Duofel: Plays The Beatles

Duofel

Gravar Beatles já passou da originalidade. O que torna as gravações diferenciadas entre si é a leitura que o artista é capaz de fazer sobre a obra do quarteto de Liverpool. Fernando Melo e Luiz Bueno, dois violões e muitas ideias, muita estrada e muita música nas mochilas, transformaram as canções de Lennon & McCartney e George Harrison em um manancial de águas cristalinas. Se sua trajetória como Duo é uma realidade na música instrumental brasileira, a carreira no exterior, longe das fronteiras do Brasil sempre foi consolidada. O início com Tete Espíndola, depois a presença marcante de Hermeto Pascoal, para ficar apenas em dois nomes, carimbaram a qualidade do trabalho dos instrumentistas. E o velho sonho de realizar Beatles enfim realizado. Arranjos que percorrem os pouco mais de 48 minutos em onze faixas que hipnotizam o ouvinte. E fazem com que a frase já desgastada pelo tempo de John, “O sonho acabou”, seja apenas uma frase tamanha é força do disco. Denso, rico e sobretudo sensível, o instrumentos do Duofel não desafia a história da maior banda de todos os tempos. Mostra, contudo, que eles canalizam energia para que talentos com Fernando e Luiz possam transformar suas composições em “novas” composições ao sabor do sentimento que nutrem pela música e seus caminhos infinitos.

Hermeto Pascoal, o mago Merlin da música brasileira

hermetopascoal

Está bem, o título pode estar exagerado, assumo o exagero consciente. Tive a felicidade de, quando editor da Revista Porto&Vírgula, à época da sua edição pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, entrevistar e almoçar com Hermeto Pascoal em duas oportunidades. Isso nos anos 90, em que aqui esteve para shows, em especial no então velho Auditório Araújo Vianna sem cobertura, com bancos de madeira fissuradas pela ação do tempo. O tempo todo em que esteve disponível à imprensa mostrou-se alegre, irreverente, inquieto, persuasivo, feliz. Impossível levar adiante uma conversa com ele sem cair no riso com suas bem humoradas frases e efeitos sonoros que criava a cada instante com qualquer objeto que aparecia em sua frente. Uma experiência marcante e sobretudo humana de alguém que acima de tudo o tempo todo em que esteve sendo entrevistado jamais ficou contrariado com qualquer pergunta. E respondia com o jeito Hermeto de ser. Muito próximo de beijar os oitenta anos, na verdade será em 22 de junho de 2016, esse filho das Alagoas, nasceu para o mundo. Sem qualquer exagero. O som, seja ele qual fosse sempre foi uma fonte de atração desde pequeno. Nada escapava. Até que um dia partiu para o Rio de Janeiro tocar sanfona, que já havia aprendido com seu irmão lá em Lagoa  da Canoa, hoje Arapiraca, no Regional de Pernambuco do Pandeiro (na Rádio Mauá) e, em seguida, piano no conjunto e na boate do violinista Fafá Lemos e, em seguida, no conjunto do Maestro Copinha, flautista e saxofonista, no Hotel Excelsior. Alguns anos depois, em 66, cria o Quarteto Novo com nada mais nada menos que Airto Moreira, Heraldo do Monte e Théo de Barros (basta uma pequena ida ao Mr. Google para descobrirem a relevância de cada um em nossa música.) Pouco depois, partiu para os Estados Unidos, gravou com Flora Purim e Airto, conheceu e gravou com Miles Davis, e a partir daí ganhou o mundo. A sua obra é universal com profundas raízes brasileiras. Absorveu as influências, em especial do jazz, mas se manteve com um brasileiro fincado em sua terra. De criatividade incansável, não há o que não possa transformar em música e  harmonias o que sente e o que cai em suas mãos. Não por acaso, pensando melhor, é mesmo o nosso mago Merlin da música.