A jovem que apareceu atacando o goleiro dos Santos até o momento é a única que assumiu o que fez. Ainda que tenha cometido crime, foi digna, assumiu o que fez. Foi condenada. Sumariamente, sem passar pelos ritos da Justiça. Incendiaram a sua casa. Os outros que as câmeras televisivas captaram imagens negaram, aliás, foram além, disseram que outros faziam o coro injurioso. E agora? Não se trata apenas de quem incendiou a casa da torcedora ou o CTG em Livramento para não ocorrer o casamento homoafetivo, mas e aqueles que incendiaram a situação toda? O que vai acontecer com eles? E os que acusam o goleiro de fazer encenação ao ser violentamente agredido pelo crime de injúria racial o que vai acontecer com eles? E os que defendem a absolvição do clube que foi punido com a justificativa que outros também fizeram e fizeram até pior e não foram punidos defendem nada mais que não a impunidade. Ou seja, se os outros fizeram e ficou por isso mesmo porque nós seremos punidos. O que acontecerá com esses que inclusive frequentam a mídia, alguns são advogados, e defendendo a impunidade? E fica apenas “no campo da opinião”? E a responsabilidade pelo que dizem para um público calculado em milhares? Vamos deixar bem claro, o Grêmio como instituição não é racista, não fomenta agressões desse gênero, tem um presidente do porte de um homem chamado Fábio Koff o que por si só já mostra a sua essência justa, correta e íntegra. (Por sinal, abraço ao presidente pelos 111 anos completados hoje pelo seu clube e a todos os verdadeiros torcedores do Mosqueteiro.)

Estamos vivendo uma era de barbáries. É a derrota da civilidade. Confundem humanismo, tolerância, convivência pacífica e discussão de ideias com atitudes radicais cujo reflexo está a cada dia nas páginas policiais. Sou ingênuo, acreditei em um mundo melhor. Vivo em uma sociedade que em que os meios justificam o fins, mesmo que isso signifique a nossa derrota.

Mas, como todos os dias amanhece, quem sabe amanhã haverá sol.