Charlie Haden: The Montreal Tapes

Charlie Haden

Se Nelson Rodrigues certa feita afirmou que toda unanimidade é burra a frase não se aplica a Charlie Haden. Mais que ser unânime, o contrabaixista fez escola em suas linhas melódicas de baixo, tornando-o não apenas um compositor mas um instrumentista dos mais requisitados em vida. Perdemos Haden em 2014. todavia, é um músico que permanece muito rico e vivo dentro de cada canção sua ou que participa que ouvimos. o contrabaixo único. E Charlie foi de uma versatilidade visceral, o que comprova seu talento. A grande maioria o identifica com o jazz, e com razão. Se olharmos um pouco mais fundo em sua biografia, vamos encontrar passagens no universo country, folk, outros gêneros tão distintos como os africanos, latinos e fez a sua estrada também em posições políticas fortes sempre a favor do humanismo e da humanidade. Gravou com Egberto Gismonti e Jan Garbarek o fabuloso Folk Songs, e à lista pode-se acrescentar Joni Mitchell, Ricky Lee Jones, Keith Jarrett, Ornette Coleman, o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba, Plastic Ono Band – Yoko Ono -, Paul Motian, Carla Bley e Pat Metheny entre tantos mais. No Festival Internacional de Jazz de Montreal de 1989, tocou com o trompete de Don Cherry e a bateria de Ed Blackwell. Um disco extraordinário. Sensitivo. Puro. Um disco Charlie Haden de ser. Abaixo, Haden e suas canções e interpretações em vários momentos.

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Gisbranco: Flor de Abril

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Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco. Bianca é filha de Egberto Gismonti e isso por si só deveria ser uma apresentação. Para ela não é. mesmo com todo o amor e influência paterna ela juntou-se a Claudia e seguiu caminho. Dois pianos. Muitas ideias. Música. O Duo assume sem medo um repertório infinito: Heitor Villa-Lobos, Baden Powell/Vinícius de Moraes, Edu Lobo/Capinam, Hermeto Pascoal e Chico César. Flor de Abril não se resume a leitura especial desses compositores, possui obras próprias, e personalidade mais que própria. Talvez muito mais conhecidas no exterior que no Brasil, Bianca e Claudia têm muitos amigos que participam de suas obras: Carlos Malta, Robertinho Silva, Chico César, já tocaram com Ná Ozzetti, Marcos Suzano e músicos cubanos. Os teclados da dupla são incansáveis na busca – e no encontro – de texturas originais que marcam cada nota. As vocais que acompanham cada faixa do disco segue o mesmo caminho. A linguagem e estética ficam sempre em primeiro plano e classificar qual o gênero é algo indefinido para quem apenas coloca a criatividade à frente de qualquer rótulo (jazz à brasileira?). Ambas fazem música do mundo, e a sua música. O grande valor do trabalho é esse: identidade e autenticidade.

Hoje, 24 de junho está fechando 80 anos da passagem de Carlos Gardel entre nós. Desaparecido em acidente aéreo na cidade de Medellín, na Colômbia, Gardel permanece mais intenso e mais vivo com sua arte e seu jeito único de cantar tango. Neste espaço, sempre há Gardel. E sempre haverá tango. É e-terno.

Dedilhando o Brasil com Marcus Bonilla

Dedilhando o brasil

Marcus Bonilla é um violonista que trabalha seu instrumento como se fosse um artesão. Na verdade, é um artesão da música. Com formação na área, é Mestre em Musicologia – Etnomusicologia, é Bacharel em Violão pela UFRGS e possui pós-graduado em Educação Musical pela UDESC, Marcus estendeu sua experiência formal em trabalhos mais orgânicos e tecidos com o sentimento de quem vai semeando o campo com precisão e acerto. Sabe a hora da colheita, sabe o que e como plantar. Dedilhando o Brasil é um disco solo, em que o violão e o repertório dialogam tendo Bonilla como mediador. É um trabalho seguro, inspirador e tranquilo. Ao olhar com maior atenção compositores como Dilermando Reis, Egberto Gismonti, Paulinho Nogueira, Luiz Bonfá e Antônio Maria, Heitor Villa-Lobos e Alexandre Sapienza, além de três peças autorais, ele revela sua universalidade musical e também não deixa de lado suas influências. As dezesseis faixas parecem passar rápido demais tamanha é a qualidade de suas cordas. Neste disco, o violão é a linha mestre apenas tendo o violoncelo de Raquel Alquati em “A propósito” do compositor. premiado em 200O com o Prêmio Açorianos de Música Instrumental, o seu trabalho seguinte Caminhante do Céu Vermelho é uma mescla de música clássica, popular, new age e a introdução de outros instrumentos na elaboração dos arranjos e gravações. Há uma linha coerente e de uma estética própria em seu caminho a ponto de deixar de lado, ao menos por ora, outras composições de outros autores e partir para um trabalho mais autoral. O resultado pode ser ouvido no site http://marcusbonilla.com.br Sua maturidade está à disposição e seu talento suave tece esses momentos com sensibilidade.

Egberto Gismonti, do Brasil para o Universo. Sem exagero algum

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Filho de Carmo, pequena cidade do interior do Rio de Janeiro, Egberto Gismonti é hoje um dos maiores compositores e instrumentistas do país. graduado em conservatório, não limitou seus estudos apenas ao acadêmico. Passou por flauta, clarinete, violão e piano e deles para as somas de influências dos gêneros: música popular + folclore brasileiro + erudito. O resultado todos sabem, a primeira frase ali em cima anuncia sem exagero algum. (Ano passado, fechando o festival de violão, se a memória não estiver me traindo, aqui em nossa Universidade Federal, assisti-lo foi um momento singular e mágico. Flutua-se ao se entranhar em suas criações harmônicas e impossível sair delas. Para que sair?) Depois, a Europa. Novos conhecimentos, novas influências, novas composições, novos parceiros e trabalhos que hipnotizam sem o menor esforço com Charlie Haden, Jan Garbarek, Naná Vasconcellos, Hermeto Paschoal, Airto Moreira e Flora Purim. Jazz, bossa nova, festivais, discos na norueguesa ECM, um pé pela latino-américa Fito Paez e Liliana Herrero em El Viaje, uma bela e insinuante trilha sonora, ou será em New Tango? (Na dúvida, aposte em El Viaje). O experimentalismo chega ao natural e seus discos ganham cada vez mais densidade. Folk Songs é sublime, Dança dos Escravos, sensível, e qualquer um que possamos escolher é magia além de qualquer linha do horizonte. Egberto Gismonti tem em sua carteira de identidade o registro de nascimento aqui no Brasil, mas há muito tempo pertence ao Universo. Para escutá-lo, o silêncio é a melhor companhia. Suas sutilezas estarão visíveis em nossas almas.



Fain Mantega: o folclore e o contemporâneo na música argentina

Fain

Há muito a música contemporânea pede socorro ao folclore. Aos ritmos mais tradicionais. Isso em todo o mundo. Não raro se escuta mesclas de blues com rock, do erudito com o rock. Basta lembrar o chamado rock progressivo do Yes, do Emerson, Lake & Palmer, do Focus, exemplos da mistura com passagens memoráveis. Em nossa América não é diferente. Os ritmos desde a dominação espanhola se misturam. O folclore, o indígena, todas essas sonoridades acabaram se unindo e criando outras tantas sonoridades. Muitas delas criativas, outras nem tanto. Muito trabalho de recompilação do folclore foi realizado, na Argentina por Leda Valladares, no Chile, por Violeta Parra. Aqui em nosso pampa quanto da nossa cultura da terra passa por Paixão Cortes e Barbosa Lessa. Não significa, no entanto, a banalização da cultura musical. Muitas vezes penso que o estado virgem do folclore deva assim permanecer, em outros momentos saúdo o encontro das artes. E de contradição em contradição, vou descobrindo álbuns e nomes que procuram canalizar essa energia e conhecimento com criatividade. Assim, caiu-me em mãos pelo amigo Carlos Branco, da Branco Produções, um cd do Duo FainMantega. Na capa está escrito música contemporânea argentina, tango e folclore. Na contracapa, críticas positivas, inclusive uma assinada pelo nosso Egberto Gismonti e muito entusiasmado pelo desempenho de Paulina Fain, flautas, e Exequiel Mantega, piano. Com fortes influências colhidas no tango, no próprio folclore, no candombe uruguaio, na música popular brasileira, no erudito, o Duo consegue captar um quê de novo e mostra que muitas dessas mesclas podem produzir trabalhos que levam o público a buscar conhecer melhor a sua própria cultura. Com linguagem e identidade próprias, Fain e Mantega mostram fôlego para a composição e leitura de mestres com Piazzolla, Chick Corea, Keith Jarret, além, claro, dos compositores argentinos. Muito virtuosismo e talento corre pelas veias musicais da dupla. Quem ganha somos nós.

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www.youtube.com/watch?v=IbFi-PDBKjk

www.youtube.com/watch?v=KBkOIf3JFbs

www.youtube.com/watch?v=Kx6pFpEOL1E

www.youtube.com/watch?v=fGFFjVhpMbw

www.youtube.com/watch?v=pG8uNfvexPc

Foto e reprodução de capa capturadas na Internet.

 

Egberto Gismonti, inesquecível

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Ontem, a noite se fez inteira, completa. O salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul recebeu Egberto Gismonti para o show de encerramento do VI Festival de Violão realizado em Porto Alegre. Se o calor do dia não deu trégua, Gismonti domou o clima e o tempo. O filho de Carmo não cedeu um palmo às tentações do exibicionismo. Tranquilo, sereno, deslizou os dedos e mãos pelos violões e piano acústico. Solitário no palco, preencheu com seus acordes todos os espaços. Bem humorado, disse não lembrar os nomes da músicas, falou em Mario de Andrade, tocou no bis Villa-Lobos. Encantou com seu talento, carisma, virtuosismo e humildade. É um compositor e instrumentista superior. Faz do erudito e do popular linguagem única. O tradicional se funde ao experimentalismo, à improvisação – sempre com um quê de jazz -, e se torna suave à plateia, silenciosa, em reverência. Nada é exagero em Egberto Gismonti. Tudo se completa, se complementa, faz parte, nada se exclui. As quase duas horas voaram. Não parece ser justo. Tanto diante do salão lotado, o tempo não deveria ser medido. Os relógios deveriam ser abolidos. Uma noite inesquecível. Um verdadeiro presente que Porto Alegre ganhou. Felizes os que acolheram o presente. E o levaram em suas almas para sempre.

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

www.youtube.com/watch?v=wowz0KJITGc

Fotos: capturadas no http://www.culturart.com.uk