Bob Dylan:The cutting edge – 1965-1966

bob dylan cutting

O 12º volume da série Bootleg traz Bob Dylan em toda a sua genialidade. mais que isso, mostra o como transforma suas canções em canções nem sempre definitivas e o quanto persegue o que acredita ser o melhor em relação a cada uma das suas composições. The cutting edge abraça os anos 1965 e 66 e três discos: Bringing it all back home, Highway 61 revisited e Blonde on Blonde. Período fértil, cada álbum uma obra-prima. Dylan em sua melhor forma, sem concessões. As músicas foram trabalhadas à exaustão. Seja na forma, nas palavras, no ritmo ora acelerado ora mais lento, quase balada, e vai fazendo com quem ouve também mudar a sua sensação, o seu sentimento. De repente, pega-se uma dela, qualquer uma, ouve o take 1 e o take final, depois de várias “transformações” e ouve-se outra canção. E o que não surpreende, afinal falamos de Mr. Robert Zimmerman, é a sua capacidade inesgotável de criar. A caixa  é uma preciosidade, takes de uma mesma música se repetem e nunca é a mesma canção. Para ser ouvido com calma, sem pressa, e para quem quer conhecer cada modificação em músicas clássicas ou nem tão conhecidas assim do repertório do bardo Dylan.

 

Anúncios

Adam Cohen: Like a Man

Adam Cohen

O peso do DNA pesou um tanto durante anos. Afinal, ser filho de Leonard Cohen é mais que um peso, mas de repente poderia ser um caminho e uma bagagem de histórias. Adam fez a escolha certa. A de seguir caminho. Like a Man são dez canções que, sim, tangenciam o pai, e ao mesmo tempo revela um compositor/cantor de personalidade. Não vale comparações. Injusto. Adam é Adam e isso é o suficiente. E sua matéria-prima é amar. Ela desafia as faixas do disco, desliza por sua voz, pelos instrumentos, pelas vozes que acompanham, pelo próprio canadense. E torna-se um trabalho autoral, escapando das metáforas do Cohen pai e introduzindo uma linguagem mais direta, sem muitas concessões em sua objetividade repleta de observações. Os arranjos são sutis, bem elaborados e se complementam, tornando a obra um todo bem encaixado. Um disco que Adam fez para ser Adam Cohen e não o filho de Leonard. Conseguiu. É um belo e sensível álbum.

Joni Mitchell, mais que simplesmente folk

joni mitchell

Joni Mitchell é um ícone da folk music. Arrebatadora, traduziu em harmonias e versos mais que sentimentos. Suas músicas desvendam tanto quanto trazem a luz solar aos nossos dias. Recuperando-se de aneurisma sofrido, as notícias confundem. No entanto seu site oficial mantém viva a esperança de recuperação. Há poucos dias perdemos Chris Square, baixista do Yes. Nome referência no baixo em todos os tempos. E o Yes um dos grandes do rock progressivo dos anos setenta esmaece. A canadense deu um novo sentido ao folk, criou álbuns inesquecíveis, avançou, fez mesclas, com o jazz, com o rock, nâo se limitou a criar melodias, ingressou nas artes plásticas. Muitos dos seus discos têm capas com suas obras, encartes com suas obras. Uma pessoa extraordinária. Um criadora que nos faz pensar. Fica Blue, um trabalho exuberante, fonte permanente de ideias e conhecimento, para que possamos desfrutar sua sensibilidade.

James Taylor: Before This World

james-taylor-before-this-world-cover-art

Às vezes, leio ou escuto a expressão “depois de tantos anos quebrou o silêncio”. O que será exatamente quebrar o silêncio? O escritor não lançar nenhum livro novo? O cantor/compositor ou banda não lançar nenhum disco de canções inéditas? A resposta toma esse caminho e assim é quando leio que James Taylor lança Before This World após treze longos anos de “silêncio” após October Road de 2002. De canções inéditas, fique claro. Treze anos depois e dez canções, pouco mas de 41 minutos e quase nenhuma ou nenhuma novidade. Taylor sempre foi uma espécie de músico de transição entre os conturbados anos sessenta, onde aparece na cena musical, e os anos que viriam, onde a introspecção, a frustração, a exaustão de gerações convergiam de forma assustadora. Seu folk ou folk rock alimentado por uma acoustic guitar e uma voz serena deixava as plateias e quem escutasse seus discos tranquilos. Não que representasse um estado de alienação, ao contrário. Se as questões mal resolvidas lá dos anos 60 em nível político-cultural continuassem mal resolvidas é bom que se diga que continuam assim. Se antes havia a Guerra do Vietnã, hoje assistimos como se fosse um jogo qualquer o Afeganistão, o Iraque, assistimos ataques fundamentalistas, violências ao vivo reproduzidas pelas televisões e internet a qualquer hora do dia. Mudou para pior. No entanto, o trabalho de James Taylor parece ter parado no tempo. Se em 1970 cometeu a pérola chamada Sweet Baby James, e é verdade que após também teve outros bons discos, em especial os dois volumes de Greatests e outros como Never Die Young, Dad Love His Work, JT ou Mude Slide Slim além do October Road, ele não perseguiu as transformações que o tempo de alguma forma exige. E dele era de se esperar essa transformação pelo menos estética. Claro que neste Before há arranjos mais eloquentes, uma acoustic guitar suave porém definitiva, os vocais de sempre, e letras mais ousadas. Há passagens belíssimas como “Today Today Today”, “You and I Again”, “Snowtime” e a faixa título “Before This World”. Se não é um James Taylor em plena forma, é um James Taylor que se escuta com a serenidade que os dias de hoje exigem. Sem quebrar o silêncio.

Crosby, Stills & Nash: Demos

csn

Gravações que estão ou estavam à beira do tempo, quase no esquecimento dos próprios artistas, renascem para todas as partes: músicos, gravadoras e público. Claro que por trás de muitos desses lançamentos há sem dúvida alguma a questão comercial, no entanto, também não há como dizer rejeitar escutar trabalhos ainda crus de Crosby, Stills & Nash antes de eles serem um grupo. Vale para outros artistas, por suposto. Em Demos a conjunção começa com versões solo ou em dupla, eventualmente com a presença de Neil Young, quase todo acústico e cada um revelando suas origens. Se Graham Nash vinha dos Hollies, David Crosby dos Byrds, Stephen Stills do Buffalo Springfield, cada um foi demonstrando suas influências dessas bandas e cada qual com o seu jeito de compor, tocar e cantar. O grande mérito do disco é esse. E para além, mostrar o quanto juntos são harmônicos e brilhantes. Young esteve também no Buffalo. E em algum momento a corrente elétrica ou seria acústica? os uniu. No lendário Woodstock, confessam nervosismo e que estavam em suas primeiras apresentações ao vivo. O conjunto de músicas – doze –  apresentado em Demos remete ao período de 1968 a 1971 e que após, ao entrarem em estúdio, receberam o tratamento que os tornou um trio ou quarteto ou dupla excepcionais – ao longo dos anos foram variando as formações entre eles. O álbum vale por tudo o que representa, desde as possíveis, digamos, fragilidades quando a sós, e a fortaleza que se tornam quando juntos. Sobretudo, um disco doce e muito bonito, bom de se escutar e melhor ainda por sabermos que são músicos que independente do talento trabalharam muito para se tornarem Crosby, Stills & Nash, às vezes com Young.

Joan Baez & Chico César

Finais de ano são repletos de listas: presentes, os melhores da música, do cinema, do teatro, e sei lá mais do quê, os piores também, mais as listas de desejos, as resoluções para a entrada no novo período de 365 dias e por aí vai. Não me alio a nenhuma dessas vertentes ou pautas. Cada um sabe o que realmente gostou ou não, o que deseja ou pode fazer, o que deixou de fazer, enfim, cada um em tese deve saber um pouco de cada uma dessas coisas. 2014 foi um ano complicado em demasia para mim no plano pessoal, quem acompanha o Chronos sabe o motivo, e assim fui me diluindo ao longos dos dias. No entanto, ainda que difícil, li, escutei, dei uma escapada antes de o pai partir a Montevidéo, assisti a alguns filmes, fotografei algumas cenas e também me mantive recluso em mim mesmo muitas vezes.

Prefiro, então, destacar dois shows de música. Um que não assisti e outro que assisti. Primeiro, pela ordem, Joan Baez. Oportunidade quem sabe única, as datas conspiraram para que “nosso encontro” não acontecesse. Ou estava ela no Uruguai e eu aqui, ou eu em Montevidéo e ala em Porto Alegre. Desencontros. Talvez o que mais aconteça em nossas vidas. Faz parte. Perdi, pelo que li e ouvi de amigos e jornalistas, um show e tanto. Cantora e compositora folk que representou (ainda representa) aqueles anos incríveis que foram os anos sessenta da contracultura, da alternativa, da transformação das consciências, da Guerra Fria, da Guerra do Vietnã, de Martin Luther King na luta pela igualdade, da busca de novos valores se opondo ao conservadorismo de então, do comportamento, de novos canais de expressão. Joan é mais que um símbolo. Voz atuante na defesa dos valores humanos, se faz presente até os dias de hoje com extrema coerência de vida. Esse período teve como ápice, pelo menos na música e no comportamento,Joan_Baez_Bob_Dylan Joan e Bob Dylan.

por exemplo, no Festival de Woodstock em 1969. E é de lá dos anos sessenta que nasce a estrela de Bob Dylan, dando sentido à folk music e inovando e revolucionando a palavra. Momentos mágicos daquela década, que passaram por aqui e me escaparam.

E então, o Projeto Unimúsica da UFRGS trouxe a capital gaúcha intérpretes do Brasil a cantarem compositores do Sul. Coube a Chico César, paraibano, “revirar” a obra de Vitor Ramil. Se Vitor já possui um hermetismo fantástico em sua forma e estética, capaz de transgredir com talento e visão ritmos como a milonga, Chico não se fez de rogado e partiu para os ritmos do Norte e Nordeste brasileiros. As composições do pelotense ganham tanta cor e dinâmica que o show de Chico se tornou inesquecível, e estonteante por tamanha beleza e força. Esse, assisti. Vê-lo é mais que um presente.

Cesar

Para não deixar passar, um cd maravilhoso: Muna, da tcheca Markéta Inglová. E não esqueçam Leonard Cohen, Hamilton de Holanda, André Mehmari, e  outros mais que iremos indicando a vocês. As duas primeiras canções, com Joan, as últimas, com Chico.

www.youtube.com/watch?v=vOipm4DL04Q

 www.youtube.com/watch?v=F6g-7L2kPN0

www.youtube.com/watch?v=UlcdPBgOxm4

www.youtube.com/watch?v=Nab_nWkYe9I

Fotos: Joan Baez, Internet, e Chico César do site http://www.trasdiversão.blogspot.com

McGuinn, Clark & Hillman: trio depois dos Byrds

Trio1

Os fundadores dos Byrds se reuniram em 1979. Nasceu o trio McGuinn, Clark & Hillman. Com uma pré-determinação: não repetir os The Byrds. A questão estava em suas formações musicais, um quê de pop-rock e folk ainda visíveis em suas composições, inclusive no disco há uma ou canção que segue esse caminho com “Release me girl”. O que, enfim, se tornou um diferencial foi o vocal a três. A mistura das vozes escapou da armadilha byrd de ser, e cada um já tinha suas partes vocais assumidas no disco. Porém, na forma, na estética e mesmo nos vocais se aproximaram em demasia dos Eagles. E isso passou a ser uma espécie de preenchimento de vácuo pois os Eagles não gravavam a algum tempo e o trio vinha pronto para se encaixar. E realmente, o single lançado foi direto às paradas da época, puxado do Roger McGuinn. Os críticos, com uma certa maldade, atribuíram o sucesso a ausência dos Eagles. Injustiça, por certo, já que os três em nenhum momento se tornaram ou foram imitadores dos “grupo original”. Tinham composições de muita beleza, baladas perfeitas ainda que os mesmos críticos afirmavam que City não possuía conteúdo e muito menos se aproximava dos extraordinários Crosby, Stills & Nash. Aliás, David Crosby foi um byrd, e se estivesse no grupo seria a reedição dos Byrds? Talvez sim, talvez não. A verdade é que o disco é muito bom, se ouve com alegria e prazer e em meio a um período de muitas transformações sonoras, Roger McGuinn, Gene Clark & Chris Hillman foram autênticos. É um registro valioso, raro e que será sempre uma referência.

Trio

www.youtube.com/watch?v=PEbz62IE9dg

www.youtube.com/watch?v=Md3YHOCRku0

www.youtube.com/watch?v=rC45NEQutiE

Fotos: Acima, crédito na própria foto, do site http://www.features.com, e capa do disco capturada na Internet.