Ute Lemper: Punishing Kiss

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A escolha é múltipla: canto, teatro, ballet, cinema, teatro, artes plásticas. E todas estão corretas. Ute Lemper é a essência de cada expressão da arte. Sem concessões. Intérprete de primeira linha, as composições de Kurt Weill são um sopro de vida em sua voz. Assim como veste a pele e as entranhas tecidas à sensibilidade de Marlene Dietrich e Edith Piaf. Lemper é, no entanto, uma cantora. E isso é como se pudéssemos atravessar a linha do horizonte e descobrirmos que do outro lado as suas canções continuam pelo mar, pelas montanhas, pelas cidades, pelas estepes. Para quem pensa que seu canto está no passado, Punishing Kiss desfaz qualquer dúvida.

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Olhe com atenção o repertório na contracapa do cd. Nick Cave, Tom Waits, Philip Glass, Elvis Costelo. Atuais. Acentuam pontos de rock (participou da montagem de Roger Waters para The Wall em 1990 em Berlim na comemoração da queda do seu muro), de sinfonias, de introspecção, de criatividade.  Em comum, Weill. Todos eles têm suas veias carregadas de composições dramáticas, sombrias, feitas como uma luva para ambientes escuros, para o politicamente incorreto cigarro aceso, quem sabe a cerveja ou o vinho deslizando suave enquanto as notas musicais vão preenchendo os espaços. Não há nada que seja exagero no disco e o acompanhamento do Divine Comedy é magnífico. Ouça com toda a sua pele, coração e alma, feche os olhos e vá para onde os sonhos o levar.

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Rudderless: a William H Macy film

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William H Macy ao longo de sua carreira de ator nos presenteou com grandes interpretações. Filmes inesquecíveis como Seabiscuit ou Fargo, para citar apenas dois, até hoje permanecem em nossas memórias. Agora, Macy muda de lado. Passa a diretor e estreia com o drama Rudderless(2014). Tema complexo, ele tem o cuidado de não entrar em análises psicológicas ou de comportamento humano. O personagem de Miles Heizer (Josh) é estudante e filho do publicitário vivido por Billy Crudup (Sam) comete suicídio após assassinar seis colegas. Os dramas se sucedem na vida de Sam, e passados dois anos ele deixa de ser executivo de publicidade para trabalhar como operário da construção civil. Ao receber da ex-esposa o violão, fitas, cds e cadernos de Josh, a sua vida passa por outra reviravolta. Depois de trocar a imensa casa em que morava por um barco, ele começa e viver o mundo do filho. Mergulha em cada canção composta e gravada por ele e vai se identificando com as letras em particular. Frequentador de um bar, onde o dono acolhe músicos para tocarem, Trill, nada mais nada menos que William Macy, ele toca uma das músicas compostas por Josh. E impressiona Quentin (Anton Yelchin). A partir daí, a conexão entre os dois é intensa, as músicas começam a frequentar o palco do bar e formam uma banda. Até o dia em que a então namorada do filho (Selena Gomez) aparece em um dos shows e o questiona sobre tocar canções de Josh sem dizer de quem são as composições. O drama interior de Sam se intensifica. Retorna ao local onde o filho cometeu o crime e lá entra em catarse. A ida ao cemitério é outro desses momentos em que o seu interior busca mais que respostas, paz. O grupo se desfaz ao saber a verdade, e ele retoma a vida se desfazendo de tudo, e ao mesmo tempo se revelando aos outros personagens, entre eles Laurence Fishburne, como dono de uma loja de instrumentos musicais e com sonhos a realizar com sua mulher. A solitária imagem de Sam no bar de Trill cantando Josh e ele mesmo é significativa.
William Macy tem o cuidado de não fazer julgamentos, alguns personagens o fazem, e o sentido de seguir a vida, convivendo com tamanho drama, que não é apenas dele, mas das outras famílias também, que não aparecem no filme, deixa um oceano imenso de possibilidades de cada pessoa. Culpas são relativizadas ainda que Sam a carregue, a ex-esposa continua a viver apesar da dor. feridas podem ou não cicatrizar. Macy apenas nos mostra parte do drama e a forma como algumas pessoas lidam com ele. Quem sabe as respostas do diretor estejam nas letras e canções de Josh, talvez estejam em “viver” a vida musical do filho. Talvez. Estreia para ser conferida.

Song One or Once?

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A pergunta pode parecer despropositada. Não é. Pode até ser. Afinal, são filmes com conteúdos diferentes um do outro que, no entanto, se encontram em algumas de suas personagens. Em Once os protagonistas são na vida real músicos. Em Song One o sul-africano Johnny Flynn é quem assume o duplo papel seja na vida real seja na ficção. Anne Hathaway ainda que havia feito musical (foi Fantine em Os Miseráveis de 2012) está muito distante de Markéta Irglová, a tcheca que ilumina Apenas uma vez com sua doce personagem e que em vida cotidiana é compositora, cantora e pianista. É por aí que as semelhanças cessam. E a história assume outros rumos e segues bifurcações que o separam completamente da produção irlandesa.
A direção de Kate Baker-Froyland é sensível, conduz os atores com sensibilidade e faz com que cada um se revele ao extremo em suas interpretações. E isso vale para a veterana e sempre magnífica Mary Steenburgen, mãe do irmãos Franny (Anne) e Henry (Ben Rosenfield). Ela, uma arqueóloga em expedição no Marrocos, poucos antes havia discutido com o irmão e desde então o silêncio comprometia sua relação com ele, que deixara a Universidade para ser músico. Com seu violão, toca nas ruas, metrôs, e o folk vai incendiando sua vida até o dia em que sofre acidente e entra em coma. (Eis a semelhança com Once: músicos de rua, que acreditam no seu trabalho e sonham com o sucesso, o acidente não entra em nenhum momento no filme estrelado por Glen Hansard). Franny vai percorrendo os caminhos do irmão, frequentando os seus locais preferidos, assistindo aos shows que fazem a cabeça de Henry, e conhece o seu músico favorito James Forester, um cantor e compositor índie/folk. Por óbvio, a atração é comum aos dois, mas o que realmente é mais aprofundado no filme é a intensa procura interior de Franny por Henry. Talvez seja uma procura por sua própria identidade, talvez seja uma procura em reconhecer o irmão para além daquilo que imaginara dele e que foi desviado ao decidir ser músico. O acidente, o estado inconsciente é uma simbologia para a personagem de Hathaway, que no fundo foi a vítima do atropelamento, é ela que estava inconsciente até a revelação de henry através de suas canções, de seu diário, de seus lugares preferidos. Ao fazer e refazer tais caminhos e conhecer e se relacionar com Forester, e travar alguns duelos verbais com a mãe, que sua personagem ganha densidade e a atriz responde por inteiro as exigências do papel. Claro, Henry desperta, a vida continua e o final completamente aberto responde (ou não) o que o público deseja na relação entre o ídolo folk e a irmã arqueóloga. Um final que instiga a imaginação. Quanta a pergunta do título, bom, os dois, cada um com suas características próprias, claro.