Gillian Welch: Time (The Revelator)

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Ao ler uma crítica sobre o disco Time (The Revelator) em que o autor apenas afirmava que se trata de um disco de country, um disco de canções rurais, sombrio e que a autora é natural de Los Angeles e que isso poderia incomodar os mais puristas, ele logo arremata dizendo que não deveria incomodar. E tem razão Ross Fortune. É um trabalho sim com o gosto e o cheiro das montanhas, deliciosamente selvagem e perturbador e, sobretudo, belo. Gillian é autêntica em seu lento e suave tocar e sua voz parecer deslizar pelos campos da vida com toda a densidade de sua alma. Acompanhada por um guitarrista de primeira, David Rawlings, as canções fluem de tal maneira que pouco importa quando foi o ano do seu lançamento (2001), pois soa atual e sua riqueza transcende o tempo. A dupla enraíza ainda mais a música norte-américa em um levada poética onde as harmonias do violão casam à perfeição com as vocais de Welch e suas letras densas. Ross disse que Time “é um som profundo como uma mina e sombriamente escuro.” Assino junto com o crítico. Vale cada canção de Gillian o nosso tempo. (aqui, uma pequena coletânea com Gillian)

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Willie Nelson: Stardust & American Classic

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Willie Nelson, para muitos, faz seu caminho pelo country. Por um competente e talentoso country. Não deixa de ser verdade. O texano de 82 anos, no entanto, desatou esse nó do gênero em 1978 ao gravar Stardust. O que poderia ser improvável, aconteceu. É um divisor de águas em sua carreira. Ao passar para o lado de lá de Nashville e se entranhar na linguagem do jazz, Nelson revelou ser um intérprete superior. E ainda mais ousado por colocar o nome de Hoagy Carmichael e Irving Berlin, por exemplo, com seus standards consagrados no universo do country norte-americano.  E como todo criador que ousa, partiu para experimentalismos no blues e no gospel. Além de incursões no cinema, e em outras expressões da cultura. Se Stardust já parecia distante, Willie volta à estrada dos clássicos. American Classic o coloca em um nível ainda mais denso e a presença de Norah Jones e Diana Krall consolida seu status no jazz. Com o jeito Willie Nelson de ser, naturalmente. O mais impressionante é a naturalidade com que movimenta e parece ser talhado ao jazz. Mais tarde, fez com Wynton Marsalis um disco à semelhança de American com resultado mais que positivo. Curioso é que Eric Clapton, de alguma forma, seguiu esse caminho com BB King, embora aí esteja o blues e o blues é Clapton, e com o próprio Marsalis e também com a mesma naturalidade. Talentos assim não possuem fronteiras. E nos mostram e ensinam o quanto nós também não devemos ficar fixados em rótulos e fantasias comerciais passageiras. Essa viagem com Nelson é magnífica.

The Grateful Dead: American Beauty

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A figura emblemática e repleta de carisma de Jerry Garcia sempre conduziu os caminhos do Grateful Dead desde 1965. A cena hippie, o psicodelismo da época em San Francisco, Califórnia, foram a essência do grupo que mesclou folk rock, country, o rock psicodélico e mais adiante até fletes com o jazz. estavam à frente de muitos e suas apresentações recheadas de improvisos quebravam com as rotinas dos bem comportados grupos de então. Faziam a sua música. Foram únicos, tiveram seus seguidores, até os dias de hoje por sinal, e somente pelo fim dos anos sessenta entraram em estúdio para valer. Vieram primeiro com Workingman`s Dead, com um sonoridade madura, centrada e com os flertes acentuados nos gêneros country, pop e jazz. Um disco que alicerçou American Beauty de 1970. Álbum quase todo acústico, percebe-se aqui e ali a guitarra elétrica, mas é no bandolim, na pedal steel guitar, nos vocais e backings e sua sutilezas que engrandecem a obra do Dead. É nesse encontro de estúdio que começa uma parceria extraordinária entre Jerry e David Grisman. Todas as dez faixas se igualam em beleza e encantamento, em harmonia com o todo sem quebrar em nenhum momento parte alguma de cada canção. Âncora, Garcia conduz o Grateful Dead a concepção do seu melhor disco. E cabe a cada um de nós, se assim desejarmos, desfrutarmos de uma unidade rara, criativa e sensível.

The Notting Hillbillies & Mark Knopfler

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O escocês Mark Knopfler é muito mais que a guitarra do Dire Straits. Seus flertes com outros gêneros e trilhas sonoras o colocam como um músico que não descansa em apenas um gênero. Seus projetos apontam para a diversidade de sua criação como compositor e uma espécie de dom muito especial da forma de tocar seu instrumento. A banda The Notting Hillbillies tem acento country, perceptível em alguns trabalhos do Dire Straits, e ainda que uma formação passageira com objetivo beneficente, deixou marcas. Marcas com as digitais de Knopfler. O álbum Missing…Presumed Having a Good Time reuniu, além de Mark, Guy Fletcher nos teclados, Steve Phillips na guitarra, Brendan Croker também na guitarra e o baterista Ed Bicknell em 1990. Um trabalho coeso e único no sentido de ter sido apenas um único disco gravado, embora tenham se encontrado para a realização de shows anos mais tarde com outros membros, entre eles os teclados de Alan Clark. Knopfler já havia incursionado pelo country quando gravou Neck and Neck com Chet Atkins, e também em seus álbuns solos há uma tendência ao gênero, sem deixar de citar Emmylou Harris também e o bardo Bob Dylan. Há gravações dele com Dylan antológicas em alguns discos com Infidels  e Slow Train Coming. Em suas trilhas, as composições criam mais atmosferas inseridas ao enredo, sem perder de vista o virtuosismo do compositor. Local Hero e Cal mostram Mark em plena forma criativa. Na carreira solo, Sailing to Philadelphia, com as presenças de James Taylor e Van Morrison dão um quê muito especial. Contudo, é com os Hillbillies que sua performance é mais solta e sua guitarra parece flutuar. Há uma passagem, não desse disco, mas de uma coletânea feita com vários artistas – Music for Montserrat – em que apresenta Money for Nothing com Sting e Eric Clapton acompanhados por Orquestra em que todo o seu talento como instrumentista explode de tal forma que certa vez ao passar diante de uma loja de departamentos um aparelho de televisão reproduzia essa passagem e em seu redor havia uma multidão assistindo a suavidade da guitarra. Um momento esse sim único. Essas influências do rock, blues, folk e country fazem de Mark Knopfler um músico que pode sim alternar bons, maus e extraordinários momentos. Todo grande instrumentista e compositor passa por isso, e o escocês não é diferente. Escutá-lo é um sentimento. E por isso vale cada segundo de suas harmonias. Um pouco de Mark Knopfler abaixo.

Roger McGuinn, o mago dos Byrds

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Roger MCGuinn, nascido James, depois Jim e finalmente Roger, sempre esteve à frente do seu tempo. O filho de Chicago trouxe à música a eletrificação, por exemplo, das canções acústicas de Bob Dylan e Pete Seeger. Com o The Byrds mexeu com estruturas que permaneciam latentes e avançou tanto nos vocais quanto nos arranjos ousados. Um grupo formado por Roger, Gene Clark, David Crosby, Chris Hillman e Michael Clarke jamais passaria em branco em um cenário onde já despontavam Beatles, Rolling Stones, Kinks, Yardbirds e já apareciam logo após Bee Gees, Cream, Pink Floyd e a lista aumentava a cada mês naqueles tempos. Isso é 1965, cinquenta anos atrás.  Arrisco a afirmar que os Byrds foram o embrião melhor acabado do que seria os acústicos Crosby, Stills, Nash & Young. Acompanhem as linhas de ambos, as harmonias, os vocais. Há um universo de semelhanças que a magia de McGuinn, que não participou do CSN&Y, parece estar presente e teve em Crosby o seu representante, ainda que David sempre teve personalidade própria. Como poucos souberam lidar com os gêneros: folk, country e o rock. Como poucos abriram espaços generosos para os que vinham e também para os que já estavam.  Roger McGuinn foi (é) um mago. Da sua guitarra e vocais a doçura de tempos ásperos. De tempos de transformações que receberam das texturas dos Byrds um sentido novo e de esperança. A lamentar que não foram adiante. Se dispersaram, seguiram outros caminhos, alguns partiram, e a vida seguiu. Outro dia assisti a um filme chamado The song onde Alan Powell é um compositor e cantor folk/country que a tantas do enredo canta Turn! Turn! Turn!, canção preferida da sua esposa. Nos créditos finais, ao fundo a mesma música é interpretada por Roger McGuinn e Emmylou Harris. A magia dos Byrds e de Roger. Hoje, passadas cinco décadas, não olho pelo espelho para ver o que está lá atrás, mas não posso negar que aqueles anos são a essência de um tempo que ainda tem que ser melhor compreendido ou talvez ainda deva ser vivido sem ser passado.