Mísia: Garras dos Sentidos

Mísia

Susana Maria Alfonso de Aguiar, Mísia. O fado em movimento. A beleza da luz e das sombras que serpenteia sua voz entre as harmonias das guitarras. A melancolia marca encontro com temas recorrentes como a solidão, amores perdidos, a morte sempre à espreita. Mísia faz de Garras dos Sentidos uma conjunção perfeita dessas teias todas aliando à tradição portuguesa do fado a toques sutis e generosos de jazz e outras influências que colheu ao longo de sua vida – viveu anos na Espanha, por exemplo. As palavras, escolhidas em poetas e escritores novos e consagrados, ganha também uma riqueza única. E elas, as palavras, de José Saramago, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro ou Agustina Bessa-Luís conferem não apenas atualidade mas uma intérprete madura e sensível ao novo, à tradição. É nessa aliança entre os tempos que os silêncios nascem para descobrirem as sonoridades do violino, do acordeom, de arranjos que não mais se limitem ao corte solitários dos acordes e provoca a emoção das peles sem jamais cair do sentimentalismo fácil. Ao contrário, é íntimo, verdadeiro, profundo e aloja-se em nossa alma com intensidade. Os seus discos são obras inesquecíveis. E está a caminho Para Amália. Mais peles sensíveis à vista.

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Carminho: Alma

Carminho

O fado está no DNA de Carminho. Sua mãe, Teresa Siqueira, cantora de fado, a família musical acolhia sempre cantores, músicos, violeiros e nesse ambiente a música e o cantar se tornou natura desde cedo. Com o fado em seu sangue, outras sonoridades chegam: a música popular brasileira. pelas telenovelas, conhece Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Tom Jobim. e Vinícius de Moraes. Todos já em sua corrente sanguínea. Canta em vários festivais, no Algarve, em Lisboa, onde pudesse deixar sua voz para o público. Isso, desde muito cedo. Mais tarde, uma viagem de quase um ano pelo mundo, onde realiza trabalhos humanitários, dá a Carminho o passo a seguir. Em 2009 grava Fado com uma densidade de quem mexe com as estruturas convicta do talento que possui. E em 2012 chega com Alma, gravando com brasileiros e com um repertório envolvente. Para muitos da crítica faz um fado moderno, renovado. Para quem ouve, uma intérprete sensível, que abraça a música como um todo e se desfaz de rótulos. Carminho é a música que une o mesmo mar em uma única margem. O que mais tarde, 2014, Canto se fez em tessituras sem fronteiras.

António Zambujo em Porto Alegre, hoje

antonio

Pois consegui uma façanha: vou perder o show de hoje, no Teatro do Bourbon Country, do António Zambujo de lançamento do seu álbum Rua da Emenda. E sem desculpas. Sem olhar a agenda, assumi outro compromisso. E perder o novo expoente, segundo alguns críticos, do novo fado é imperdoável. Ao escutar o seu Ao vivo no Coliseu já havia ficado impressionado com a suavidade do seu canto e a brasilidade com que seu repertório se desenvolve. O filho do Alentejo é talentoso e possui um timbre de voz que torna impossível não se envolver com suas canções. E ele mesmo confessa as influências da música popular brasileira, de Noel Rosa, de Lupicínio Rodrigues, de ser um joãogilbertiano assumido e convicto. eis a essência do seu trabalho: o fado tradicional, a mpb, e por aí encontra elos entre os fados mais antigos com os chorinhos, e a aproximação é natural. Mas, Zambujo tem um olhar cosmopolita e interiorano o que configura seu trabalho como de integração. E uma integração que vai além. Grava sem medo algum o uruguaio Jorge Drexler e Serge Gainsbourg, cantou acompanhado de Yamandu Costa músicas com letras de Paulo César Pinheiro, já esteve com o gaúcho Márcio Faraco e já havia passado por Porto Alegre em 2003 em projeto da Universidade Federal.  Escuto ao fundo o seu Ao Vivo e bate aquele sentimento de culpa. É que resulta em não olhar a agenda. No entanto, o mais importante de tudo: António Zambujo está aqui e isso vale infinitamente mais que a minha agenda.

Ana Laíns, fado e muita poesia

Ana Laíns

Ana Laíns, nascida Ana Margarida Laíns da Silva Augusto, portuguesa de Tomar. Nome ligado ao fado e a música tradicional de Portugal, teve o início de “sua carreira” a pedido do pai ao cantar pela primeiro vez aos seis anos de idade. E cresceu escutando fados, músicas tradicionais, músicas. Até 1999, quando vence, em Lisboa, a Grande Noite do Fado. A partir de então, decide seguir carreira e passa a cantar na Europa e além mar, chegando às costas dos Estados Unidos. Com o produtor e diretor musical Diogo Clemente, grava seu primeiro disco Sentidos, que traz poemas de Florbela Espanca, Lídia Oliveira e Antônio Ramos Rosa e outros poetas. Isso em 2005. depois, o convite de Boy George para participar de “Amazing Grace” dá um novo impulso e ao chegar aos dez anos de carreira musical chega junto o segundo álbum: Quatro Caminhos. O trabalho contém, mais uma vez, o carimbo e as impressões digitais de Diogo Clemente. Junto, letra de sua autoria (“Não sou nascida do fado”), poemas de Rubén Darío, poeta uruguaio, e do brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Há em sua linha de trabalho musical uma forte atração pela poesia, o que a enraíza, em coração e alma, não apenas em terras portuguesas mas a torna universal. Esse olhar, esse cantar múltiplo de Ana é um sopro renovado da vida. (Conheci Ana Laíns pelo http://www.brasildedentro.blogspot.com)




Dulce Pontes: O primeiro canto

Dulce

Fui apresentado à Dulce Pontes por acaso. Não, por acaso não. Por força, sem minha vontade de conhecer o que o meu colega de trabalho impunha a todos nós dia após dia com o seu gosto por coletâneas de novelas brasileiras. Tenho lá muitas restrições a coletâneas, que mais parecem voltadas ao comércio de disco e não a uma pequena mostra do que há de melhor em música, seja de vários autores, de um cantor ou cantora, enfim, em geral são apenas duas ou três ótimas canções e mais dez de baixa qualidade. Por aqui a falta de informação é regra. Irrevogável, pelo que até hoje percebo. De passagem vou contar uma pequena situação que vivi em uma loja de discos anos atrás. Estavam nas prateleiras os gêneros, títulos, artistas e as capas dos cds. Tudo em desordem, outra regra básica. No meio da loja, um setor de música religiosa. Chamou-me a atenção um nome bem à vista: Madredeus. Os nomes dos discos: Existir e O espírito da paz. Assim, a informação e o conhecimento da música passa bem longe da maioria das pessoas que trabalham com vendas de discos. É regra. Irrevogável. De volta á Dulce. Ouvia a tal coletânea quando uma voz portuguesa invadiu o nosso espaço com delicadeza. Perguntei quem era e claro ouvi um não sei clássico de quem realmente não sabe. peguei o disco e lá estava “A canção do mar”. Disco original Lágrimas. Não encontrei, outra obviedade. Certo dia, em meio ao caos de outra dessas lojas, acho que em 1999 ou 2000, encontrei junto a fila do heavy metal O primeiro canto. Dessa vez, fiquei feliz. Enfim, encontrara algo daquela voz que me chamara a atenção e que não havia jeito algum de ter algo completo para escutar. E no player, horas mais tarde, Dulce se revelou por inteira. Que disco! Já sabia de pesquisar que Dulce mexia com vigor o fado, flertava com o pop e o folclore português, quês de influências árabes e ritmos ibéricos. Tudo isso começou a gerar em mim um gosto pelo disco que tal como um livro, passou a ser de cabeceira, daqueles que a gente não abandona nunca. Não a escutei como uma sucessora da extraordinária Amália Rodrigues (ganhei de presente de outro amigo uma gravação dela ao vivo no Olympia de Paris simplesmente fantástico). Ao contrário. Dulce tem personalidade. Tem um trabalho com DNA bem identificado, e aqui já entra o conhecimento de outros discos que escutei da Dulce. O primeiro canto mostra que o fado é o ponto de partida para chegar às profundas águas da música popular de Portugal. Tal qual uma folclorista, recolheu vozes, instrumentos, sons, danças, coros, de regiões e regiões do interior português para realizar um trabalho que também é antropológico e fizeram com que cada descoberta, desde a mais remota fonte de som e tradição até as mais conhecidas, se tornasse parte de um todo uníssono e novo. Atual, vai permeando temas rurais, prantos de uma guerra em uma Angola distante e tão próxima, e outros temas que a aproximam da realidade da vida. Mais que mexer com os rótulos de renovadora ou seja outro rótulo qualquer Dulce e O primeiro canto marcam com fogo, o sentido e o significado da vida em toda a sua plenitude. Disco sensível de uma cantora e compositora ainda mais sensível e é água límpida em nossos dias.