Clarke Boland Sextet: Music for the small hours

Clarke

O texto sobre este disco está no encarte do cd, com a assinatura do crítico de jazz e música instrumental, escritor, professor e produtor José Domingos Rafaelli. A gravadora é a Biscoito Fino.

” É a sessão de gravação com o sexteto, realizada em 16 de junho de 1967, em Colônia, Alemanha, que foi lançado anteriormente pela Columbia alemã. Nessa ocasião, Clarke e Boland chamaram o americano Sahib Shihab (flauta), o belga Fats Sadi (vibrafone e bongô), os americanos Jimmy Woods (baixo e vocais) e Joe Farris (bateria e percussão) para completar o grupo. É curioso observar que no repertório predominam melodias e ritmos latino-americanos com arranjos de Francy Boland. Em “Ebony Samba” (Luiz Bonfá), “Lush Life” (Billy Strayhorn), “Tin Tin Deo” e “Lorraine” (Dizzy Gillespie), “Potter´s Crossing” e “Ensadinado” (Jimmy Woode), “Wives & Lovers” (Burt Bacharach), “Day by Day” (Axel Stordhal/Paul Weston/Sammy Cahn), “Love Hungry (Jack Sels) e “please Don´t Leave Me” (Sahib Shihab), realizam uma viagem musical através dos ritmos e músicas de Cuba, Brasil, África e Estados Unidos.

O caráter exótico-misterioso de “Ebony Samba” transparece nos solos de Shihab (flauta) e Boland (piano). “Lush Life”, obra-prima de Billy Strayhorn, cuja atmosfera reflexiva é valorizada pela flauta de Shihab, abriga o primeiro dos três vocais de Jimmy Woode nesta sessão, sustentado por discreto acompanhamento de Boland e Fats Sadi. “Tin Tin Deo” é uma explícita referência à música cubana sustentada pela efervescência dos bongôs de Sadi e Joe Harris. O destaque cabe a Shihab (flauta), cujo solo inflamado resulta em sugestivos efeitos de execução.

Após a abertura de “Please, Don´t Leave Me”, por Woods no baixo, seu vocal é entremeado por dois segmentos intercalados, nos quais Shihab desenvolve seu solo acompanhado pelos ativos bongôs de Sadi e Harris. “Potter´s Crossing” é um blues de 12 compassos valorizados pela improvisação de Shihab (flauta) com abundantes ideias e suingue, seguido por Sadi (vibrafone) e Boland (piano).

A conhecida “Wives & Lovers” é levada em confortável andamento 3/4 de valsa, na qual o arranjo de Boland criou passagens com interlúdios valorizados por Sadi e Boland. “Ensadinado”, cantado por Woode, seguido por Shihab com excitantes efeitos de execução em duo com Sadi, antecede o retorno do vocal de Woode no encerramento da faixa. “Lorraine”, dedicado à esposa de Dizzy Gillespie, é outro tema com tintas latinas explorado por Sadi e Shihab ativamente acompanhados pelo bongô de Harris. O standard “Day by Day” é outro vocal de Jimmy Woode, seguido por Shihab em solo vibrante, Boland ao piano e o retorno de Woode cantando. “Love Hungry”, uma introspectiva balada de Jack Sels, em clima de fim de noite, é um final mais que apropriado para Music for the Samall Hours. ”

Nestes dias de frio e chuva, uma coleção de músicas para a alma sonhar e vibrar.

Luís Eduardo Aute & Silvio Rodriguez: Mano a Mano

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Um encontro entre o espanhol Luís  Eduardo Aute e o cubano Silvio Rodriguez realizado na Plaza de Toros – Las Ventas em Madrid em 24 de setembro de 1993 e ao escutar tem-se a sensação de ser um show que assistimos ontem. Não é necessário comentar sobre ambos. O que significam e o que são. Escutar o disco na íntegra, está logo ali acima, diz tudo. E a nós, uma celebração à vida que chega em forma de canções e um público que envolve a ambos. Inesquecível.

Ry Cooder & Manuel Galbán: Mambo Sinuendo

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Ry Cooder sempre sinalizou um caminho transverso, um pouco mais além do convencional. Já havia realizado Crossroads nas fontes puras do blues. Uma trilha, certamente. Buena Vista Social Clube uma viagem através do tempo, um volta ao passado para que ele não se tornasse apenas uma passagem do tempo e ficasse recolhido ao esquecimento que o passado às vezes impõe. Ao trazer à luz solar antigos músicos, cantores, cantoras, compositores de uma Cuba antiga, trouxe junto história e muitas histórias. Uma passagem generosa pelo tempo, um passado muito presente. Um olhar sem medo para frente. Nessa leva de estar entre os instrumentistas e compositores cubanos, Cooder se encontrou com Manuel Galbán. Um velho e consagrado estilo criado por Galbán na ilha caribenha que permanecia desconhecida até mesmo por lá foi retomada pela dupla. Trabalho feito à base de guitarras, com quês de jazz e mesmo do pop, já que as influências de Henry Mancini e Nelson Riddle eram naturais no pequeno país nos anos 50 e 60, foi capaz de criar uma sonoridade diferente, com nuances havaianos, e toda uma técnica a serviço de ambos, fruto da qualidade musical dos dois. É um disco essencialmente instrumental embora haja algumas faixas com coros, muita percussão, e um linha de unidade perfeita o que traduz com exatidão o virtuosismo dos guitarristas. Não são guitarras ferozes, estilo heavy, são tranquilas e em seu tempo catalizadoras do estilo cubano de tempos passados que soam atuais. Integram o projeto de Ry Cooder o inesgotável baterista Jim Keltner, esse está merecendo um post especial, também nas batidas da percussão Joaquim Cooder, e um bando de talentosos e carismáticos músicos, em especial percussionistas, de Cuba. Um álbum que, muito mais que reverenciar Galbán, tem a felicidade de apresentar toda uma história musical que parecia confinada em algum tempo perdido do passado. É presente. Nos dois sentidos.

Pablo Milanés e Victor Manuel: en blanco y negro

pablo

Duas histórias, duas trajetórias, várias estradas e caminhos. Um disco e outras tantas histórias e caminhos. Pablo Milanés, cubano, e Victor Manuel, espanhol. Pablo tem em seu sangue os trovadores, a arte popular, os cantos dos povos, que o forjaram como cantor e compositor, ainda que tenha anos de formação acadêmica do Conservatório Musical de Havana. esteve sempre nas ruas, nos bares e nos bairros da cidade a sua música, foi onde encontrou a diversidade e a riqueza sonora do país. Também recebeu influências vindas da música norte-americana, tão comum naqueles anos 50 em Cuba, sem jamais deixar de lado a música tradicional do seu lugar. Até se tornar um dos nomes, com Silvio Rodriguez, da Nueva Trova Cubana. Movimento que sacudiu a música do pequeno país das águas do Caribe. E ganha o mundo, o Brasil e por aí segue seu destino de trovador. De cantor das causas sociais e da vida. Victor Manuel não diferente. O espanhol das Astúrias é um revolucionário da canção. junto com Ana Belém representam a transição musical da Espanha. Começou também cedo, aprendeu harmônica, mas foi em Madrid que estudou e passou a fazer parte do cenário musical como cantor e depois como compositor. Identificado com os movimentos mais à esquerda, é um nome que transforma sua canção em fortes elementos de contestação ao autoritarismo. Vai para o exílio, e se espalha pelo mundo com sua obra. Pablo e Victor têm muito em comum. São conscientes, críticos, sensíveis, acreditam na vida, na transformação pela paz, conquistam plateias. Juntos, são mais que dois. En blanco y negro não é síntese de um e de outro. Não é o resumo de suas artes. É mais que tudo, encontro. Encontro de sensibilidades que andam e atuam no mesmo sentido. Se complementam. São transformadores. O tempo não para e eles mostram que não deve mesmo parar. Eles avançam e nos convidam a avançar. O repertório clássico dos dois apenas carimba a passagem para o avanço da paz, da vida, das transformações. Exagero? Não, nenhum exagero. Apenas uma realidade a ser vivida.

Silvio Rodriguez & Pablo Milanes: música para além da pele

Alguns discos habitam o meu imaginário. Para sempre. Ainda que mais tarde possa tê-los em mãos, continuam criando em mim muitos sentimentos. Silvio Rodriguez & Pablo Milanes En Vivo En Argentina é um deles. Gravado no Estádio de Obras Sanitárias em abril de 1984, três décadas para trás, nunca o encontrei no Brasil. Não sei sequer se foi lançado aqui. Amigos comuns no gosto pela música latino-americana me passaram um “cassete” de um dos discos – é um álbum duplo. E desde então iniciei a “caça” ao En Vivo dos cubanos. Tantas idas a Argentina, Uruguai, Chile, Peru, Bolívia, Paraguai resultaram em fracasso. É bem verdade que descobri algumas pérolas da linguagem musical da nossa América, mas o disco dos dois dos maiores cantores cubanos nada feito. Confesso que havia desistido e me conformado com o cassete guardado e não transformado em cd pela tecnologia. Até que ano passado estive em Colônia de Sacramento, às margens do Prata, e vendo do outro lado, com certo exagero, Buenos Aires. Em Colônia, entrei em uma livraria em busca do livro Las cartas que no llegaron do Mauricio Rosencof, recomendado em artigo escrito em Zero Hora pela escritora Letícia Wierzchowski em outubro de 2011 e que guardara. Levei comigo uma cópia do texto, e ao entrar em uma livraria da pequena e belíssima cidade uruguaia, que um dia foi nossa, não apenas encontrei o livro como em um canto quase escondido estava o cd duplo dos filhos da ilha caribenha. Fiquei confuso e a alegria do encontro chegou com um silêncio que me fez tremer o corpo todo. Depois da euforia, comprei ambos e guardei na bagagem. Porto Alegre em breve estaria em meu cotidiano outra vez e deixei para ler e escutar em casa. Assim foi. Assim é. Do livro, houve desdobramentos. Letícia fez para a Record uma alentada e sensível tradução. Tenho os dois e em algum momento estarão em Chronosfer. O disco, foi para o Ipod e é companhia obrigatória. Não todos os dias, claro, mas está presente.

Cubanos

A Argentina recém havia saído de um dos seus períodos mais duros, de uma ditadura militar ferrenha, e o show dos cantores possui um grande sentido simbólico à época em que foi realizado e em especial aos momentos atuais, em que a aproximação entre Cuba e Estados Unidos quebram, enfim, o gelo de décadas e abre novas perspectivas em suas relações.
Os representantes da Nueva Trova Cubana, já conhecidos em nossas terras, desfilam um repertório maiúsculo e convidaram músicos argentinos a dividirem o palco. Junto com Eduardo Ramos, Frank Bejerano e Jorge Aragon, Leon Gieco, Piero, Victor Heredia, César Isella, Cuarteto Zupay e Antônio Tarragó Ros abraçaram cada canção com o sentimento de unidade latina. Estão presentes “Todavia Cantamos”, “Unicornio” “Ojala” “Yo pisare las calles nuevamente”, “Años” “Carito” “La vida y la libertad”, “Pobre del cantor” e “Cancion com todos”. Um disco sim para se guardar do lado esquerdo do peito. Um disco amigo. Um disco que lança a semente da esperança e da paz, que tanto necessitamos.

Hemingway, sempre

As ilhas

O imortal autor de O velho e o mar – Pullitzer em 1953 – e Adeus às armas foi um incansável escritor. Não por acaso Prêmio Nobel de Literatura em 1954. Sua estética é paradigma. Forma contundente de expressar através de frases curtas e objetivas, Ernest Hemingway viveu uma vida em toda a sua plenitude. E, também, todos os seus riscos. Pertenceu a um grupo de exilados ou chamados de “geração perdida” que, por vontade própria, viveu na intensa Paris dos anos 1920. Primeiro, como jornalista e, depois, como motorista de ambulância durante a Primeira Guerra Mundial. Era o início de sua carreira literária fulminante. Em direção ao sucesso. Não satisfeito, mergulhou profundamente na Guerra Civil Espanhola narrada em Por quem os sinos dobram. Foi o suficiente para ele? Não. Acompanhou de perto, como correspondente, a Segunda Guerra Mundial. Não bastasse, viveu em Cuba, havendo inclusive algumas matérias afirmando que teria sido espião norte-americano na ilha caribenha. De vida afetiva atribulada – foram quatro casamentos – conviveu com os então principiantes Ezra Pound e Scott Fitzgerald, por exemplo. Sua criatividade e talento estão presentes em pelo menos dez romances, 11 livros de contos e pequenas histórias e seis publicações não ficcionais. As ilhas da corrente é uma edição póstuma. Publicada em 1970, Hemingway acabaria com sua vida em 61, é um romance que narra as aventuras e tragédias da vida do pintor Thomas Hudson. A obra é dividida em três partes, que pode ser lida como pequenas novelas, que se entrelaçam, ou se fragmentam entre si, embora revelam toda a sua maturidade na escrita. “Bimini”, a primeira parte, se passa em ilha paradisíaca do Caribe; em “Cuba”, segundo momento, Hudson é um homem atormentado que perde o filho e reencontra a primeira esposa. O desfecho recebeu como nome de batismo “No mar” e tem elementos de guerra muito definidos na ação do personagem, verdadeiro caçador de submarinos nazistas durante o conflito dos anos 40. Considerado por muitos da crítica literária como a sua melhor obra pós-1961, As ilhas da corrente mantém a elegância de seu estilo capaz de prender até o menos interessado leitor. Um livro extraordinário e imperdível. A tradução de Milton Persson é precisa e um dos pontos de atração da leitura.

As ilhas da corrente

Ernest Hemingway

Editora Bertrand Brasil

558 páginas

Preço sugerido: R$ 59,00