BB KING: * 1925 + 2015

1315202-master-150x201

Manhã azulada, sol tímido, poucas nuvens. O outono avança lento, a natureza na contramão acelera o colorido da estação, as ruas começam a viver o seu dia. E ele surge diante de mim sem a mesma precisão de todos os outros dias. BB King partiu. Perdas são fulminantes. Ausências em que a voz jamais retornará a ser escutada, ouvida. Não haverão mais respostas. A vida quando vivida traz junto um golpe fatal, conhecido e terrível. BB King partiu. O homem do Mississippi, que nasceu em fazenda de algodão, e que fez do violão seu instrumento quando ainda adolescente para logo estar já tocando em rádios locais, em programas como o de Sonny Boy Willianson, outra lenda, foi quem eletrificou o blues. Foi quem deu uma nova sonoridade ao blues. Foi quem fez do blues coração, alma, pele e ossos. O lendário Robert Johnson estava (está) sempre presente assim com BB King. Cada em seu tempo. Cada um com seu sangue “blues”. Acústicos ou elétricos, pouco importa, importa que eletrizaram públicos, consciências, um jeito de ser e tocar, de falar, de dizer, de escutar, de ouvir. Com sua guitarra criou e deu essência e vitalidade a tantos outros que vinham junto e chegaram depois. Ainda que o sucesso tenha vindo nos anos 50, foi ao abrir shows dos Rolling Stones, cujos primeiros discos são realmente pedras rolantes preciosas de blues, que passou a ser conhecido e reconhecido por outros públicos. Ele e sua eterna “Lucille”, como chamava sua companheira de harmonias com pouca notas musicais. Qualquer lista que se faça, BB King está (estará) nela. A revista Rolling Stone em 2003 escolheu os maiores guitarristas de todos os tempos. O terceiro, ele, ficando atrás de Jimi Hendrix e Duane Allman. Tão vasta e densa sua discografia como quem influenciou, entre eles Eric Clapton, com quem gravou belo disco. Não listo, não menciono nenhum de seus trabalhos. Você pode escolher qualquer um deles e deixar o tempo correr em sua direção escutando-o. BB King é isso e muito mais. O sol penetra mais forte pela janela do meu estúdio. Ilumina a tela do pc, formando reflexos disformes. As palavras seguem o cursor quase que de forma mecânica. Olho para rua. O céu está completamente “blue”.

NEW YORK - APRIL 18:  Blues Legend B.B. King performs his 10,000th concert at B.B. KIng Blues Club & Grill in Times Square on April 18, 2006 in New York City. King is a nine time solo Grammy Award winning musician who started his career in 1947.  (Photo by Astrid Stawiarz/Getty Images)

ttps://www.youtube.com/watch?v=E5_j91FjsXM

Jimmy Rogers All Stars Blues Band

Jimmy

As histórias de músicos que tocavam blues ou jazz pelas noites em bares e clubes inundam não apenas a realidade de uma época como também o imaginário de muitos de nós. Com Jimmy Rogers não diferente. Nem poderia ser. A história mantém certo rigor com esses músicos que desafiavam o próprio tempo e faziam música por paixão e por sobrevivência. Rogers aprendeu no seu Mississippi desde cedo a tocar harmônica, e depois foi para a guitarra. Caminho do blues. Apesar de já tocar com alguns nomes consideráveis, e participar de gravações sem crédito algum, somente ao fim dos anos 40 com Muddy Waters e Little Walter é que a sua história começa a ganhar outra história. E em 50 faz sucesso com  “That´s all right”, em disco solo. Ainda, no entanto com Waters alguns anos mais até seguir solo, com alguns outros companheiros de vida nas gravações. Estoura com “Walking by myself” e o fim dos anos 50 também é o fim do interesse do público pelo blues. Pelo menos em nível de escutar blues com intensidade. Antes de sair de cena, integra a banda de Howlin´ Wolf. Sair de cena significou para Jimmy ser motorista de taxi e proprietário de loja de roupas. Uma mudança visceral em sua vida, que seria ainda mais violenta em 68 quando teve seu patrimônio destruído por incêndio quando dos distúrbios que geraram o assassinato de Martin Luther King. Um golpe não apenas na vida de Jimmy, mas de todos os que sempre desejaram (e desejam) a paz, a vida sem preconceitos, sem intolerância, sem racismo, sem nada que possa sufocar o ser humano. Um golpe na igualdade social no emblemático 1968. Ao retornar a sua vida, a música volta também, inicia uma carreira solo, e o interesse aos poucos também gera novo público. Grava esse antológico Blues Blues Blues, onde desfilam instrumentistas do tamanho de Eric Clapton, Lowell Fulson, Jeff Healey, Mick Jagger, Taj Mahal, Jimmy Page, Robert Plant, Keith Richards e um surpreendente Stephen Stills. Um disco doce, onde Rogers fica quase escondido entre as “feras”, mas que desperta para uma sonoridade tranquila, com belíssimos solos de guitarra e canções maravilhosas. No entanto, Jimmy Rogers, um grande músico, de pouco público em sua vida, não pode “curtir” o disco em sua plenitude. Pouco antes de o lançamento ser realizado, partiu. Este registro é um presente. História para ser contada e vivida em cada faixa do disco.

Eric “Forever Man” Clapton

Eric

Mais uma dessas compilações ou coletâneas que abraçam períodos da carreira de um superstar, talvez de toda a trajetória, pinçando aqui e ali canções de sucesso com outras de significado e muitas sem nenhuma repercussão maior. Apenas tem a assinatura do astro. Forever Man não traduz de forma alguma Eric Clapton. O nome do álbum – que pode ser duplo ou triplo em sua edição de luxo – faz justiça a Eric, que um dia viu seu nome grifado nos muros e paredes de Londres como Deus, da guitarra. Época do Cream, com Jack Bruce e Ginger Baker. Ou será do Blind Faith? O disco triplo pode ser dividido em Blues, Ao Vivo e Estúdio. Confesso que ao escutar cada um deles, claro que há passagens maravilhosas, não consegui me conectar com o todo que é apresentado. A clássica “Tears in heaven”, por exemplo, e não lembro de que disco é a gravação que está nesse, é inferior ao que ele apresenta no Guitar Festival Crossroads. Há uma incômoda guitarra na canção, quando, isso para mim, apenas ao violão a sonoridade é mais sincera, mais honesta, mais sensível. Outros clássicos desfilam, as parcerias com BB King e J.J. Cale também, e estão nelas quem sabe o melhor dos três cds e nas passagens ao vivo mais consagrados hits como “Badge”, “White Room”, “Sunshine of your love”, “Wonderful tonight”, “Layla” e “Cocaine”. Para ficar apenas com essas. Parece-me que a ideia de apresentar aos admiradores de Clapton um painel mais vivo e intenso de sua obra se transformou em um todo sem unidade tanto quanto as performances que se diluem a cada faixa tocada. Um disco duvidoso,  apenas para ser de coleção e caçar níquel à gravadora. Mr. Clapton não merecia isso.

Ian Anderson: Twelve dances with God

Ian

A longa lista que faz parte de “minha vida” musical possui nomes que realizam fora dos seus grupos, antes durante ou depois deles, trabalhos relevantes. Ian Anderson, a flauta mágica do Jethro Tull, é um desses nomes. Cito, de passagem, o baterista Ginger Baker. Integrou o power trio Cream, que tinha Jack Bruce no baixo e Eric Clapton na guitarra. Baker produziu álbuns fantásticos na África, e algum dia estará por aqui. O Anderson é uma figura carismática, talentosa e inquieta. Dono de excepcional performance à frente do Jethro sempre foi capaz de canalizar sua criatividade para além dos sopros. Sua magia é ser justamente inquieto. Em Divinities: Twelve dances with God com Andrew Giddings cometeram uma pequena obra-prima. São 12 faixas instrumentais influenciados por diferentes tradições musicais étnicas: Celta (“In the grip of stronger stuff”), espanhola (“In the pay os Spain”), africana (“En Afrique”) e outras que remetem a orações (“In a stone circle”) e sentidos e significados para além das sonoridades e ingressando na espiritualidade. É um disco denso e também suave. Capaz de transformar os instrumentos como parte do próprio espírito do todo que se cria e se renova. Inspirador e forte, Ian Anderson é uma mago da cores sonoras e faz de cada canção um motivo para celebrar a vida. (Abaixo, o disco na íntegra.)

Miniconto “A Estação”

estaçãoA estação não atrai mais os pássaros. As luzes apagadas apenas recebem o sol da manhã. As telhas descansam seus vincos tingidos pelo sereno. Deixam vazar um ou outro pequeno vão por onde é lapidada a lembrança. Há muito a pele da madeira e os seus feixes estavam secos. Todo o dia ali era noite. Não a vemos como os velhos a vêem em suas memórias, hoje procurando refúgio. Elas nunca mais estarão abertas como antes, estão misturadas como retalhos tecidos à mão. Mas, sempre há um nervo que se abre e deixa fugir um pedaço da alma. Depois, retorna às pressas com medo do horizonte tenso e em brasa do lado de fora. O que era turvo aos olhos torna−se mais turvo sobre as linhas refletidas na água dos córregos, margeando o verde desse silêncio. A estação não atrai mais do que relâmpagos e temporais. Depois, passam, deixam rastros, ferrugens e cicatrizes azuladas como as veias que recortavam os braços do último maquinista. Ali, o trem parou, e o tempo seguiu seu destino. A mudez das sombras, coberta de cinzas, fundiu−se com os trilhos e os dormentes. Não há mais como voltar. O esquecimento é apenas um território cujo mistério nasceu quando caiu o último letreiro de viagem com as histórias de muitas vidas.

Foto: Fernando Rozano, estação ferroviária de Rio Branco, Uruguai.

www.youtube.com/watch?v=JxPj3GAYYZ0

Música: Eric Clapton – “Tears in heaven”

Perdemos Jack Bruce

jackbruce

A morte de Jack Bruce nos deixa mais embrutecidos. Mais tristes e vazios. Aos 71 anos, por problemas hepáticos – ele havia há anos feito transplante de fígado – o escocês de Glascow nos deixou. A história do rock, da música tem o seu nome gravado em letras maiúsculas. Nos anos 60 formou com o guitarrista Eric Clapton e o baterista Ginger Baker talvez o maior trio que já existiu. Lembro que justamente lá pelos anos sessenta, uma revista norte-americana escolhera os melhores instrumentistas do ano. Os três, que se chamavam Cream, fora, escolhidas em seus instrumentos. o baixo de Jack era extraordinário, dava um ritmo e uma densidade a cada música sempre com a sua criatividade reinventando arranjos e solos únicos. E pensar que certa feita, esse Cream fantástico, empresariado por Robert Stigwood, o mesmo dos Bee Gees, fazia com que abrissem os shows dos irmãos Gibb.

Se 1968 foi emblemático em todos os sentidos, o anos que nunca terminou e não terminará, por essas coisas da vida, foi o ano do fim do Cream. Composições clássicas como “I feel free” e a híper “Sunshine of your love” são inesquecíveis. Assim como o disco Weels of fire ou os seus shows de despedidas.

A carreira solo de Bruce não foi bem sucedida como no tempo do Cream. porém, fez a música que gostava de fazer. Com um quê de jazz e blues, sempre inovando e criando, deixa marcas profundas. Esteve em Porto Alegre com a sua Big Blues Band em 2012 – não assisti!.jackbruce_2

Abaixo, um pouco do trabalho único e fantástico de Jack Bruce.

www.youtube.com/watch?v=OUo3Nv7k4R0

www.youtube.com/watch?v=U0cTwy_p8fU

www.youtube.com/watch?v=3OcOTzVARDA

Fotos: Reuter/Brendan McDermid.