American Sniper

Sniper

Minha relação com Sniper Americano começou pela crítica. A maioria “crítica”. Clint Eastwood foi muito pouco poupado em sua direção, ou conteúdo, ou como mostrou Chris Kyle para além do mito que se tornou no exército norte-americano. Afinal, ter na bagagem 160 mortes contabilizadas oficialmente é um feito que o tornou um herói. O filme, na relação direta Estados Unidos – Iraque atravessa outras avenidas que a guerra impõe. Ao engolir fatos que geraram o conflito – eis aí uma das mais ferozes críticas – o veterano homem do oeste fez uma escolha interessante: olhar para dentro do personagem Kyle. Não lançar sobre ele tão somente os feitos como sniper, mas como homem. Está nessa escolha a direção do nosso olhar e quem sabe da nossa crítica. Não sendo fiel ao extremo a narrativa do livro que originou a filmagem, Eastwood fez do personagem de Bradley Cooper – e aqui uma nota importante, pois o ator se revela capaz de suportar papéis densos e controversos com muita intensidade de interpretação e talento – opostos de si mesmo, ou seja, assim como é capaz de matar friamente é capaz de tremer de emoção ao não ter que matar uma criança, isso bem depois de já ter executado uma no início de tudo. Muitas das críticas direcionadas ao diretor estão relacionadas a questão ideológica ou a sua suposta miopia política. Ao exagerado patriotismo de Kyle e a falta de contexto no conflito, embora apareça a tantas o ataque as torres no terrível 11 de setembro. Está contudo, no entre cenas que mostra como o protagonista foi educado e no quanto a visão do ataque terrorista é a gênese de sua personalidade. Clint Eastwood mergulhou no interior de Chris. Dissecou sua intimidade como o ato de atirar para defender e o distanciamento familiar. É essa a essência de Sniper, as tragédias que o homem sofre. Tragédias que se expandem para outros tantos. A guerra interior. A guerra que se trava no cotidiano do front e da vida diária em casa. A guerra dos traumas. Das vítimas. De todos. Kyle foi assassinado em 2013 por um dos seus pares quando já reconstituindo sua vida familiar. Eastwood mostra de forma escancarada a alma de um soldado que a perde em nome do quê mesmo? Quem sabe da banalização da própria vida ou da morte.

Foto: blog: http://www.blogdecinema.com

Anúncios

Cidade de ladrões, a guerra e suas histórias

cidade-de-ladroes

O tema é inesgotável. Recorrente, atos de heroísmos, muitos verdadeiros, já pularam das páginas dos livros para as telas de cinema. Relatos emocionantes recuperam o quanto de sofrimento a Humanidade passou, e passa, com a inconsequência do ser humano e sua eterna sede pelo poder. Algumas histórias fogem do convencional. Tornam-se, ainda que em cenários de horror, peças de boa literatura e proporcionam reflexões à margem das mesmas histórias. Cidade de Ladrões, do roteirista e escritor norte-americano David Benioff, contém, em uma narrativa atraente, uma prosaica missão a ser cumprida por um desertor do exército russo e um judeu na cidade de Leningrado. Época difícil de ser vivida em função da ocupação das tropas nazistas, a luta pelo simples ato de fazer uma refeição assume proporções inimagináveis como o que era conhecido por “doce de biblioteca”, que era feito da seguinte forma: arrancava-se as capas do livros, a cola usada para a encadernação raspada e fervida e reconstituída em forma de barras. Apesar do gosto ruim, havia proteína na cola e isso mantinha vivas as pessoas. E os livros desapareciam aos poucos. Forçados a viver como se fosse um gueto, os moradores de Piter, como chamavam a cidade, se desdobravam em criatividade para, quem sabe, ver o amanhecer no dia seguinte. Até que um paraquedista alemão cai próximo onde está o prédio de apartamentos conhecido como Kirov. É quando um grupo de jovens decide saqueá-lo. Lev Beniov,ao ser descoberto cometendo crime contra o Estado é preso durante a fuga. Levado a uma cela escura à espera da morte, conhece outro preso: Nokolay Alexandrovich Vlasov, ou Kolya. Levados ao oficial, antes da execução, ambos recebem uma inacreditável missão que poderá salvar suas vidas. O relacionamento e as experiências vividas por ambos estão ao longo das quase trezentas páginas. Embora ofereça situações quase absurdas e momentos em que o texto escorrega para o clichê, o mérito do livro está em fazer o leitor compreender como era Leningrado nesse período e então escapar das armadilhas da narração. Um livro que é capaz, sem dúvida, de prender a atenção.

Cidade de Ladrões

David Benioff

Alfaguara

290 páginas

Preço sugerido: R$ 39,90

Capa capturada na Internet.