Tabaré Leyton: La Factoría del Tango

tabare leyton

O tango está em constante movimento. Renova-se. Arrepia os mais puristas. É um universo catalizador e  por ele todas as vertentes da música passam. Inevitável. As fusões acontecem. Algumas, criativas. Outras, passam a lo largo. Todavia, o tango depois de Piazzolla nunca mais foi o mesmo de Gardel, sem com isso deixar Gardel para trás. Ambos convivem muito bem, obrigado. Há gêneros para todos os gostos e não por acaso o erudito se aproximou mais do tango, depois o folclore, o rock, a música popular. Por uma razão simples: o tango é a essência do popular. Sua raiz.  A fala de muitos. Os sentimentos de tantos. As frustrações de amores perdidos de outros tantos. A sensualidade. A carne latejando. A tristeza do bandoneón. O universo do tango permite incursões verdadeiras ao seu interior e desvenda sua alma. Tabaré Leyton, jovem uruguaio, não deixa nenhuma dúvida ao lançar seu primeiro disco em 2010. La Factoría del Tango faz desse universo sua casa. Uma casa moderna. Olhares modernos. O novo respira. Traz para dentro o eletrotango, o candombe, a milonga, o tango canção. Celebra a mescla. O tango clássico com ritmos tão próprios do Uruguai e da Argentina e da canção contemporânea. E atravessa o Prata com tamanha naturalidade que também foi para além do Atlântico. Um primeiro disco que cativa. O tango continua mais vivo que nunca. Felizmente. Tabaré Leyton é um sopro que alenta quem gosta de tango.

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Cuarteto

Tango

A cafeteria não tem cheiro de café. A ponta vermelho−alaranjada do cigarro vibra sem compasso algum. É uma pequena luminária movida a sopro humano. Então, a fumaça invade o espaço, contorna as xícaras, os copos de vinho, desenha círculos e formas que se dissipam com a mesma velocidade com que foram geradas. A tosse do velho sentado na última mesa é um acorde desafinado, misturando−se às vozes distorcidas. Soa às vezes como as badaladas de um sino anunciando a missa das seis da manhã. O cheiro contaminado do Gran Café vai incinerando um a um os bocejos da madrugada.

O brilho do vestido queima as retinas no contraste com o terno preto que o enlaça a cada movimento da dança. A carne sem o apetite de muito antes sustenta o corpo listrado de veias azuladas nas pernas magras, amparadas pelos saltos desproporcionais do sapato. O dançarino aperta a cintura expandida em suas fronteiras, e deixa−a escorregar suave até um palmo próxima do chão sujo do palco. Ergue−a em gesto decidido, ocupando o espaço vazio à frente, enquanto o bandoneón atravessa mais uma nota, Piazzolla por certo encolhe−se no túmulo pela sétima vez nesta mesma noite. E o cheiro contaminado vai cortando em pequenas fatias o tango tocado pelos músicos improvisados de músicos.

As luzes apagadas escondem por instantes as várias névoas expelidas por pulmões cansados. Um ponto aceso denuncia essas imperfeições, o vinho amargo não desce mais como a doce melodia de uma paixão, os tecidos se desfazem na tessitura do que foram. A noite esvazia lentamente as horas. As mesmas que aguardam impacientes os primeiros raios da manhã, despertando minutos e segundos em frações.

O casal, na eterna troca de olhares, tece mais outro movimento. E mais outro, e mais outro. E então, como uma explosão infinita de estrelas, apagam a chama dos corpos e dos copos. O bandoneonista fecha o instrumento, enquanto o piano respira pelas mãos enrugadas do viejo Manolo até o curvar das costas. O cuarteto curva-se para ninguém. Nem mesmo a lenta nódoa do cigarro resistiu ao horizonte.

Gardel sorri, pega o chapéu, e abre a porta. O tempo continua o mesmo de sempre.

http://www.youtube.com/watch?v=kdhTodxH7Gw

Foto capturada no site http://www.lunalatina.it

La Mufa: tango à frente sem concessões

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Sem dúvida, o tango é um gênero universal. Mais, habita o imaginário não apenas do Rio da Prata, mas invade outros tantos universos seja de que lado for do planeta. Por vezes, e por muito tempo foi assim, discriminado por ser cantado em locais nada sacros, principalmente em suas origens lá de trás em fins do século 19, até ser quebrado o estigma por Carlos Gardel. No seu nascedouro, os prostíbulos, quebram-se a imagem de que o tango era triste, melancólico embora repleto de paixão. Ao contrário, por essa época a chegada de imigrantes de toda a Europa para ocupar postos de trabalho na Argentina, e sua frequência dos trabalhadores solitários em busca de prazer nas casas de prostituição mudou os costumes de então. Enquanto esperavam vez, os espaços eram ocupados por encenações musicais e danças sensuais. Dessas experiências musicais, ritmos como a polca europeia, a havanera cubana, o candombe uruguaio, a milonga espanhola, se mesclaram para nascer o tango. Primeiro como trio musical, instrumental apenas, mais tarde com letras igualmente sensuais, pouco a pouco a resistência a ele foi sendo atingido até que penetrou de vez os salões de festa, Gardel estourou no mundo inteiro a partir da chegada do ritmo à Europa.

Na segunda metade do século 20, Astor Piazzolla revoluciona de forma definitiva o tango. Como na juventude havia estudado nos Estados Unidos, ele, ao retornar ao Prata, trouxe na bagagem influências do jazz. E começa uma nova história.

Várias formações nascem, várias influências passam a exercer papel preponderante na execução do tango seja como ritmo seja como gênero.

Assim, do lado desse emblemático rio, o La Mufa é um diferencial estético e criativo no que ouso chamar de novo tango. Passando ao largo do tradicional, porém sem perder de vista o que foi construído pro Piazzolla e Aníbal Troilo, por exemplo, viaja para as décadas passadas com uma formação harmônica alicerçadas em uma sonoridade própria, mais seca, áspera talvez e com um equilíbrio extraordinário entre os instrumentos. Não por acaso, a formação é composta pelo clássico bandoneón, piano, violoncelo, contrabaixo e violino. Possuem um refinamento que não é preciosismo se não que refinamento musical essencial à composição. E também possuem outra característica única: o universo roqueiro está muito presente em suas interpretações. Esses pontos convergem não como modelo ou forma, mas como uma expressão natural de seus integrantes. Inova como o tango sempre inovou, sem perder a identidade. Donos de um repertório base em seus mestres e composições próprias, se revelam (re)criadores incansáveis. Há uma participação magnífica e muito especial em ” Soy muchacho de la guardia ” dos Los Cigarros. La Mufa é mais que um alento, mais que uma promessa. É uma doce realidade que transcende a qualquer possibilidade de rotulá-los assim são ou assim não são. La Mufa faz tango com gana, com um quê de erudito, de jazz, de rock, de tudo um pouco e sobretudo, de La Mufa.

http://www.youtube.com/watch?v=urN-y5XNnJw

La Mufa Tango – Perro Andaluz Ediciones – 13 Faixas – 46min33s

Foto capturada na internet no site: http://www.lamufa.com‎