Anna Von Hausswolff: The Miraculus & Singing from the grave

Anna Hausswolff

A pianista sueca Anna Von Hauswolff  compõe e canta com equilíbrio e densidade. 2010 fica como uma marca do começo: Singing from the grave. Por óbvio, as comparações também começaram: um quê de Kate Bush, por exemplo. Todavia, o equilíbrio e o diferente em Anna, cujo rótulo aparece em pop/rock, está na forma, na estética: toca órgão de igreja. Integra-se ao ambiente. Marca seu território em nuances próprios e distantes dessas comparações comuns e ávidas feitas por alguns críticos mais apressados. A sueca possui talento. Abre espaços para qualquer gênero. Suas teclas são universais. Suas mãos deslizam suaves no folclore, no gótico, no pop, até mesmo no metal. Por que não? E faz a mescla de rock com músicos clássicos. The Miraculus é uma síntese dessa forma e estética que a torna por vezes sonhadora, delicada e em outras com o humor abaixo da linha dos olhos. Transforma sua voz em instrumento, entrelaça-a com o órgão. Tinge as faixas dos discos que gravou com tantas possibilidades, com intensa alternância de voz e sons cada audição é um momento diferente e único. Eis aí o equilíbrio, a intimidade, a delicadeza, o acolhimento que a música de Anna envolve quem a ouve. Por ser diferente, faz a diferença. Ouça com atenção.

Anúncios

Gravenhurst: The ghost in daylight

Gravenhurst

Gravenhurst era Nick Talbot. O inglês foi de tudo um pouco, um pouco de tudo: jornalista, multi-instrumentista, cantor, compositor. E com seus trabalhos solos foi criando uma teia maior de canções mais alternativas de rock, deixando o convencional para trás. E foi juntando outros músicos. E outras vozes. As composições, mais para o sombrio, para o folk possuem intrincadas soluções harmônicas, variando de um solo de guitarra mais alto a um simples dedilhar de cordas. The ghost in daylight é um disco atmosférico, sem cair no ranço midiático. Ao contrário, há muito de canções do folclore, do popular, acústicas e vocais tecidos com cuidado para cada acorde. Aqui e ali você vai encontrando influências marcantes na criação de Talbot.  E elas apenas fortalecem o Gravenhurst. Outros trabalhos do grupo (1999-2014) sempre tiveram o selo de Nick até a sua partida. Música que envolve, faz a respiração cadenciar o ritmo, atenua o caminhar áspero dos dias de hoje, e ao ingressarmos em sua essência sonora, a esperança renasce com densidade.

Charlie Haden: The Montreal Tapes

Charlie Haden

Se Nelson Rodrigues certa feita afirmou que toda unanimidade é burra a frase não se aplica a Charlie Haden. Mais que ser unânime, o contrabaixista fez escola em suas linhas melódicas de baixo, tornando-o não apenas um compositor mas um instrumentista dos mais requisitados em vida. Perdemos Haden em 2014. todavia, é um músico que permanece muito rico e vivo dentro de cada canção sua ou que participa que ouvimos. o contrabaixo único. E Charlie foi de uma versatilidade visceral, o que comprova seu talento. A grande maioria o identifica com o jazz, e com razão. Se olharmos um pouco mais fundo em sua biografia, vamos encontrar passagens no universo country, folk, outros gêneros tão distintos como os africanos, latinos e fez a sua estrada também em posições políticas fortes sempre a favor do humanismo e da humanidade. Gravou com Egberto Gismonti e Jan Garbarek o fabuloso Folk Songs, e à lista pode-se acrescentar Joni Mitchell, Ricky Lee Jones, Keith Jarrett, Ornette Coleman, o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, Plastic Ono Band – Yoko Ono -, Paul Motian, Carla Bley e Pat Metheny entre tantos mais. No Festival Internacional de Jazz de Montreal de 1989, tocou com o trompete de Don Cherry e a bateria de Ed Blackwell. Um disco extraordinário. Sensitivo. Puro. Um disco Charlie Haden de ser. Abaixo, Haden e suas canções e interpretações em vários momentos.

Glen Hansard: Didn´t he ramble

glen_hansardcover

Glen Hansard desde os tempos do The Frames faz um trabalho consistente, ora folk ora mais rock ou ainda com todas as nuances dos compositores irlandeses. Não por acaso vez por outra surge alguma voz afirmando certa semelhança com o bardo Van Morrison. Diferenças à parte, foi com a parceria inspirada e sensível com a pianista e compositora tcheca Markéta Irglová que alçou seu voo mais alto. Em Once,  filme que protagonizaram, oscarizaram a canção tema “Falling Slowly” e formaram o The Swell Song, com bons trabalhos. Havia entre os dois uma química que funcionava muito bem, tanto que um e outro participavam de seus trabalhos solos. Ela gravou Anar e Muna, ele chegou com Rhythm and Repose. E cada um seguiu seu caminho. Hansard chega ao mercado com Didn´t he ramble, onde mais uma vez o folk e o indie rock se insinuam pelos seus labirintos musicais. Um disco que possui, sobretudo, uma unidade harmônica, temas em que a vida real se confronta com seus lados otimistas, apaixonados e, às vezes, nem tanto um ou outro. São dez canções maduras e encontram Glen mais cristalino e mais envolvido emocionalmente com cada composição. Os arranjos são primorosos e o destaque fica por conta das cordas com Rob Mouse e Thomas Bartlett, que o conectam ao mistério entre melodias e letras e faz do irlandês um intérprete poderoso. Um belo disco, embora confesse preferir o anterior, mais folk, mais calmo. Todavia, um disco que vale cada faixa e nos transporta às nuvens e começa pela belíssima capa.

Gillian Welch: Time (The Revelator)

Gillian-Welch

Ao ler uma crítica sobre o disco Time (The Revelator) em que o autor apenas afirmava que se trata de um disco de country, um disco de canções rurais, sombrio e que a autora é natural de Los Angeles e que isso poderia incomodar os mais puristas, ele logo arremata dizendo que não deveria incomodar. E tem razão Ross Fortune. É um trabalho sim com o gosto e o cheiro das montanhas, deliciosamente selvagem e perturbador e, sobretudo, belo. Gillian é autêntica em seu lento e suave tocar e sua voz parecer deslizar pelos campos da vida com toda a densidade de sua alma. Acompanhada por um guitarrista de primeira, David Rawlings, as canções fluem de tal maneira que pouco importa quando foi o ano do seu lançamento (2001), pois soa atual e sua riqueza transcende o tempo. A dupla enraíza ainda mais a música norte-américa em um levada poética onde as harmonias do violão casam à perfeição com as vocais de Welch e suas letras densas. Ross disse que Time “é um som profundo como uma mina e sombriamente escuro.” Assino junto com o crítico. Vale cada canção de Gillian o nosso tempo. (aqui, uma pequena coletânea com Gillian)

David Gray, Beth Orton, The Verve, Fleet Foxes & XTC

IMG_2332

Sexta-feira, começo do fim de semana, o inverno dando suas últimas escapadas pela manhã azulada de hoje, o sol chegando devagar, as ruas e seus movimentos, as pessoas e seus caminhares e a música como companheira das horas que ora correm ora descansam.

Fotografia: Chronosfer

Roger McGuinn & Gene Clark além dos The Byrds

mcguinn-clark-live

Em qualquer lista que se faça dos maiores do mundo em todos os tempos o nome dos Byrds está presente. Com justiça. Roger Guinn, Gene Clark, David Crosby e Chris Hilman possuíam uma alquimia única e transformadora inclusive dando às canções de Bob Dylan novas nuances. Inovadores, quando cada um ao seguir o seu caminho não conseguiram repetir o mesmo encantamento quando juntos. Se Crosby foi para o antológico Crosby, Stills, Nash & Young, McGuinn tocou com outros tantos e fez trabalhos solos apenas razoáveis, Hilman vez por outra aparecia com os outros dois como trio ou dupla com Roger, e Clark fez alguns discos geniais. Entre eles, No Other de 1974, cuja criatividade estava na pele do músico. Assim como White Light, este de pouco antes, 1971. Clark possuía um magnetismo próprio dos solitários e passava isso em suas performances. Já havia mencionado isso aqui em posts mais lá atrás, e em sua genialidade conseguiu criar um estilo e uma estética onde o acústico foi o caminho natural. Algumas canções com Roger e com os Byrds ou solo sempre são bem-vindas. Aproveitem sua sensibilidade.