Gotan Project: um outro tango é possível

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O purista arrepia só de ouvir falar que se faz tango eletrônico. O mais tradicional tangueiro apenas sorri e afirma convicto que o tango tal como foi concebido é imbatível. E entre um e outro, o tempo vai correndo às pressas, abrindo mais espaços e criando novas possibilidades. Nem um nem outro deixaram de passar por momentos em que foram “modernizados”. Cada um em seu tempo, claro. Meu pai, admirador confesso de Gardel, apenas ouvia o que de novo em tango eu levava para ele por respeito. Às vezes, ele me vinha com um “E isso é tango?” ao escutar o Diego Cigala ou o Andés Calamaro, e olha que o Tinta Roja do Calamaro é um disco primoroso. Em uma dessas idas a Buenos Aires trouxe um cd do Gotan Project. Tango eletrônico. O pior: queria dar para o pai porque a capa de Lunático tem um cavalo de corrida e remete de alguma maneira para essa estreita relação turfe/tango. Não passei para ele, fiquei com medo do “E isso é tango?”. Algum tempo depois, em uma conversa com um bom tinto à mesa, criei coragem e coloquei no player e ele gostou. Gotan Project. Lunático. O tango eletrônico com muita criatividade e clima de noite adentro.

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O curioso é que o Gotan foi formado em Paris. Por um músico francês, Philippe Cohen Solal, um argentino, Eduardo Makaroff, e um suíço, Christoph Müller. Paris tem tudo a ver com a noite, com épocas dos cabarés, da boemia, dos intelectuais, dos amantes, da vida. Paris pode sim respirar tango. E por lá, veio o La Revancha del Tango para mexer com as estruturas do início do século XXI dos tradicionalistas, que já sentiam a pele enrugada pelas mesclas com o rock, o folclore e o erudito. Todas muito bem-vindas, a propósito, embora nem todas com qualidade. Mas é esse sentimento universal que as letras muitas vezes sofridas, dramáticas e a dança sensual que se projeta entre o palco quase escuro, acinzentado pela fumaça dos cigarros que comove e arrebata as pessoas e as unem como se fossem uma só. O Gotan Project alicerça seu tango com elementos eletrônicos sem se descuidar dos instrumentos convencionais como o bandoneón, dos vocais cuidadosos, dos arranjos suaves, e sim, dramáticos também. Pode-se escutá-los, sem comparações, com o tinto passando entre os amigos, a carne assada e as histórias sendo contadas. Talvez não haja tanta angústia e sofrimento nelas, talvez a corrida não seja ganha por una cabeza, talvez a dança não seja sensual, porém, com certeza, em volta da mesa a música e os versos estarão se juntando a todos em um só compasso. E o tango, sendo o que sempre foi e será: tango.