Mercedes Sosa, León Gieco, Eugénia Melo e Castro, Dulce Pontes, Joan Baez, Tom Jobim….

Hoje, apenas música. A que nos envolve. A que nos revela. A que nos transforma. A que nos lança através dos tempos. A que nos faz parar. A que nos faz pensar e discernir. A que nos comove. São tantas. Escolho as que nos aproximam latino-americanos e portugueses, como um caminho sem volta de integração e alma. Identidades que se reconhecem e andam pelas mãos da arte. Margens que se encontram.

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PoPortugal: Eugénia Melo e Castro

Pop

Desde que escutei Eugénia Melo e Castro cantando Vinícius e Chico Buarque ela entrou em minha vida musical em definitivo. Consegui, no entanto, a façanha de derramar cola – não me perguntem como – no cd com as canções do Chico justo no lado onde é feita a sua leitura e assim perdi o Desconstrução. Mais tarde, encontrei o PoPortugal. Não perdi tempo. Foi direto para o meu player. É um passeio pelo pop português com uma extraordinária personalidade e com arranjos ainda mais extraordinários. Passa por compositores como Pedro Ayres Magalhães – “Amor” -, Pedro Abrunhosa – “Se eu fosse um dia o teu olhar” -, António Pinho/Nuno Rodrigues – “Põe os teus braços a volta de mim” -, Tozé Brito – “Se quiseres ouvir cantar” – ou ainda Rui Reininho/Tóli César Machado em “Asas” e Sérgio Godinho/Hélder Gonçalves em “O sopro no coração”, criando uma nova paisagem a essas canções com quês de jazz irresistíveis. Um disco repleto de sutilezas, de classe, de releitura sem sequer perder a autenticidade das composições originais. Eugénia imprime elegância e intimidade em suas interpretações que elas arrebatam que as escuta de imediato. Um trabalho de muita sensibilidade e grande despojamento pessoal e entrega total a cada canção. Eugénia Melo e Castro nos transporta para o interior de nós mesmos e assim flutuamos nas texturas das harmonias e na voz que nos abraça com a suavidade de um sonho.

Foto capturada no http://www.terra.com.br

A música em Fernando Pessoa ou Fernando Pessoa na música

Pessoa

Fernando Pessoa é poeta único. Está certo, existem tantos poetas que também podem ser adjetivados como únicos. É verdade. Mas, quando conheci Pessoa na minha adolescência, não houve e tenho a convicção de que não haverá substituto. É único. Direto. Objetivo, subjetivo. Seus livros me acompanham desde então e por acordo tácito sempre em minha pasta, em meu estúdio, em meu local de trabalho há Fernando Pessoa. Em 1985, quando cinquentenário de sua morte, a produtora Elisa Byington mesclou a poesia em nossa música popular. Maria Bethânia sempre tem Fernando Pessoa em seus espetáculos. Sempre. Então, palavras de Elisa no encarte do disco que nasceu: “Depois de um caminho mais literário, a ideia do disco fixou-se mesmo na música popular. Era preciso trazer sua fala bem perto. Por que não fazê-lo parceiro desta nossa expressão cultural mais rica?”. A música em Pessoa chegou assim. E com a palavra também veio Tom Jobim, Sueli Costa, nana Caymmi, Francis Hime, Olívia Hime, Ritchie, Milton Nascimento, Eugénia Melo e Castro, Marco Nanini, Edu Lôbo, Olívia Byington, Eduardo Duvivier, Arrigo Barnabé, Toninho Horta, Dori Caymmi, Marília Pêra, Vania Bastos, Nando carneiro e Jô Soares. Um time perfeito para uma obra extraordinária. O vinil de 85 se foi como água para o mar. As margens enfim se encontraram. Sete depois, em 2002, a Biscoito Fino, com o Olívia Hime à bordo, trouxe de volta o que já era ausência mais que sentida. E mais, um bônus com Tom Jobim em “Autopsicografia”. As poesias escolhidas, ou parte delas como “Passagem das horas”, “O rio da minha aldeia”, “Segue o teu destino”, “Meantime”, “Na beira deste rio”, “Livro do Desassossêgo”, e outras contemplam a escolha dos músicos, o que mais “toca” em cada um (sim, tempo presente) e em cada intérprete. Um disco daqueles que a gente tem que ter no player, no Ipod, no MP3, no pen, onde for possível ter, tem que ter. Fernando Pessoa. Não é necessário dizer ou escrever mais nada.


Eugénia Melo e Castro: Portugal bem brasileiro

eugenia

É possível que Eugénia Melo e Castro tenha mais do Brasil que a grande maioria dos artistas portugueses. A afirmativa é arriscada e talvez equivocada, mas há em Eugénia uma espécie de brasilidade latente e real. Nascida no interior de Portugal, em Covilhã, e filha de escritores, teve na arte a razão do seu caminhar desde sempre. Os estudos, os primeiros trabalhos, sempre a ligação com a arte, com a imagem, com a música, com os movimentos de linguagem e expressão. E a partir do seu envolvimento com a vida artística que seu encontro com Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Simone e Milton Nascimento que esse Brasil nasce dentro do seu espírito artístico, em especial o de cantora. Gravou um disco com canções de Chico Buarque, Desconstrução, com personalidade e autoral. Disco emblemático. E não deixou para trás uma das suas expressões mais encantadoras: a poesia. A união da poesia de Vinícius de Moraes com a voz encantadora de Eugénia rendeu o belíssimo e sensível Eugénia Melo e Castro Canta Vinícius de Moraes. Uma integração perfeita entre as linguagens, os músicos envolvidos e um repertório clássico com canções ainda que conhecidas em demasia, ganham força com o talento e a sensibilidade de Eugénia e de todos que participaram do álbum. Há um destaque todo especial: a participação de Tom Jobim. Está presente em “Canta, canta mais”, Egberto Gismonti em “Modinha” e “Canção do amor demais” e ainda para dar um sabor bem brasileiro instrumentistas como Wagner Tiso, Paulo Moura, Zeca Assumpção, Marco Pereira e Paulo Jobim entre tantos outros. Seu timbre envolve da canção com a suavidade que cada uma possui também envolta pela bela poesia de Vinícius.