Turfe: Das cocheiras do Stud Mário Rossano: Mário Rossano e Irineo Leguisamo

Rio Volga 1

Hoje, mais um mês no ano completado desde a partida do meu pai. E, mais uma pequena passagem de sua vida como jóquei aqui.

Irineo Leguisamo foi um dos maiores, para muitos o maior, jóquei da América do Sul. Nascido no Uruguai, foi muito cedo para as pistas de Palermo, em Buenos Aires. Antes, o filho de Salto, onde iniciou sua carreira, montou cavalos no “prado” de Uruguaiana, em fins da década de 1910. Logo depois, cumpriu ainda jovem o percurso dos “prados” do interior uruguaio para chegar à Argentina já nos anos vinte e em 22 conquistar sua primeira vitória no tradicional hipódromo. Amigo de Carlos Gardel, que fez tango em sua homenagem, venceu todos os maiores grandes prêmios do continente. Até encerrar sua atividade aos setenta anos. Um exemplo e um mestre. Em novembro de 1962 esteve em Porto Alegre. Veio montar Vizcaíno na maior prova na pista de areia do Brasil, o GP Bento Gonçalves no Hipódromo do Cristal no Rio Grande do Sul. Venceu. Nos dias que antecederam a corrida, Mário Rossano e Irineo Leguisamo tornaram-se amigos. A imprensa local registrou.

Legui e Rossano

“Rossano e Legui tornaram-se grandes amigos. O jóquei local diz que inclusive mandará um presente ao jóquei uruguaio, em sua opinião um “fenômeno”. Mário Rossano foi cumprimentado por Irineo Leguisamo após sua vitória com Mar Báltico. “Foi precisa sua direção”, comentou El Maestro, que fez grande amizade com profissionais locais. Rossano comentava ontem que o temperamento jovial de Lequisamo surpreendeu a todos, inclusive distribuindo alguns “talaços amistosos”, mas um pouco fortes, em todos que passavam à sua frente, disse Mário Rossano. O jóquei rio-grandinho prometeu inclusive enviar uma barbatana ao piloto oriental.” Última Hora, 13 de novembro de 1962.

A sequência da página do livro Dá-lhe Rossano traz pequena nota, com fotografia, do Turf no Sul, da vitória elogiada por Leguisamo. 1962….o tempo corre demasiado em relação às minhas lembranças. Nem o mais veloz dos puro-sangues pode alcançar esse ano dentro de mim. O pai falava muito desse encontro, o fez um homem feliz. Perto de sua partida, conversamos sobre a amizade entre eles e perguntei se havia mandado o presente. A resposta foi típica do “Viejo” Rossano”: “Mas, é claro.” Lembro de Mar Báltico, o esperei em uma de suas vitórias, mas não lembro de Leguisamo em Porto Alegre. Ou apenas é uma passagem que vai se apagando em minha cansada memória. 1962! Eu era apenas um narrador de corridas de bolinhas de gude debaixo da mesa em nossa casa.

O José Alberto Souza é um grande amigo. Um memorialista (http://poetadasaguasdoces.blogspot.com). Sempre vem com alguma surpresa. Desta vez, me enviou um e-mail com esse tango da Ucrânia anexado, perguntando: “O que diria o velho Mário?”. Posso te dizer, José Alberto, ele escutaria, diria que não é Gardel, mas celebraria com uma taça de tinto, abrindo o seu sorriso, como se estivesse cruzando mais uma vez a linha de chegada de uma corrida.

Matéria do livro Dá-lhe Rossano – 25 anos sobre as patas dos cavalos, editado por Mário Rozano.

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Los Pingos de Todos

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Por vezes, como agora, continuo em 1961. A diferença traduzida em 53 anos, não me tornou em 2014 um turfista da nata. Bem que o pai fez de tudo para que eu me tornasse. E o quanto o acompanhei, em especial como treinador, não se faz presente além das lembranças e das palavras. Inesquecíveis. O Mário, meu irmão mais velho, não, ele seguiu e segue com brilho esse caminho. Ou seria por essas raias da nossa América? E com ele, os amigos que também estão se tornando meus amigos: Marcelo Fébula, Pablo Gallo, Marco Oliveira. Amigos maiúsculos, pela presença. E Gustavo Lopecito López, a quem apenas a geografia impõe a ausência do abraço. Amigo.

O Mário, lá com o seu http://www.mariorozanodeturfeumpouco.blogspot.com, o Marcelo e seus textos que penetram fundo (Un retrato al óleo em el Bar El Chino é algo fantástico) no http://www.lospingos.com.ar, o Pablo e sua profundidade no Todo a Ganador e o Marco, Historiador não permite que a gente deixe para trás a memória dos nossos hipódromos e seus protagonistas no Jornal do Turfe. E o Gustavo, me acolhendo com muita sensibilidade nos Pingos, espaço nobre que não mereço. Entre os amigos sou quase um penetra, filho de jóquei e treinador, irmão de especialista em turfe, amigo de outros também especialistas. Sou exatamente o que sempre fui, um observador. Atento, porém observador.

Contar aqui toda a história do meu Bento inesquecível é desnecessária. Seus desdobramentos na vida real até abril passado também. A bem da verdade, toda a crônica é verdadeira, nenhuma palavra foi metáfora ou inventada. Ainda tenho guardadas as bolinhas de gude, apenas não sei mais quem era a Ouropombo ou qual seria a do Lord Chanel? Não sei responder. Sei apenas que estão em minha história de vida e pude compartilhar quando da 106ª Edição do GP Bento Gonçalves. E agora, com a tradução do Marcelo, ganha outras cores, e com a generosidade do Gustavo, ganha o mundo no Los Pingos de Todos. Não sei o que mais posso dizer, as palavras saem desencontradas, feito redemoinho intenso dentro de mim. Mas sei que todos vocês, são parte da minha história e fico feliz em ter essa consciência. Obrigado, Mário, Marcelo, Pablo, Marco e Gustavo por me devolverem meus sete anos e toda uma vida que não se encerrou no já distante 1961.

http://www.youtube.com/watch?v=G9RS2BkbqHw

 

Foto: Chronosfer