Turfe: GP Protetora do Turfe 1957 – 1960: Moinhos de Vento e Cristal

Rio Volga 1

Hoje, um ano e quatro meses da partida do meu pai. Olho a foto acima, ele vencendo uma corrida com Simbólica no saudoso pradinho dos Moinhos de Vento e os redemoinhos da saudade chegam com força, abatendo o ânimo e desarmando a vontade do dia que começa no infinito do azul. A proximidade com setembro e o dia sete, logo chega com o segundo maior Grande Prêmio disputado no Rio Grande do Sul em pista de areia, o Protetora do Turfe. A história registra que tudo começou como Prado independência em 1894 para em 1907 ser denominado Associação Protetora do Turfe e mais tarde, dezembro de 1944 ser em definitivo Jockey Club do RS. Na realidade, o GP com o mesmo nome somente nasceu em 1922 e ainda assim com o nome de GP Centenário da Independência e era disputado na distância de 2.400 metros, depois se fixando em 2.200 metros até os dias de hoje.

50 anos GPPT

A vida de Mário Rossano e os cavalos de corrida são uma vida onde as linhas do tempo, quando se encontram, constroem outras linhas e vidas. Desde a vinda da sua portuária Rio Grande para Porto Alegre, do Hipódromo de Vila São Miguel para o carismático Moinhos de Vento, essas linhas se cruzaram com outra vida: o Hipódromo do Cristal. A História traz o romantismo dos anos 40, 50 e 60 em uma capital gaúcha ainda provinciana com ares de cosmopolita. Traz o quanto o jóquei Mário Rossano faz parte dessa história e o quanto sua ligação, não apenas com a cidade, com o Jockey Club do Rio Grande do Sul é também infinita. Não se resume a vencer a prova inaugural do novíssimo então prado do Cristal no já distante novembro de 1959, com um cavalo castanho que aos seis anos ainda não havia sido apresentado à vitória.

Dois anos antes, em 7 de setembro de 1957, a chuva impiedosa que caia não impediu que o então jovem freio levasse Dálmata a vencer o G.P. protetora do Turfe no ano em que a entidade completava seu cinquentenário. Um feito que as reproduções abaixo, incluindo a transcrição da prova, a tornam inesquecível e mostrava, mais uma vez, o talento de um piloto que quebrava a fama de ser apenas um jóquei que sabia correr como ponteiro.

Dalmata 1     Dalmata 2

Dalmata 3Dalmata 4

A História não poupou o rio-grandinho. A ida para o Cristal teve o carimbo da estreia do hipódromo e Duelo cruzar o disco em primeiro sob a sua monta. E ao passar o ano, encontrar mais uma vez o 7 de setembro, agora em 1960. Lord Chanel, um tordilho clássico e valente, rápido, teve em Mário Rossano seu jóquei no 1º GP Protetora do Turfe a ser disputado nas areias do Cristal. resultado: vitória. Feito que se repetiu em 1961.

Lord Chanel

A relação que existe entre Mário Rossano, Moinhos de Vento e Cristal é única. Indissociável. Hoje, ao olhar o material desses anos todos, o coração acelera, os olhos desaguam e as mão tremem. Nesta História, o lugar do Rossano, como era chamado pelos turfistas, está escrito e eternizado.

Reproduções: Jockey Club, Histórias de Porto Alegre – 2005 – Org. Mario Rozano e Ricardo Franco da Fonseca. Dá-lhe Rossano! – 2011 – Org. Mario Rozano.

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Turfe: Das cocheiras do Stud Mário Rossano: Mário Rossano e Irineo Leguisamo

Rio Volga 1

Hoje, mais um mês no ano completado desde a partida do meu pai. E, mais uma pequena passagem de sua vida como jóquei aqui.

Irineo Leguisamo foi um dos maiores, para muitos o maior, jóquei da América do Sul. Nascido no Uruguai, foi muito cedo para as pistas de Palermo, em Buenos Aires. Antes, o filho de Salto, onde iniciou sua carreira, montou cavalos no “prado” de Uruguaiana, em fins da década de 1910. Logo depois, cumpriu ainda jovem o percurso dos “prados” do interior uruguaio para chegar à Argentina já nos anos vinte e em 22 conquistar sua primeira vitória no tradicional hipódromo. Amigo de Carlos Gardel, que fez tango em sua homenagem, venceu todos os maiores grandes prêmios do continente. Até encerrar sua atividade aos setenta anos. Um exemplo e um mestre. Em novembro de 1962 esteve em Porto Alegre. Veio montar Vizcaíno na maior prova na pista de areia do Brasil, o GP Bento Gonçalves no Hipódromo do Cristal no Rio Grande do Sul. Venceu. Nos dias que antecederam a corrida, Mário Rossano e Irineo Leguisamo tornaram-se amigos. A imprensa local registrou.

Legui e Rossano

“Rossano e Legui tornaram-se grandes amigos. O jóquei local diz que inclusive mandará um presente ao jóquei uruguaio, em sua opinião um “fenômeno”. Mário Rossano foi cumprimentado por Irineo Leguisamo após sua vitória com Mar Báltico. “Foi precisa sua direção”, comentou El Maestro, que fez grande amizade com profissionais locais. Rossano comentava ontem que o temperamento jovial de Lequisamo surpreendeu a todos, inclusive distribuindo alguns “talaços amistosos”, mas um pouco fortes, em todos que passavam à sua frente, disse Mário Rossano. O jóquei rio-grandinho prometeu inclusive enviar uma barbatana ao piloto oriental.” Última Hora, 13 de novembro de 1962.

A sequência da página do livro Dá-lhe Rossano traz pequena nota, com fotografia, do Turf no Sul, da vitória elogiada por Leguisamo. 1962….o tempo corre demasiado em relação às minhas lembranças. Nem o mais veloz dos puro-sangues pode alcançar esse ano dentro de mim. O pai falava muito desse encontro, o fez um homem feliz. Perto de sua partida, conversamos sobre a amizade entre eles e perguntei se havia mandado o presente. A resposta foi típica do “Viejo” Rossano”: “Mas, é claro.” Lembro de Mar Báltico, o esperei em uma de suas vitórias, mas não lembro de Leguisamo em Porto Alegre. Ou apenas é uma passagem que vai se apagando em minha cansada memória. 1962! Eu era apenas um narrador de corridas de bolinhas de gude debaixo da mesa em nossa casa.

O José Alberto Souza é um grande amigo. Um memorialista (http://poetadasaguasdoces.blogspot.com). Sempre vem com alguma surpresa. Desta vez, me enviou um e-mail com esse tango da Ucrânia anexado, perguntando: “O que diria o velho Mário?”. Posso te dizer, José Alberto, ele escutaria, diria que não é Gardel, mas celebraria com uma taça de tinto, abrindo o seu sorriso, como se estivesse cruzando mais uma vez a linha de chegada de uma corrida.

Matéria do livro Dá-lhe Rossano – 25 anos sobre as patas dos cavalos, editado por Mário Rozano.

Das cocheiras do Stud Mário Rossano

Rio Volga 1

Hoje, 26 de maio, mais um mês da partida do pai. E, como havia escrito quando do primeiro ano abril passado, todos os dias 26 de cada mês uma história, um depoimento, uma foto, a memória estará presente e preservada não apenas para meus irmãos e eu. Também para os que gostam de turfe. Não haverá ordem cronológica nos posts. E sim, afeto, saudade, reconhecimento por tudo o que foi como homem e profissional.

Duelo 2

Na reprodução acima, quando venceu a primeira prova disputada do Hipódromo do Cristal em 21 de novembro de 1959. Sobre ela, colhemos do livro Dá-lhe Rossano! 25 anos sobre as patas dos cavalos, editado pelo meu irmão Mário Rozano, parte do depoimento do escritor, jornalista e radialista Davi Castiel Menda sobre a “carreira”:

“Passado algum tempo, em pleno dia da inauguração, instantes antes do primeiro páreo, ouvi um zunzunzum: quem largasse por dentro levaria vantagem. Motivo? A raia apresentava areia em demasia, à exceção da parte interna, bem mais compactada. Tratava-se de uma boa dica para quem pretendia apostar e acertar o primeiro páreo; era o sonho de todo turfista, entrar com o pé direito na história, na História do Cristal. Equivalia a esquecer – naquele momento único – como num passe de mágica, todos os reveses anteriores advindos do Moinhos de Vento. O mesmo valia para os profissionais inscritos no reduzido páreo de seis participantes. E quem largava na raia um, nesse primeiro páreo? Era o Duelo, dono de um retrospecto desolador, a ponto de os cronistas do Correio do Povo informarem laconicamente nos prognósticos: “Não cremos”. Esqueciam que Duelo seria conduzido pelo Mário Rossano, o que alterava a situação. O handicap passava a ser altamente favorável, compensando os fracos desempenhos anteriores do seu pilotado. Já na largada, Rossano posicionou-se francamente em primeiro, não concedendo a menor chance à Anfíbia (J. Cesar) e Soberbo (A. Reyna), os favoritos do páreo e, com sua tocada característica e magistral, ganhou de baliza a baliza. Mostrou e provou o excepcional jóquei que era. Além de merecidamente colocar seu nome na história, proporcionou, aos que acreditaram nele e no azarão Duelo, um lucro tão inesperado quanto elevado: um dividendo de C$ 147,00. Nunca meu bolso foi tão feliz. Toda a vez que lembro do evento, minha voz interior se exalta: Dá-lhe, Rossano! “

Em nossas conversas, sempre que falávamos das suas histórias, dizia a ele ser essa a maior vitória conquistada, a que mais significa o sentido da vida nesse universo do turfe sempre com as manchetes voltadas aos craques das corridas, e com razão. Mas, em verdade, quem dá todo um suporte à existência dos hipódromos são os cavalos comuns, aqueles que jamais cruzarão em primeiro lugar nenhum Grande Prêmio. Coube ao pai e a Duelo, um cavalo cuja perspectiva de vitória era apenas um sonho, vencerem a primeira corrida oficial do nosso maior hipódromo do sul do Brasil. Mais que um orgulho, uma homenagem que a própria história tornou realidade àqueles que trabalham incansavelmente e vivem para e pelo turfe. Obrigado, pai.

(Como gostaria de estar ouvindo o “mais outro desses modernos!” E um agradecimento que nasce e cresce com a alma aos amigos do Los Pingos de Todos, dos maiores sites de turfe da América do Sul e do não menos importante Todo a Ganador. Ao Marcelo Febula, Gustavo Lopecito e Pablo Gallo o meu abraço sempre.

Agradecimento ao Jockey Club do Rio Grande do Sul

Ontem, 18 de dezembro, data do aniversário de 83 anos de Mario Rossano, por iniciativa do JCRGS foi realizado páreo denominado Prêmio Mário Rossano Jóquei Vencedor da Prova Inaugural do Hipódromo do Cristal. A nona prova da  184ª reunião, disputada na distância de 1.200 metros foi vencida por Bom Dia, com a direção segura e decisiva de A.F.Matos, sendo treinado por F.Silva. O castanho filho de Put It Back em Rebecca de criação do Haras Santa Maria de Araras e propriedade de Edmundo de Cesaro Musa cumpriu o percurso em exatos 1´16″1´, secundado por Pampeano e Penqueiro respectivamente.

Nosso agradecimento ao Presidente do JCRGS, José Vecchio Filho, ao seu Vice, Ricardo Felizzola e demais membros do corpo diretivo, funcionários, profissionais, também homenageados com Clássico no 6º páreo, e turfistas pela homenagem a um nome que expressa, em todos os sentidos, a verdadeira dimensão e grandeza do turfe. Mario Rossano é história e lenda nas pistas de nossos hipódromos e habita o imaginário de todos aqueles que têm nas corridas de cavalos sua paixão.

http://www.jockeyrs.com.br/jockeytv/?v=2663

Da mesma forma, estendemos o agradecimento ao Jockey Club de Pelotas, que de pronto, na reunião de 10 de maio homenageou in memoriam Mario Rossano. A prova em 1.400 metros foi vencida por Hidramático, conduzido por D.R.Freitas e sob os cuidados de P.Oliveira.

Pelotas

Ficamos sensibilizados.

Foto: JC Pelotas.

Jorge Ricardo x Russell Baze: um tango argentino vai bem melhor que um blues

O cantor e compositor cearense Belchior estava certo ao compor A palo seco nos anos setenta. Seus versos são definitivos ao se encontrarem com o desafio realizado no Hipódromo do Cristal quinta-feira passada, 18 de setembro, entre os dois maiores jóqueis do mundo na atualidade: “Tenho vinte e cinco anos de sonho e de América do Sul/Por força deste destino/Um tango argentino/Me vai bem melhor que um blues”. O grande público presente à disputa entre o brasileiro, hoje radicado na Argentina, Jorge Ricardo e o canadense, naturalizado norte-americano, Russell Baze, também concordou. E o destino aprontou mais outra: o desfecho veio com o cavalo Rei do Tango. (Mas um blues também cai muito bem.)

Cinco provas definiram o vencedor. Do quarto ao oitavo páreo da reunião de doze foram exclusivas para o desafio. E na disputa, algumas surpresas. Ricardo e Baze não venceram todas as provas. O brasileiro cruzou a linha de chegada em primeiro uma única vez. O norte-americano duas. Os outros dois páreos foram vencidos por jóqueis de Porto Alegre. E em grandes performances. Dignas do desafio entre os melhores do mundo. Erenito Lima e Hilson F. Santos brindaram os turfistas com verdadeiras “joqueadas”. Ao fim do duelo, Jorge Ricardo, por um ponto, levou a melhor. O tango venceu o blues nessa disputa muito particular. Ambos possuem currículo que alcança mais de doze mil vitórias cada um. Recordistas em todos os sentidos, vencedores de todas as provas que disputaram, Ricardo e Baze por obra do acaso se defrontaram com outro desafio que não estava previsto: veteranos x jovens. Os resultados provaram que muitas vezes ou quase sempre a sabedoria adquirida através da experiência faz a diferença. Jorge Ricardo, 52 anos, Russell Baze, 56, Hilson F. Santos, 55, e Erenito Lima, 58, o mais velho de todos, deram show de classe e técnica. Baze, talvez seja mais técnico, Ricardo, além da técnica, é sanguíneo, vai à disputa com tudo. Baze é mais calculista, mais frio. Não por acaso grandes jóqueis. Não por acaso recordistas mundiais. Não por acaso os melhores do mundo.

Quem venceu, na verdade, foi o público presente. Uma tarde-noite inesquecível. Pra ficar na memória de todos que lá estiveram. E para quem acessar os sites e olhar as corridas.

Meu agradecimento especial ao meu irmão Mario Rozano (De Turfe um Pouco) por me levar ao hipódromo e proporcionar momentos únicos, divididos com pessoas especiais como Marcelo Fébula (Los Pingos de Todos) e também extraordinário violonista, Pablo Fernando Gallo (Todo a Ganador) e Marco Antônio de Oliveira, cujas narrações marcaram muito as  vitórias conquistadas por meu pai quando jóquei e treinador e em suas colunas no Jornal do Turfe, onde realiza trabalho essencial de recuperação da memória do nosso turfe.

E mais do que tudo, a presença em todos os espaços do Hipódromo do Cristal do meu pai Mario Rossano, que continua iluminando as pistas de corrida não apenas da minha memória mas a de todos os que o viram cruzar o vencedor centenas de vezes.

Fotos: Chronosfer. Pela ordem: 1 – Marcelo Fébula, Mario Rozano, Jorge Ricardo e Pablo Gallo. 2 – Marcelo Fébula, Jorge Ricardo, Pablo Gallo, Russell Baze e Mario Rozano. 3 -Russell Baze e Jorge Ricardo. 4 – Jorge Ricardo (Rabanada) e Russell Baze (Xamba Danz). 5 – Russell Baze (Chamarisco). 6 – Jorge Ricardo (Ever King). 7 – Erenito Lima (em entrevista após vencer com Rugendas). 8 – Hilson F. Santos (Likefather Likeson)

IMG_0255IMG_0296IMG_0356IMG_0402IMG_0400 IMG_0408Hilson F. Santos