Fito Paez: No sé si es Baires o Madrid

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Uma confissão: custei bons anos, esses estão acumulados lá atrás no passado, para gostar do Fito Paez. O motivo exato nunca soube tampouco percorri corredores ou subi escadas para saber. Então, um dia a capa de No sé si es Baires o Madrid  me chamou a atenção, as cores, o p&b, o Baires, o Madrid. Uma conjunção visual perfeita e ao mesmo tempo discreta e criativa. Não pensei duas vezes, o cd da compra na loja para o player aconteceu com rapidez. Não me arrependi. É um belo disco. O muro que havia erguido em setenta minutos ruiu.Felizmente. Um repertório com seus clássicos gravados no Palacio de los Congresos em Madrid (2008), convidados da grandeza de Pablo Milanés – “Yo vengo a ofrecer mi corazón” -, Joaquin Sabina – “Contigo” -, Gala Evora – “Un vestido y un amor” – e outras canções como “El amor después del amor”, a encantadora “11y6”, ou a estonteante “Mariposa Tecknicolor” aquecem o coração. Com certeza nos torna mais leves, mais afeitos à vida, a levantar âncora e seguir até o fim do mundo. Em Baires o Madrid o todo se completa e se faz presente. ( e pensar que tudo começou com a capa desse disco…)

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Estrella Morente: Amar en Paz

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Uma proposta muito simples: repertório de músicas brasileiras na voz de Estrella Morente e com o violão de Niño Josele tecendo as teias harmônicas. Uma reunião de flamenco com música popular brasileira não soa tão original tampouco tão frágil como possa parecer a alguns críticos. O sonho de Fernando Trueba, o idealizador e tudo o mais da obra, se uniu a outros já realizados por ele, tanto com Estrella quanto com Josele na homenagem a Bill Evans. Foi quando a cantora gravou Francis Hime e enfim pisou o chão do Brasil. A Espanha tem muito a ver com nossas terras. Sua influência em nossa cultura é definitiva, e ao longo dos anos tem-se mostrado fértil. E não apenas por aqui, se não em toda América. É comum encontrar Diego El Cigala, por exemplo, na Argentina, gravando tangos. E o flamenco é um gênero que envolve quem com ele se relaciona. É impossível ficar em silêncio absoluto. Amar em Paz não é, no entanto, um disco de flamenco. É música brasileira vertida para o espanhol sob o comando do talento de Estrella. Um apanhado musical que vai cortando os anos e trajetórias, começando por Antônio Carlos Jobim/Vinicius de Moraes, Radamés Gnattali, Pixinguinha/João de Barro, Francis Hime/Chico Buarque, Milton Nascimento/Fernando Brant, Dolores Duran, Paulinho da Viola, Álvaro Nunes/Otavio de Sousa. Um leque de décadas e gêneros que os acordes do violão de Niño suaviza. Culturas e leituras que se encontram. Sem medo de se assumirem. Quem sabe mais desses encontros que um lê o outro através das águas dos oceanos não possa trazer como o título do álbum – Amar em Paz – justamente a paz que tanto desejamos entre todas as gentes do mundo. Seja esse disco neste post uma declaração de tolerância, de compreensão, de humanismo, de paz diante dos acontecimentos de ontem.

Luís Eduardo Aute & Silvio Rodriguez: Mano a Mano

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Um encontro entre o espanhol Luís  Eduardo Aute e o cubano Silvio Rodriguez realizado na Plaza de Toros – Las Ventas em Madrid em 24 de setembro de 1993 e ao escutar tem-se a sensação de ser um show que assistimos ontem. Não é necessário comentar sobre ambos. O que significam e o que são. Escutar o disco na íntegra, está logo ali acima, diz tudo. E a nós, uma celebração à vida que chega em forma de canções e um público que envolve a ambos. Inesquecível.

Pablo Milanés e Victor Manuel: en blanco y negro

pablo

Duas histórias, duas trajetórias, várias estradas e caminhos. Um disco e outras tantas histórias e caminhos. Pablo Milanés, cubano, e Victor Manuel, espanhol. Pablo tem em seu sangue os trovadores, a arte popular, os cantos dos povos, que o forjaram como cantor e compositor, ainda que tenha anos de formação acadêmica do Conservatório Musical de Havana. esteve sempre nas ruas, nos bares e nos bairros da cidade a sua música, foi onde encontrou a diversidade e a riqueza sonora do país. Também recebeu influências vindas da música norte-americana, tão comum naqueles anos 50 em Cuba, sem jamais deixar de lado a música tradicional do seu lugar. Até se tornar um dos nomes, com Silvio Rodriguez, da Nueva Trova Cubana. Movimento que sacudiu a música do pequeno país das águas do Caribe. E ganha o mundo, o Brasil e por aí segue seu destino de trovador. De cantor das causas sociais e da vida. Victor Manuel não diferente. O espanhol das Astúrias é um revolucionário da canção. junto com Ana Belém representam a transição musical da Espanha. Começou também cedo, aprendeu harmônica, mas foi em Madrid que estudou e passou a fazer parte do cenário musical como cantor e depois como compositor. Identificado com os movimentos mais à esquerda, é um nome que transforma sua canção em fortes elementos de contestação ao autoritarismo. Vai para o exílio, e se espalha pelo mundo com sua obra. Pablo e Victor têm muito em comum. São conscientes, críticos, sensíveis, acreditam na vida, na transformação pela paz, conquistam plateias. Juntos, são mais que dois. En blanco y negro não é síntese de um e de outro. Não é o resumo de suas artes. É mais que tudo, encontro. Encontro de sensibilidades que andam e atuam no mesmo sentido. Se complementam. São transformadores. O tempo não para e eles mostram que não deve mesmo parar. Eles avançam e nos convidam a avançar. O repertório clássico dos dois apenas carimba a passagem para o avanço da paz, da vida, das transformações. Exagero? Não, nenhum exagero. Apenas uma realidade a ser vivida.

Espanha, Argentina e México: Raíz

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Encontros são comuns entre artistas. Nem sempre há “química” entre eles. Alguns grupos funcionam bem como grupos. Solos, cada artista pode se dispersar e não produzir o que se espera. Não é regra, apenas um pensamento que vai sendo escrito ao natural enquanto no player desliza o Raíz com a mexicana Lila Downs, a espanhola Niña Pastori e a argentina Soledad Pastorutti. É de 2014, chega aqui com algum atraso. E com marcas que não deixam dúvidas: indicações ao Grammy como melhor disco de folclore e disco do ano. Levou o de melhor na categoria folclore. este 2015 se apresenta como indicado como melhor álbum pop latino. Não é pouca coisa mesmo. O que importa, na verdade, é a razão de o encontro acontecer. Através dos pontos comuns em culturas aparentemente distintas porém com raízes, para exagerar mais um pouco, muito semelhantes, as três cantoras se aproximaram da raiz musical espanhola. Um repertório clássico de cada país de origem, e a história começou a ser contada. As 16 canções do disco comporta as respectivas identidades como se todas elas fossem uma única identidade, preservando suas origens. e para validar a proposta, a busca do passado musical encontrou o presente. Sonoridades que não se afastaram entre elas, entre si e entre o público. “La raíz de mi tierra” foi o primeiro passo, e funcionou bem. Foi o sinal de que as harmonias espanholas, mexicanas e argentinas mais que pontos comuns possuem a generosidade da integração. O destaque fica para o tango “El día que me quieras”, “Sodade” e poderia ficar listando outras canções. O disco é um documento valioso pelo que apresenta e pelo que propõe. A “química”? Bom, deixo para quem escutar Raíz decidir.

Serrat & Sabina: dos pájaros de un tiro

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Dois ícones da Espanha: Joan Manuel Serrat e Joaquín Sabina. Cada um com seu nome gravado na história e no imaginário do público, nas apenas o espanhol mas de todos os lugares por onde passam. O catalão Serrat é nome emblemático na resistência ao período de Franco, onde além do exílio teve canções censuradas. (Está aí uma grande reflexão: a censura à Cultura. Todo regime de exceção começa perseguindo os artistas, de todas as formas, aqui no Brasil em nada foi diferente. Depois,, quando supostamente retorna a Democracia e caem os censores, a “liberdade” reassume seu posto, e o que se vê nos orçamentos governamentais: a Cultura nunca é prioridade. Para se pensar.) Aproxima-se da América Latina, grava trabalhos com o escritor Mario Benedetti, põe seu nome no Brasil, trabalha com Ana Belén e Victor Manuel, igualmente representativos da música espanhola.
Joaquín Sabina, andaluz de nascimento, pouco mais jovem que Serrat, porém com o mesmo sentido de vida: resistir ao autoritarismo. Exilado em Londres, se entranha na Cultura cinematográfica, no teatro e, claro, na música, com letras viscerais. Fica também mais próximo da América latina. Possui trabalhos com Fito Paez, e se alça como um artista acima de qualquer rótulo. Um transgressor criativo e instigante.
A união de Serrat e Sabina
Em 2007 ambos se reúnem e começam a trabalhar juntos em dos pájaros de um tiro. Disco que percorreu diversos países e teve várias novidades. Entre elas, um cantando canção do outro, um compondo para o outro, canções inéditas, novas versões, convidados nos países visitados e um vigor extraordinário envolvendo as 18 canções do repertório gravado. O cd disponível é o do show realizado no Palácio de Desportes de Madrid, realizado nos dias 18, 19 e 20 de setembro de 2007. O que dizer? Absolutamente nada. Apenas uma sugestão: escutem. E não tenham medo em apertar o repeat tantas vezes desejarem.

Diego El Cigala, espanhol do mundo

Cigala

Diego Ramón Jiménez Salazar, madrileño de 27 de dezembro de 1968 – amanhã cumpleaños! – mais conhecido por El Gigala, é um virtuose. Do flamenco ao tango nada é exagero em seu trabalho único em toda a sua plenitude criativa. O disco de 2003, com o pianista cubano Bebo Valdés Lágrimas Negras não deixa nenhuma dúvida. Pura fusão de ritmos da ilha caribenha com as nuances do flamenco faz com que todas as suas faixas pulsem, vibrem em nosso corpo, em nossa pele como se fossem parte da música. Qualquer disco com a sua marca, com a sua assinatura é sinônimo de sensibilidade. Cigala canta com alma. Transborda em emoção. Nada escapa, nenhum acorde é casual. Profundo, integra o seleto grupo de artistas capaz de pacificar a vida.

Cigala&Tango

Em 2010, gravou Cigala&Tango ao vivo no Teatro Gran Rex, em Buenos Aires com o argentino Andrés Calamaro em participação especial. repertório clássico, há Gardel nele, por exemplo, arranjos e interpretações soberbas. mais uma vez, um quê de flamenco se mescla ao tango. Diego envolve quem o escuta, quem o assiste. Para ele, não existe nenhuma fronteira. Da Espanha para o mundo. Sabe olhar para frente. E convida a todos nós a segui-lo.

www.youtube.com/watch?v=2xXSA8w_dEk

www.youtube.com/watch?v=3nsUP6zy8To

www.youtube.com/watch?v=8K0EYAgZLiw

www.youtube.com/watch?v=DeK_IYrixT8

Fotos: capturadas na Internet.